Por: Rafael Lemos, do Rio de Janeiro - Atualizado em

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A despeito de erros que rendem pontos preciosos, a Mangueira deu de presente ao Rio o que faz de melhor: emoção na avenida e um Carnaval inesquecível

Imagine um gringo que cai de paraquedas na Marquês de Sapucaí e, momentos antes do espetáculo, tenta aprender algo sobre o universo das escolas de samba do Rio de Janeiro. O mais entendido dos bambas resumiria em linhas gerais: a Beija-Flor é a toda-poderosa, a Unidos da Tijuca é a mais inovadora e a Mangueira é o símbolo da tradição. Provavelmente, o tal gringo sairia muito confuso desse Carnaval.

Ao fim da segunda noite de desfiles na Sapucaí, as tradições parecem embaralhadas. Ousadia, criatividade e inovação vieram de onde menos se esperava. A bateria Surdo Um, da Estação Primeira de Mangueira, arriscou uma "paradona" em cada módulo de julgadores. Em silêncio, os ritmistas abriam caminho para o casal de mestre-sala e porta-bandeira atravessar a ala e, por fim, apresentar-se aos jurados. Enquanto isso, uma surpreendente roda de samba, comandada por Alcione, Dudu Nobre e outros, completava o atrevimento em verde e rosa.

Se não chegou ao nível de execução que põe a Vila Isabel (noite de domingo), Tijuca, Salgueiro e Beija-Flor no páreo para o campeonato, a verde e rosa fez em 2012 um desfile 'quente'. A despeito de erros que rendem pontos preciosos, a Mangueira deu de presente ao Rio o que faz de melhor: emoção na avenida e um Carnaval inesquecível. Falta de emoção, aliás, é algo de que o público da Marquês de Sapucaí não pode reclamar. Mesmo desfiles que não disputam o título, como o da Portela, marcaram o Carnaval por seu alto poder de contagiar as arquibancadas. Descontadas as preferências e rivalidades dos foliões mais aguerridos, fazer cantar e sambar é, em última análise, a grande vitória de uma escola de samba.

Um problema no sistema de som do Sambódromo atrapalhou justamente a primeira "paradona" da Mangueira. Foi um susto e tanto para os espectadores mais distantes da bateria, que chegaram a suspeitar do que seria o erro mais esdrúxulo da história do Carnaval. Pouco depois, ao assimilarem a complexa e inédita operação, entraram em êxtase, deslumbrados.

A euforia do público, no entanto, está longe de significar uma vitória na Quarta-feira de Cinzas. Mais uma vez, alegorias mal acabadas comprometeram o visual da escola, sem falar nas falhas na evolução dos componentes. Mas, pelo menos em relação a um quesito, os mangueirenses podem dormir tranquilos: samba-enredo. Dificilmente, o contagiante samba da Mangueira perderá algum décimo.

Desfile da Unidos da Tijuca, no Rio de Janeiro
Desfile da Unidos da Tijuca, no Rio de Janeiro(EFE/VEJA)

Unidos da Tijuca - Se até a Mangueira inovou nesse Carnaval, a Unidos da Tijuca deve ter virado a Sapucaí de cabeça para baixo, certo? Errado. O carnavalesco Paulo Barros teve dificuldades para imprimir seu estilo marcante no enredo sobre Luiz Gonzaga, que foge à sua linha de temas abstratos, como jogos, música, segredo ou medo. Dessa vez, havia uma história a ser contada, ainda que Barros tenha evitado uma narrativa biográfica.

Se faltou magia, a Unidos da Tijuca teve como ponto forte a sua própria infraestrutura, que nos últimos anos tem servido de base sólida para o inventivo Paulo Barros. A escola foi uma das poucas isentas de problemas como erros de evolução ou acabamento mal feito de alegorias. E é graças a essa perfeição técnica, e não à criatividade, que a Tijuca figura como uma das favoritas ao título.

Paulo Barros teve algumas boas sacadas, mas nada comparável às idéias mirabolantes dos últimos anos. Irreverente, o carnavalesco teve bom humor para alfinetar os jurados. Conforme o site de VEJA antecipou, a personagem Priscila (A rainha do deserto) saiu do abre-alas com uma placa na mão: "Voltei! Entenderam, agora?". Foi uma resposta às críticas pela presença da drag queen no desfile do ano passado, sobre o medo. Se os jurados vão levar 'numa boa' a provocação, é outra história.

A comissão de frente foi, talvez, a mais elaborada e criativa da safra 2012. No entanto, não conseguiu repetir o sucesso dos dois anos anteriores. Mesmo assim, deve garantir a nota máxima no quesito. A coreografia girou em torno do movimento do fole da sanfona, instrumento que era marca registrada do rei do baião.

Só para lembrar: o Carnaval é decidido na perda de pontos, nos erros. E não errar é a 'regra de ouro' em cada quesido.

Desfile da Salgueiro, no Rio de Janeiro
Desfile da Salgueiro, no Rio de Janeiro(AFP/VEJA)

Salgueiro - O talento do carnavalesco Renato Lage brindou a Marquês de Sapucaí com um Nordeste vivo, lúdico e fantástico. Para falar da literatura de cordel, o Salgueiro contou uma história fictícia, recheada com elementos que habitam o inconsciente coletivo brasileiro.

Cangaceiros, mulas-sem-cabeça, romeiros e Padre Cícero são alguns dos personagens dessa trama. De extremo bom gosto, as alegorias vieram pequenas, bem menores do que o habitual. A medida é reflexo de um provável trauma após o maior drama da história da escola, que estourou o tempo em 10 minutos devido à dificuldade para colocar as alegorias na Avenida.

A decisão do experiente carnavalesco acabou se revelando providencial. O Salgueiro voltou a apresentar problemas na condução dos carros alegóricos, mas conseguiu contornar a situação. A tarefa foi facilitada, em grande parte, pelo tamanho reduzido das alegorias.

Definitivamente, não foi um desfile arrebatador. No entanto, tirar pontos do Salgueiro será uma tarefa complicada. Por esse motivo, está firme e forte na briga pelo título.

Beija-Flor - No domingo, a Beija-Flor já havia deixado claro que sua outrora incontestável hegemonia ficou no passado. Para o bem do Carnaval, outras potências surgiram, pressionando todas as escolas a inovar continuamente.. Com um enredo sobre São Luís do Maranhão, a escola de Nilópolis foi responsável por um dos melhores desfiles do ano, ainda que em pé de igualdade com várias agremiações. A emocionante homenagem ao carnavalesco Joãosinho Trinta é o grande trunfo da agremiação.

Boatos sobre a saída do diretor de Carnaval Laíla, cabeça da escola, revelam o clima de instabilidade dentro da agremiação e deixam dúvidas sobre o seu futuro.

Vila Isabel - Com um enredo sobre Angola, a Vila Isabel fez um desfile alegre, envolvente e empolgante. Mostrou uma África colorida e festeira, embalada pelo ritmo do kuduro. Com um dos melhores sambas do ano e uma bateria afiada, é uma forte candidata ao título de 2012. Assim como a Tijuca, destacou-se pela ausência de erros.

A comissão de frente foi uma das mais interessantes do ano, reproduzindo uma savana africana. Os conjuntos de alegorias e de fantasias, assinados pela carnavalesca Rosa Magalhães, também foram um diferencial decisivo para a Vila. A precisão elegante do casal de metre-sala e porta-bandeira, Julinho e Rute Alves, foi outro charme do desfile.

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