Saúde do coração

Mulheres com insuficiência cardíaca têm sobrevida maior do que os homens

Levantamento observou que pessoas do sexo feminino são mais acometidas por uma forma da doença que apresenta menos risco de mortalidade

Insuficiência cardíaca: estudo dugere que mulheres têm sobrevida 31% maior em relação aos homens

Insuficiência cardíaca: estudo dugere que mulheres têm sobrevida 31% maior em relação aos homens (Eyecandy Images/Thinkstock)

Um estudo desenvolvido no Hospital Universitário de Madrid, na Espanha, concluiu que mulheres com insuficiência cardíaca crônica têm sobrevida maior do que os homens. A pesquisa, publicada nesta quinta-feira no European Journal of Heart Failure, reuniu mais de 40.000 pessoas e é a maior já realizada sobre o assunto. "Os resultados do estudo são importantes pois lembram os médicos que idade, sexo e ambiente onde o paciente vive devem interferir nas melhores estratégias para o tratamento do problema", disse ao site de VEJA o cardiologista Edimar Bocchi, do Incor (veja o que o médico disse sobre a pesquisa abaixo).

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INSUFICIÊNCIA CARDÍACA
Pode acontecer em decorrência de qualquer doença que afete diretamente o coração. Acontece quando o coração bombeia o sangue de maneira ineficaz, não conseguindo satisfazer a necessidade do organismo, reduzindo o fluxo sanguíneo do corpo ou a uma congestão de sangue nas veias e nos pulmões. A insuficiência faz com que os músculos dos braços e das pernas se cansem mais rapidamente, os rins trabalhem menos e a pressão arterial fique baixa. A função do coração é bombear o sangue para o corpo e, depois, tirar o sangue das veias. Quando o coração bombeia menos sangue do que o normal, há uma fração de ejeção reduzida. Quando o coração enfrenta dificuldades em receber o sangue novamente, trata-se de uma fração de ejeção preservada, ou insuficiência cardíaca com dificuldade de enchimento do coração. Embora possa acometer pessoas de todas as idades, é mais comum em idosos. Atinge uma média de uma a cada 100 pessoas.

A insuficiência cardíaca acontece quando o coração não consegue bombear o sangue de maneira eficaz para o corpo. O problema pode acontecer de duas maneiras.  Em uma delas, a fração de ejeção é reduzida, ou seja, a quantidade de sangue bombeada para o corpo é menor do que a de um coração saudável. A outra maneira da insuficiência se manifestar é pela fração de ejeção preservada, ou seja, o coração bombeia, no geral, níveis normais de sangue, mas ele tem dificuldade de se encher de sangue, precisando fazer mais força para isso.

Segundo a nova pesquisa, pessoas que sofrem de insuficiência cardíaca caracterizada pela fração de ejeção preservada têm menos riscos de mortalidade do que quem é acometido pelo outra forma da doença. Diante dessa conclusão, os pesquisadores sugeriram que, uma vez que já é observado que a insuficiência por fração preservada é mais comum entre o sexo feminino, é possível afirmar que há uma melhor sobrevida em mulheres do que homens com a perturbação.

A pesquisa — Os autores do estudo analisaram outros 31 levantamentos sobre insuficiência cardíaca que reuniram, no total, 28.052 homens e 13.897 mulheres, e observaram a sobrevida de pacientes com a doença crônica durante três anos. A taxa de mortalidade entre o sexo masculino foi de 137 óbitos por 1.000 pacientes, enquanto para mulheres esse número foi de 135 por 1.000.

Embora em números absolutos a diferença de mortalidade entre gêneros tenha sido praticamente nula, ela se mostrou grande após os dados serem ajustados de acordo com a idade dos indivíduos. Os pesquisadores concluíram que os homens com insuficiência cardíaca têm 31% mais chances de morrer do que as mulheres, e que ser do sexo masculino já é um fator de risco isolado para morte em decorrência do problema.  Esse risco maior de mortalidade entre os homens, no entanto, foi semelhante tanto naqueles com problema de fração de ejeção reduzida quanto naqueles com fração preservada. Idade e antecedentes de hipertensão arterial na família também não interferiram no resultado para o sexo masculino.

Além disso, a pesquisa também observou que, de maneira geral, as mulheres são mais velhas do que os homens quando sofrem de insuficiência cardíaca crônica, além de serem mais afetadas por um histórico de hipertensão ou diabetes na família.

“Esse estudo demonstrou claramente que a sobrevida é maior entre mulheres com insuficiência cardíaca do que entre homens com o mesmo problema, independentemente da fração de ejeção, da idade e de outras variáveis”, afirma o coordenador do estudo, Manuel Martinez-Selles Maranon. De acordo com o pesquisador, esse fato pode ser explicado de diversas maneiras. Uma delas está no fato de o coração feminino responder de maneira diferente a lesões do que o masculino e ser protegido contra certos problemas, como arritmias cardíacas, por exemplo.

Para os pesquisadores, os resultados do estudo mostram a importância de os médicos considerarem o sexo do paciente na hora de realizar o diagnóstico e determinar o melhor tratamento.


Opinião do especialista

Edimar Bocchi
Médico cardiologista e chefe de Insuficiência Cardíaca e Transplantes do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (Incor)


"Uma possível explicação para a conclusão desse novo estudo, de que mulheres sobrevivem mais com insuficiência cardíaca, pode estar no fato de que elas sofrem do problema mais tardiamente, um fato que os médicos já conhecem. Acontece que elas são protegidas contra algumas doenças do coração em determinados períodos, como o da menstruação. Há uma série de probabilidades para explicar esse fato, mas nada comprovado. Imagina-se a alteração hormonal que acontece nessas épocas atue de alguma maneira como agente protetor ao coração.

Também já sabíamos que a fração de ejeção preservada é mais comum em mulheres e mais idosos. No entanto, não existe um consenso sobre o que o estudo afirmou, ou seja, que essa forma da insuficiência provoca menos mortalidade. Enquanto vários estudos já mostraram o contrário, outros concordaram com essa nova pesquisa.

Os resultados do estudo são importantes pois lembram os médicos que idade, sexo e ambiente onde o paciente vive devem interferir nas melhores estratégias para o tratamento do problema. A insuficiência é grave em qualquer situação, mas é diferente em mulheres e em homens, e pode ser mais grave em uma pessoa de 90 anos em comparação com uma de 70.

É possível diminuir as chances de insuficiência cardíaca. Estilo de vida saudável, boa alimentação, atividade física e visitas regulares ao médico para prevenção de doenças cardiovasculares devem ser seguidos por todos."

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