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Em mais de uma ocasião, o presidente Hugo Rafael Chávez Frías disse que pretendia permanecer no poder na Venezuela até 2031. Na tarde desta terça-feria, contudo, as complicações advindas de um câncer na região pélvica abreviaram seus planos: Chávez morreu às 16h25 (17h55 de Brasília), e com isso teve fim um governo que já durava 14 anos. Junto com Chávez morre o chavismo, que mistura o pior do populismo, do ultranacionalismo, do caudilhismo e do 'socialismo do século XXI' - tão nefasto quanto o do século XX. A morte deixa um vácuo difícil de ser preenchido, já que nenhum sucessor tem a mesma ascendência sobre os membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e as Forças Armadas, nem o mesmo carisma para conduzir as massas.

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Origens - Nascido em 28 de julho de 1954, o segundo filho de dois professores da cidade venezuelana de Sabaneta, no oeste da Venezuela, chegou a pensar em se dedicar profissionalmente ao esporte mais popular do país, o beisebol. A mudança de rumo veio depois que entrou para o Exército, aos 17 anos, com o objetivo inicial de se mudar para a capital, Caracas, onde seu talento esportivo poderia ser mais facilmente reconhecido.

Acabou mergulhando no campo militar e foi um dos fundadores do grupo que ficou conhecido como Movimento Bolivariano Revolucionário - em homenagem ao líder da independência da Venezuela, Simon Bolívar. Começou então a organizar seus aliados para tomar o poder. A tentativa de golpe fracassada contra o governo de Carlos Andrés Pérez, em 1992, resultou na morte de 18 pessoas e na prisão de Chávez. Depois de dois anos preso, ele foi perdoado pelo presidente Rafael Caldera e libertado em 1994.

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Quatro anos depois, o coronel paraquedista assumiu o comando da Venezuela ao ser eleito com 56% dos votos. Diante de um cenário político marcado pela corrupção, Chávez apresentou-se como um representante das classes mais baixas que promoveria uma melhor distribuição da riqueza vinda do petróleo. De fato, a maior fonte de recursos do país financia os programas assistencialistas conhecidos como "misiones", que consistem basicamente em uma fórmula para distribuir pequenas quantias de dinheiro aos beneficiários. Há misiones de alfabetização de adultos, de cooperativas agrícolas, de atendimento médico e de venda de alimentos subsidiados, entre outras. Todas estabeleceram uma dependência entre a população pobre e a figura onipresente de Chávez.

O medo de perder os benefícios sociais ou um cargo público manteve a população fiel ao coronel, em um estilo de governo batizado por opositores de "medocracia". A suspeita de que o sigilo do voto poderia ser violado buscava alicerces em momentos como o verificado em 2004, quando aliados do presidente elaboraram uma lista com o nome de todos os venezuelanos que foram a favor da convocação de um referendo contra Chávez. Além disso, ao longo de seus três mandatos consecutivos, outras irregularidades foram relatadas, como mesários votando no lugar dos eleitores ausentes ou permitindo que militantes chavistas acompanhassem eleitores na cabine de votação. Até sua saída de cena, as artimanhas foram alteradas, mas nunca eliminadas.

Trajetória - Logo depois de assumir o poder, Chávez convocou um referendo em abril de 1999, conseguindo autorização popular para eleger os representantes da Assembleia Constituinte que elaboraria a nova Constituição da República Bolivariana da Venezuela, então renomeada. A Constituição acabou com o sistema legislativo bicameral - desde então, o Parlamento é dominado por aliados do presidente. Novas eleições foram convocadas para julho de 2000, e Chávez foi eleito com quase 60% dos votos. Pouco depois, foi aprovada a chamada Lei Habilitante, permitindo ao coronel governar por meio de decretos.

A era Chávez foi um período de intensa polarização no país. Os opositores, vendo na figura do presidente uma ameaça comunista, começaram a alertar a classe média sobre os planos de Chávez de nacionalização de toda a iniciativa privada. O mandatário acusava a oposição de ser "burguesa", "oligárquica" e influenciada pelo "imperialismo americano".

