Energia

Depois de fechar usinas nucleares, Alemanha teme apagões

Metade dos reatores do país foi desativada e produtores de eletricidade lutam para garantir o suprimento adequado de energia para residências e empresas

Elisabeth Rosenthal, de Biblis, Alemanha
Usina nuclear de Philippsburg, na Alemanha - 20/07/2011

Usina nuclear de Philippsburg, na Alemanha - 20/07/2011 (Benjamin Kilb/The New York Times/VEJA)

A Alemanha não sofre apagões significativos desde o severo período posterior à Segunda Guerra Mundial, mas agora está encarando essa possibilidade, depois de fechar metade de seus reatores nucleares praticamente do dia para a noite.

A energia nuclear vem gerando há muito tempo quase um quarto da eletricidade da Alemanha. Mas depois do tsunami e terremoto que espalharam radiação de Fukushima, a meio mundo de distância, no Japão, o governo desconectou os oito reatores mais antigos entre os 17 da Alemanha, num intervalo de dias. Passados três meses, com um novo plano para fornecer energia ao país sem contar com a energia nuclear, e uma confiança crescente em fontes de energia renováveis, o Parlamento votou pelo fechamento permanente das usinas.

Existem planos para aposentar os nove reatores remanescentes até 2022. Como resultado, os produtores de eletricidade estão lutando para garantir o suprimento adequado. Os consumidores e companhias estão nervosos, sem saber se suas luzes e linhas de montagem vão continuar funcionando durante o próximo inverno. E os economistas e políticos discutem sobre o quanto os preços irão aumentar.

“Tenho certeza de que algum dia poderemos passar sem a energia nuclear, mas isso foi muito abrupto”, diz Joachim Knebel, cientista-chefe do prestigioso Instituto de Tecnologia Karlsruhe, na Alemanha.

Ele caracteriza a decisão dos fechamentos tomada pelo governo como “emocional”, e observa que, na maioria dos dias, a Alemanha tem sobrevivido a esse experimento apenas porque está importando eletricidade das vizinhas França e República Checa, que geram muito de sua energia por meio de reatores nucleares.

Existem preocupações reais de que esse plano possa abandonar os esforços feitos para controlar o aquecimento global promovido pelo homem, já que a energia nuclear – com todas as suas deficiências – gera emissões de carbono muito baixas. Se a Alemanha, quarta maior economia mundial, voltar para as sujas usinas de queima de carvão ou suprimentos incertos de gás natural proveniente da Rússia, o país não estará trocando um risco potencial por um risco real?

A Agência Internacional de Energia, normalmente fã da política de energia sustentável da Alemanha, tem sido crítica. Laszlo Varro, chefe da agência para a divisão dos mercados de gás, carvão e energia, definiu o plano como “muito, muito ambicioso, embora não seja impossível, já que a Alemanha é rica e tecnicamente sofisticada”.


Mesmo que a Alemanha tenha sucesso em produzir a eletricidade da qual necessita, “a moratória nuclear significa notícias muito ruins em termos de políticas climáticas”, diz Varro. “A perda da energia nuclear torna as coisas desnecessariamente difíceis.”

O governo rebate, dizendo que está preparado para fazer investimentos pesados para melhorar a eficiência energética nas casas e fábricas, e também em novas fontes de energia limpa e linhas de transmissão. Até agora, não houve apagões.

Jürgen Grossmann, presidente da gigante de energia alemã RWE, que é a dona dos dois reatores fechados aqui em Biblis, a aproximadamente 64 quilômetros ao sul de Frankfurt, expressa ceticismo. “A Alemanha, em uma decisão muito precipitada, resolveu experimentar com ela mesma”, diz. “Os políticos estão rejeitando os argumentos técnicos”.

Os planejadores alemães acreditam que podem renunciar à energia nuclear, grande parte graças ao notável progresso do país no campo da energia renovável, que atualmente contabiliza 17 por cento da produção de energia nacional, número que o governo estima que irá dobrar em dez anos. Nos dias em que os aerogeradores no mar estão funcionando a toda potência, a Alemanha produz mais eletricidade de fontes renováveis do que necessita, segundo os monitores de energia europeus.

A Alemanha “excedeu as expectativas de todos com a energia renovável”, diz Varro, mostrando que ela poderia ser confiável e eficaz em termos de custos.


