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Casa Branca condena vazamento de arquivos secretos da guerra no Afeganistão

- Atualizado em

Soldado Guerra Afeganistão
(AFP/VEJA)

A Casa Branca condenou nesta segunda-feira o vazamento de arquivos secretos sobre a guerra no Afeganistão. Os documentos militares, liberados pela internet por uma organização chamada WikiLeaks, são o diário de uma força liderada pelos Estados Unidos muitas vezes carente de recursos e atenção, em luta contra uma insurgência cada vez maior, mais bem coordenada e mais letal a cada ano.

O assessor de segurança nacional, general James Jones, afirmou que a divulgação do dossiê coloca em risco as vidas dos soldados americanos e o trabalho das forças de coalizão. "Condenamos veementemente a divulgação de informações classificadas por indivíduos e organizações, o que ameaça nossa segurança nacional", enfatizou, em um comunicado oficial. Segundo ele, os documentos relatam fatos principalmente da época do governo George W. Bush e, portanto, antes da nova estratégia do presidente Barack Obama "com um aumento substancial dos recursos para o Afeganistão".

O governo do Paquistão também criticou o vazamento das informações. De acordo com o embaixador do país, Husain Haqqani, os arquivos "não refletem a atual realidade no terreno" onde há uma força militar conjunta para derrotar a Al-Qaeda e os talibãs. Os dois países destacaram uma equipe de especialistas para investigar como ocorreu o vazamento.

Segundo o general Jones, "o WikiLeaks não fez nenhum esforço para nos contatar sobre os documentos - o governo dos Estados Unidos soube por organizações de imprensa que esses documentos se tornariam públicos". Um funcionário americano afirmou que a Wikileaks não é uma fonte de notícias objetivas, mas sim uma organização que se opõe à política americana no Afeganistão.

Documentos - Um arquivo de seis anos de documentos militares reservados veio a público no domingo, oferecendo uma imagem sem adornos da guerra do Afeganistão que em muitos aspectos é mais sombrio que o retrato oficial. Os jornais americano The New York Times e britânico The Guardian, além da revista alemã Der Spiegel, tiveram acesso ao volumoso registro há algumas semanas. Os documentos - cerca de 92.000 relatórios que abrangem parte de duas administrações, de janeiro de 2004 a dezembro de 2009 - mostram em detalhes por que, depois de os Estados Unidos terem gasto quase 300 bilhões de dólares na guerra no Afeganistão, o talibã está mais forte do que em qualquer momento desde 2001.

Enquanto o novo comandante americano no Afeganistão, general David Petraeus, tenta reverter o atraso do esforço de guerra, os documentos esboçam uma guerra paralisada por governo, forças policiais e exército afegãos de lealdade e competência questionáveis, e por militares paquistaneses que surgem no melhor caso como não cooperativos e, no pior, trabalhando nas sombras como um aliado tácito das várias forças insurgentes que a coalizão liderada pelos Estados Unidos tenta derrotar.

A publicação deste material chega em um momento em que o Congresso e o público americanos estão cada vez mais céticos com o profundo envolvimento no Afeganistão e suas chances de sucesso antes da data limite para a retirada das tropas no próximo ano. O arquivo é uma lembrança viva de que o conflito afegão, até recentemente, era uma guerra de segunda classe, com dinheiro, tropas e atenção voltados ao Iraque, enquanto soldados e fuzileiros navais lamentavam que os afegãos treinavam e não estavam sendo pagos.

Os relatórios - que trazem algumas narrativas detalhadas - lançam luz sobre alguns elementos da guerra, que foram escondidos dos olhos do público:

- O talibã usou mísseis portáveis de busca por calor contra aviões aliados, um fato que foi divulgado pelos militares. Esse tipo de arma ajudou os afegãos a derrotas as tropas soviéticas na década de 1980.

- Unidades secretas como o Grupo de Tarefas 373 - um grupo reservado do Exército e agentes especiais da Marinha - trabalharam numa lista de captura e morte de cerca de 70 altos comandantes insurgentes. Tais missões, que se intensificaram durante o governo Obama, obtiveram êxitos notáveis, mas às vez foram mal, matando civis e avivando o ressentimento afegão.

- Os militares empregaram cada vez mais os aviões-abelha para levantamento de campo de batalha e ataque a alvos no Afeganistão, embora seu desempenho fosse menos impressionante do que retratado oficialmente. Alguns se acidentaram ou colidiram, forçando as tropas americanas a realizar arriscadas missões de resgate antes de o armamento cair em mãos do talibã.

- A Agência Central de Inteligência expandiu operações paramilitares dentro do Afeganistão. As unidades de lançamento de emboscadas, ataques aéreos e incursões fim conduta. De 2001 a 2008, a CIA pagou o orçamento da agência de espionagem do Afeganistão e funcionou como uma subsidiária virtual.

Contradições - Em geral, os documentos não contradizem os dados oficiais da guerra. Mas, em alguns casos, mostram que os militares americanos fizeram declarações enganosas ao público, como atribuir a derrubada de um helicóptero ao uso de armas convencionais, em vez de mísseis guiados por calor, ou dando crédito aos afegãos por missões realizadas por comandos de Operações Especiais. A Casa Branca negou com veemência que o governo Obama tenha apresentado um retrato enganoso da guerra no Afeganistão.

"Em 1º de dezembro de 2009, o presidente Obama anunciou uma nova estratégia, com aumento substancial de recursos para o Afeganistão e maior atenção aos refúgios da Al Qaeda e do talibã no Paquistão, justamente por causa da grave situação que se desenvolveu ao longo de vários anos", destacou o general James Jones. "Sabemos os importantes desafios que temos adiante, mas se o Afeganistão voltar ao passado, estaremos outra vez diante da ameaça de grupos extremistas violentos como a Al Qaeda, que terá mais espaço para tramar e treinar", completa.

O arquivo é claramente um registro incompleto da guerra. Não há, por exemplo, informações classificadas como altamente secretas nem de eventos deste ano, quando a chegada de mais tropas ao país deu início a uma estratégia de contra-insurgência. Eles sugerem que as avaliações internas dos militares sobre as perspectivas de conquistar a população afegã, especialmente nos primeiros dias, foram muitas vezes otimistas, por vezes ingênuas. Há fugazes lembranças de por que a guerra começou, com referências ocasionais elusivas a Osama Bin Laden. Em alguns relatórios, se afirma que ele participou de encontros em Quetta, no Paquistão. Bin Laden supostamente teria ordenado um ataque suicida contra o presidente Hamid Karzai.

(Com The New York Times)

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