As diferenças ficaram evidentes em 2002, quando Chávez demitiu os gestores da PDVSA, substituindo-os por pessoas da sua confiança. A decisão, associada à insatisfação com as medidas como a desapropriação de latifúndios, provocou uma tentativa de golpe de estado. Em protesto, a Fedecámaras, entidade representante dos empresários, convocou uma greve geral para o abril, que terminaria com 13 mortos. O descontentamento com a liderança de Chávez atingiu também alguns setores do Exército, e antigos apoiadores do coronel o abandonaram. No dia 12 de abril do mesmo ano, um grupo de oficiais anunciou que Chávez tinha renunciado e que o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, havia assumido o comando do país. Mas o plano deu certo apenas por 47 horas. Partidários de Chávez, apoiados por comandantes militares, pediram a volta do mandatário, e Carmona abandonou o posto. Depois de reassumir o posto, Chávez passou a reprimir os meios de comunicação independentes, com a acusação de que eles estariam distorcendo as informações em favor da oposição.

Mas a insatisfação resultou em novos protestos e greve geral, que afetou a produção de petróleo na Venezuela. Afetados pelo problema, os Estados Unidos pressionam a oposição por um acordo com o governo. Em 2003, uma coligação de partidos opositores convocou um referendo sobre a permanência ou não de Chávez no poder. A consulta popular foi realizada no ano seguinte, com a maioria dos eleitores apoiando o presidente - sob acusações de fraude por parte da oposição, que, no ano seguinte, boicotou as eleições parlamentares.

Em dezembro de 2006, Chávez foi reeleito para um terceiro mandato, com quase 63% dos votos. No ano seguinte, decidiu não renovar os direitos de transmissão da emissora de TV mais popular do país, a RCTV. Governando sem oposição no Parlamento, o caudilho ganhou poderes para atuar novamente por meio de decretos. Ainda em 2007, no entanto, sofreu um revés quando os venezuelanos votaram contra a proposta de reforma constitucional que previa, entre outras medidas, o direito de reeleição ilimitada para a Presidência. A derrota foi logo revertida pelo ditador, que convocou no ano seguinte uma nova consulta popular para aprovar o item que lhe permitiria perpetuar-se no poder. A aprovação, mais uma vez, foi feita com amplo uso da máquina pública.

Em 2010, a oposição recebeu a maioria dos votos na eleição parlamentar. Mas Chávez conseguiu garantir mais representantes do PSUV na Assembleia Nacional ao alterar os mapas dos distritos eleitorais, dando mais peso aos votos das zonas rurais, onde tinha mais apoio.

Nas últimas eleições presidenciais, em 7 de outubro de 2012, Chávez voltou a usar a máquina para impor toda sorte de obstáculos à campanha do opositor, Henrique Capriles, governador do estado de Miranda. Logo depois da unificação opositora em torno do nome de Capriles, ele foi punido com um corte no orçamento do seu estado. O governo nacional também tirou de sua administração todos os hospitais e postos de saúde. Ao longo da campanha, Chávez lançou mão do expediente antidemocrático de usar a cadeia nacional de rádio e TV para interromper transmissões de atos políticos de Capriles pelas emissoras. E chegou até mesmo a acusar a oposição de fazer bruxaria contra sua campanha. Divulgado o resultado que assegurou um quarto mandato presidencial ao coronel, a oposição afastou a hipótese de fraude, mas destacou que a campanha fora feita em condições desiguais.

Bufão - Internamente, Chávez usou com desenvoltura as emissoras de TV para cantar, fazer longos discursos e palhaçadas. Essa personalidade excêntrica também foi apresentada a líderes mundiais em diversas ocasiões. Uma das mais marcantes foi seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2006, quando chamou o presidente americano George W. Bush de "demônio" e recomendou a leitura de um livro de Noam Chomsky, conhecido crítico do governo dos EUA, sobre os perigos do imperialismo americano.