Até o fechamento dos reatores, a Alemanha era líder europeia em exportação de energia.

Com um total de 133 gigawatts de capacidade geradora instalada no começo deste ano, “realmente havia muito espaço para o fechamento dos reatores nucleares”, disse Harry Lehmann, diretor geral da Agência Federal Ambiental Alemã e um dos principais formuladores de políticas sobre energia e meio ambiente na Alemanha, sobre o plano que ele mesmo ajudou a desenvolver.

O país precisa de aproximadamente 90,5 gigawatts de capacidade geradora à mão, para suprir uma típica demanda nacional diária de 80 gigawatts. Então os 25 gigawatts de contribuição da energia nuclear não farão falta – pelo menos dentro de suas fronteiras.

Para ser cauteloso, o plano prevê a criação de 23 gigawatts vindos de usinas de carvão e gás até 2020. Por quê? Porque as usinas renováveis não chegam nem perto de sua capacidade máxima se o ar está calmo ou o céu está nublado, e atualmente a capacidade de armazenar e transportar energia é limitada, dizem os especialistas em energia.

As novas usinas de gás e carvão irão usar a tecnologia mais limpa disponível e não deverão agravar as mudanças climáticas, dizem as autoridades governamentais, porque elas vão operar dentro do sistema europeu de troca de carbono – no qual as usinas que excedem a quantidade de emissões permitida têm de comprar créditos de carbono de companhias cujas atividades são benéficas ao ambiente, dessa maneira nivelando a conta com a natureza.
Espera-se que os preços da eletricidade aumentem de 35 a 40 euros (US$ 50 a US$ 60) por habitação a cada ano, ou menos de 5 por cento, estima o governo.

Embora a energia nuclear geralmente custe menos do que as opções mais atuais, as leis alemãs estipularam há muito tempo que as energias renováveis devem ser utilizadas prioritariamente, mesmo se forem mais caras.
Mas os céticos consideram as suposições do governo exageradamente otimistas.

Mesmo antes dos incidentes em Fukushima, a energia nuclear já estava com seus dias contatos na Alemanha. A Alemanha já estava colocando em ação um plano para retirar lentamente a energia nuclear até 2023. O fato de o Japão ser um país tecnologicamente avançado fez com que o acidente nuclear fosse ainda mais alarmante para o povo alemão do que a tragédia de Chernobyl, que ocorreu em um antigo reator soviético. Apesar disso, especialistas da indústria e moradores das cidades dos reatores, como Biblis e Philippsburg, próxima dali, ficaram chocados com a maneira súbita com que ocorreu essa reviravolta. As duas cidades irão perder centenas de empregos e milhões em receitas de impostos.

As companhias de energia da Alemanha, no entanto, dizem que receberam um modelo de energia nacional que parece ótimo no papel, mas que na prática é tecnicamente um desafio. Embora a produção de energia do país seja abundante, as empresas dizem que ela não está sempre disponível onde e quando é necessária.

O norte da Alemanha tem o vento dos mares e os depósitos de carvão, mas o sul – epicentro industrial e casa de Mercedes, BMW e Audi – não possui nenhuma fonte local de energia abundante que não seja nuclear. A atual rede de distribuição alemã é altamente descentralizada, tendo falta de linhas de transmissão de alta voltagem para mover a eletricidade por distâncias longas.

“Agora, com o fechamento das usinas nucleares, temos uma tarefa muito difícil”, diz Joachim Vanzetta, chefe de operações do sistema de transmissão em Amprion, a maior entre as quatro operadores de rede elétrica do país.

Nesse inverno, a Amprion prevê que sua rede terá 84 mil megawatts de eletricidade à sua disposição, para fornecer 81 mil megawatts necessários para consumo – uma margem de segurança desconfortavelmente pequena, diz Vanzetta.

Em anos anteriores, a eletricidade estava à disposição para aquisição da rede europeia, se o preço estivesse correto. Mas a energia exportada da Alemanha foi o que ajudou a França a continuar brilhando durante os invernos.

“No atual momento, estamos lidando com um sistema tenso, mas sob controle”, diz Vanzetta. “Se tivermos dias sem vento ou sem sol e não pudermos comprar energia de fora, então haverá risco de apagões”.


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