Literatura

"Se tivesse de escrever como Nicholas Sparks, iria consertar caminhões", diz Chuck Palahniuk

Dezesseis anos após o lançamento de 'Clube da Luta', autor fala sobre seu novo livro, que sai no Brasil no segundo semestre, e de sua vontade de voltar a trabalhar com o cineasta David Fincher

Carol Nogueira
O escritor Chuck Palahniuk, de Clube da Luta

O escritor Chuck Palahniuk, de Clube da Luta (Divulgação/VEJA)

Há 13 anos, o escritor americano Chuck Palahniuk ganhou status cult e um séquito fiel de fãs quando seu primeiro livro, Clube da Luta, virou filme dirigido por David Fincher e estrelado por Edward Norton e Brad Pitt. O longa foi um fracasso de bilheteria, mas sua violência explícita rende, até hoje, muita discussão. Esgotado há anos no Brasil, o livro de 1996 foi relançado pela editora LeYa neste mês no país. Palahniuk se estabeleceu como escritor e já lançou outras 11 obras, todas com a mesma capacidade de suscitar questões filosóficas. Seu background diz muito sobre os livros, que frequentemente contêm violência e questionamentos sobre a morte: pouco tempo após a publicação de Clube da Luta, seu pai foi assassinado pelo ex-marido da então namorada, e, alguns anos depois, sua mãe morreu de câncer. O livro mais recente do escritor, Damned, que sai por aqui no segundo semestre, é inspirado na Divina Comédia, de Dante Alighieri, e narra a saga de uma garota (Madison Spencer) que tem de investigar como morreu ao chegar ao inferno.

“Por que desperdiçar a vida falando sobre assuntos com os quais você se sente confortável?”, diz o escritor ao site de VEJA. “Toda vez que ouço falar em um clube de luta inspirado no meu livro, meu coração se enche de orgulho. Ver as pessoas me imitando é um elogio, e as regras do Clube da Luta são meu maior legado”, afirma. Ele diz ainda que enxerga a organização anti-capitalista fictícia “Project Mayhem”, criada no livro com base em uma sociedade da qual ele fazia parte, como precursora do movimento Ocupe Wall Street. “Mas acho que nós nos divertíamos mais. Sempre tivemos um senso de ridículo, algo que o Ocupe podia adotar. Às vezes, eles são muito irritantes”, afirma o provocador Palahniuk.

Com direitos vendidos para produtoras de cinema ao redor do mundo, outras de suas histórias podem ganhar vida nas telonas – ou não, pelo menos enquanto a crise instalada no mercado de cinema continuar afastando os produtores de projetos arriscados. “Não mudo meu número de telefone há anos, na esperança de que David Fincher me ligue um dia para fazermos algo novo”, brinca. Mas nada de tornar seu material palatável e banal como o do escritor-celebridade Nicholas Sparks, cujos livros são adaptados com frequência para o cinema – até hoje, sete viraram filmes. “Deus abençoe o senhor Sparks, mas, se um dia eu tivesse de escrever algo como Diário de Uma Paixão (filme de 2004 com Ryan Gosling e Rachel McAdams no elenco), voltaria a consertar caminhões”, ironiza.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Palahniuk ao site de VEJA:

Você se formou em jornalismo, mas, quando terminou a faculdade, virou mecânico. Por que? Parece que toda minha geração assistiu aos julgamentos do caso Watergate e quis virar jornalista. Quando eu me formei, o mercado de trabalho estava saturado. Não havia empregos e eu deixei a faculdade com uma dívida enorme de empréstimos estudantis. Para comer e pagar meu aluguel, eu peguei o melhor emprego que consegui encontrar: como mecânico. Meu objetivo era guardar algum dinheiro e voltar para o jornalismo, mas a ficção sempre foi minha paixão secreta. Consertar caminhões me salvou de passar fome, mas escrever ficção eventualmente me salvou dos caminhões.

Como explica o sucesso de Clube da Luta? E por que as pessoas falam tanto nele até hoje? Que sucesso? Tanto o livro e quanto o filme foram fracassos gigantescos na época. Levou anos até que encontrassem um público. Os críticos odiaram e os leitores típicos ficaram ofendidos. Talvez tenha sido essa ‘maldição’ que manteve as pessoas falando sobre eles. Mas toda vez que ouço falar em um clube de luta que se inspirou no livro, meu coração se enche de orgulho. Ver as pessoas me imitando é um elogio. As regras do Clube da Luta são meu legado.

Você ouviu falar sobre o caso do rapaz que abriu fogo dentro de um cinema e matou pessoas durante uma sessão de Clube da Luta no Brasil? Acha que filmes, livros ou games podem incitar a violência? Eu ouvi falar sobre isso na época. Quando as pessoas estão chateadas, elas tendem a querer colocar a culpa em alguém. Mas aí é que está: você não pode colocar a culpa de uma tragédia dessa em um filme. Clube da Luta mostra a violência de uma maneira muito mais responsável do que vários outros filmes.

A personagem de seu novo livro, Damned, é uma operadora de telemarketing. De onde tirou essa ideia? E o inferno que você descreve no livro? Quando minha mãe estava morrendo de câncer, eu cuidei dela por cerca de um ano. Durante esse período triste e solitário, as únicas pessoas com quem eu conseguia conversar eram os atendentes de telemarketing. Enquanto minha mãe dormia, eu conversava com esses estranhos durante horas. Agradeço a Deus pela companhia deles. Meus pais estão mortos, e vai levar três livros muito engraçados para que eu possa expressar meu luto. Semana passada eu terminei de escrever o segundo livro, e agora Madison escapou do purgatório e está entrando no céu. Já a minha visão de inferno é baseada em todos os quartos de hotel em que eu dormi enquanto promovia meus livros. A maioria é muito sujo, com fios de cabelo, restos de unhas, manchas de sangue. Para mim, o inferno é um quarto de hotel muito, muito sujo.

Muitas bandas, como Scissor Sisters e The Walkmen, escreveram músicas inspiradas nos seus livros. Por que acha que isso ocorre? Quando escrevo, tento criar algo que soe mais como a letra de uma música do que prosa tradicional. Por isso uso refrões e frases repetitivas. Uso muitas aliterações também. No fundo, quero que meu trabalho soe como uma música.

Você gostaria de trabalhar com David Fincher novamente? Existe algum projeto? Meus dedos estão cruzados há dez anos. Eu não mudei meu número de telefone desde então, só na esperança de que, algum dia, Fincher me ligue e me convide para fazer algo novo.

Que outros livros seus podem virar filmes? Não posso falar muito, pois esse projeto é dele, mas o belga Koen Mortier está trabalhando em Haunted, e nos encontramos recentemente no festival Crossing Borders na Holanda para discutir a ideia dele. Eu adorei um filme que ele fez, Ex-Drummer. Mas há muitos projetos rolando há algum tempo. Nenhum deles morre. Agora mesmo estamos discutindo a adaptação de Sobrevivente com uma produtora da Inglaterra. Só não vendemos os direitos de Damned – ainda.

Você escreve sobre muitos assuntos desconfortáveis. Acha que se escrevesse sobre temas mais banais, como Nicholas Sparks, seus trabalhos seriam adaptados com mais frequência para o cinema? Por que desperdiçar a vida explorando assuntos com os quais você se sente confortável? Se as reações ao meu trabalho são boas ou ruins, eu dou de ombros. Por que deveria me importar? Deus abençoe o senhor Sparks, mas, se eu tivesse de escrever algo parecido com Diário de Uma Paixão, voltaria a consertar caminhões.

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