No ano seguinte, no entanto, ele encontrou um interlocutor com pouca paciência. O rei da Espanha, Juan Carlos, disse a Chávez a célebre frase "¿Por qué no te callas?" durante uma Cúpula Ibero-Americana, em Santiago, no Chile. A reação do rei ocorreu depois que Chávez chamou o ex-premiê espanhol José Maria Aznar, um aliado de Bush eleito democraticamente, de "fascista".

As ações de Chávez no exterior, contudo, foram muito além das bravatas. Além de financiar o assistencialismo que deu origem a uma fiel base eleitoral na Venezuela, o dinheiro do petróleo foi usado pelo ditador para comprar aliados na América Latina, como Cuba e Bolívia. O petróleo também estreitou as relações entre a Venezuela e a China. O governo chinês financia projetos na Venezuela e recebe petróleo em troca. Com isso, Chávez pretendia reduzir a dependência dos Estados Unidos, realidade da economia de seu país, a despeito do declarado antiamericanismo do caudilho.

Em nome de alianças, Chávez não se constrangeu ao enviar um navio com petróleo para a Síria em fevereiro de 2012, quando a comunidade internacional tentava isolar o governo de Bashar Assad. Chávez não deixou igualmente de apoiar Mahmoud Ahmadinejad, apesar dos esforços do Ocidente para dissuadir o Irã dos planos de desenvolver armas nucleares.

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A doença que derrubou Hugo Chávez

Desde o início da doença, o governo venezuelano nunca deu informações claras sobre o estado de saúde do coronel Hugo Chávez. Nem mesmo a localização exata e o tipo de tumor foram divulgados oficialmente. Opositores sempre reclamaram mais transparência, pedido rebatido com ameaças aos "inimigos" do país e desmentidos. A luta de Chávez para combater o câncer foi marcada por vários períodos de internação em Havana, tanto para tratamentos como para cirurgias. A estreita ligação com o governo cubano também levou a protestos contra a ingerência dos irmãos Castro sobre a Venezuela. Saiba quais foram os principais fatos dos quase dois anos de batalha de Chávez contra a doença que finalmente o derrubou:

Doença - Desde junho de 2011, quando revelou que enfrentava um câncer, Chávez viajou diversas vezes a Cuba para dar continuidade ao tratamento, sem detalhar sua situação. As informações sobre a doença foram desencontradas desde o início - nem o tipo nem a localização dos tumores foram revelados com exatidão. Até mesmo os comentários de Chávez sobre o câncer oscilavam. Em um momento, ele parecia otimista e se dizia "curado". Em outro, alertava para uma queda de ritmo. Depois, prometia voltar "com mais energia".

Em novembro de 2012, seis meses depois da última sessão de quimioterapia e após ficar semanas sem aparecer em público, voltou a Cuba para um tratamento especial. Oficialmente, anunciou que as sessões de oxigenação hiperbárica "consolidariam o processo de fortalecimento" de sua saúde. Depois de ficar mais de uma semana na ilha, voltou à Venezuela. Porém, apenas dois dias depois, informou que viajaria novamente a Cuba para se submeter à quarta cirurgia em 18 meses. Admitiu que a nova intervenção cirúrgica apresentava um risco e, pela primeira, vez falou em um sucessor: o vice-presidente, Nicolás Maduro. Depois meses após o início da internação em Cuba, o governo divulgou fotos do mandatário com as filhas. Ele aparecia sorridente.

Ao longo do tratamento, Chávez apelou para a fé. Durante a Semana Santa de 2012, o ditador venezuelano demonstrou um fervor religioso fora do comum. Logo ele, que costumava condenar a Igreja e sua hierarquia, insultando cardeais, bispos e até mesmo o Vaticano. No feriado religioso, Chávez participou de uma missa em Barinas, seu estado natal, onde se mostrou um católico devoto.

Chávez casou-se duas vezes. A primeira mulher foi Nancy Colmenares, com quem teve três filhos: Rosa Virginia, María Gabriela e Hugo Rafael. A segunda foi a jornalista Marisabel Rodríguez, de quem se separou em 2003, com quem teve uma filha, Rosinés. Chávez também teria mantido uma relação amorosa por cerca de dez anos com a historiadora Herma Marksman, enquanto era casado com sua primeira mulher.

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