Música

A complexa simplicidade do som de SILVA

O capixaba de 23 anos, com formação em violino e piano clássico, estourou em 2011 com um cinco músicas em que mistura elementos da música brasileira com eletrônica, acompanhadas de letras poematizadas cantadas com voz suave

Raissa Pascoal
O músico Lúcio Silva Souza, conhecido como Silva

O músico Lúcio Silva Souza, conhecido como Silva (Divulgação/VEJA)

"Eu chamava outras pessoas para paticipar, mas ninguém aceitava fazer o som que eu queria"

Foram necessárias apenas cinco músicas para que o tímido capixaba Lúcio SILVA Souza, de 23 anos, chamasse atenção (assim mesmo, com o SILVA todo em letras maiúsculas, como ele faz questão de ressaltar). O EP (sigla para extended play, maior que um compacto, mas menor que um álbum) SILVA, lançado em 2011 e batizado assim para não soar pretensioso, foi apontado como um dos trabalhos mais originais do ano passado, misturando música brasileira com eletrônica. Bancado por sua família e gravado em sua casa, em Vitória, no Espírito Santo, o projeto foi, de conversa em conversa, parar nas mãos de Matt Colton, produtor que finalizou os discos do britânico James Blake, que, não por acaso, é um dos ídolos de SILVA e, nitidamente, uma de suas influências.

Assim como o som de Blake, que abusa de sintetizadores mas não esquece da formação clássica, SILVA mistura no aparelho voz, bateria, baixo, guitarra, piano e violino. Todos os instrumentos são tocados por ele, um rapaz que estuda música desde os 2 anos de idade e está prestes a se formar em violino na faculdade.

A inexistência de uma banda para acompanhá-lo tem duas razões: gosto e necessidade. “Se eu pudesse, teria uma banda, mas é muito difícil pedir que trabalhem de graça para mim”, diz SILVA, que não obteve retorno financeiro com o lançamento do EP, apenas de contatos. Por outro lado, as pessoas que ele convidou não entendiam o som que ele queria fazer. “As pessoas falavam que estava estranho. Aí, resolvi fazer sozinho mesmo.”

A dificuldade de classificar sua música, colocada entre a MPB e a música eletrônica, pode enganar os que ainda não o conhecem. Apesar da variedade de instrumentos e a sobreposição de camadas de sintetizador, as canções do capixaba mostram seu lado simples nas letras, que se assemelham a poemas, e na interpretação acanhada de SILVA, que usa a timidez a seu favor nas apresentações ao vivo.

Assim como Blake, considerado uma revelação no Reino Unido, SILVA é uma das principais apostas musicais do país e começa a ver seu trabalho ser reconhecido. No mês passado, ele foi uma das atrações do Sónar, festival de música eletrônica realizado em São Paulo. Depois do show, bem recebido pelo público, o músico começou a ver sua agenda lotar com as propostas de outros eventos, como o festival de jazz de Ouro Preto, shows em Ipanema e até apresentações em Portugal, país que chegou a lhe propor um contrato de gravadora. Ele só não aceitou porque assinou com a Som Livre, em meados de maio.

Para dar continuidade ao trabalho, promessa de um sopro de criatividade no cenário musical brasileiro, o capixaba já prepara o lançamento de um novo disco no segundo semestre. Cada vez mais parecido com o estilo de James Blake, a não ser pelo gingado brasileiro, SILVA apostará mais na voz processada com a utilização de pedais e no maior tempo das faixas destinado à parte instrumental.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com SILVA.

Quando você começou a estudar música? Eu comecei bem novo, com 2 anos. Comecei violino com 6 anos e piano com 7 anos. Depois aprendi a tocar instrumentos de banda, como guitarra, baixo, violão. Já toquei em tudo quanto é tipo de banda, fazendo cover de Jamiroquai, Stevie Wonder, Tower of Power. De um lado, minha adolescência foi bem erudita e, de outro, foi um pouco de tudo. Agora, estou no último período do curso de violino na Faculdade de Música do Estado (Fames), em Vitória, no Espírito Santo.

Sua família é ligada à música? Na família da minha mãe tem bastante gente ligada à música. A pessoa que mais me influenciou foi meu tio, que é pianista. Ele morava conosco quando éramos pequenos e passava oito horas por dia tocando. Minha mãe é formada em flauta e piano. Também tenho dois irmãos mais velhos e os dois estudaram música, mas nenhum seguiu carreira.

Em sua apresentação no Sónar, você comentou que passou uma temporada na Irlanda antes de lançar o EP. O que fez lá? Eu tranquei o curso de violino porque não estava gostando muito. Fui para Irlanda estudar inglês. Cheguei lá em plena crise econômica de 2009 e não tinha emprego. Um baterista brasileiro conseguiu meu contato e me chamou para tocar na banda dele, que estava tocando na rua. Foi meu ganha pão. Foi lá que eu compus A Visita, minha primeira música. Ela tem bastante influencia da música irlandesa. Também consegui economizar algum dinheiro para comprar meus equipamentos aqui no Brasil, nos quais eu gravei as músicas do EP.

Quem participou das gravações com você? Eu gravei tudo sozinho. Eu chamava outras pessoas, mas ninguém aceitava fazer o som que eu queria. As pessoas não entendiam, falavam que estava estranho. Aí, eu resolvi fazer sozinho mesmo, como eu imaginava que tinha que ser.

Como você conseguiu lançar o EP? Eu levei o demo para uma amiga, que mostrou para um produtor do Rio, o Carlos Andrade. Ele gostou muito e me chamou para ir para o Rio gravar uma música. Lá, ele me apresentou a um técnico chamado Lucas de Paiva. Nós trabalhamos juntos nesse EP. Gravei metade na minha casa e metade no estúdio com ele.

Como foi o contato com o Matt Colton, que também finalizou os discos de James Blake? O Lucas estava procurando um técnico de masterização lá fora. O Colton masterizou vários discos da cena underground da música eletrônica e isso casava com o que a gente queria. Procuramos o contato dele pela Internet e mandamos o material.  Ele curtiu e topou fazer. A finalização dele foi bem feita.

Por que você escolheu o nome SILVA? Todo nome que eu escolhia me soava um pouco pretensioso e eu não sabia o que isso ia dar. Eu lancei na internet sem nenhuma perspectiva. É o meu nome do meio e, mesmo sendo o nome mais comum do Brasil, praticamente ninguém usou. Mas é difícil de achar no Google. Algumas pessoas me falaram isso e eu fiquei meio encucado. Eu não sei como as pessoas acham o EP.

Como você compõe suas músicas? Eu tenho um processo de composição estranho, ele é meio inverso. Eu procuro produzir a música inteira, o arranjo todo, antes de ela ter a letra. Eu vou trabalhando as batidas, as melodias, o que eu quero que entre no arranjo ou não e, por último, coloco a letra. Para mim, é mais fácil. Eu tenho mais facilidade com os arranjos do que com as letras, que são escritas em parceria com meu irmão.

Você tem uma formação na música erudita. Inclusive, está terminando a faculdade de violino. Mesmo assim, você não se prendeu só a esse gênero. O que mais você gosta de escutar? Eu sempre ouvi de tudo, nunca fui daqueles eruditos chatos que só escutam Bach e Stravinsky. Sempre gostei de músicas pop, nunca tive preconceito. Eu sou fã do Kanye West, ele é o cara. De fora, também escuto música erudita e eletrônica, como house e ambient. De música brasileira, escuto muito Marisa monte, Legião Urbana, Lulu Santos, Tom Jobim e Ernesto Nazareth.

O que você tirou de influência dos artistas que escuta?  O que é uma marca lá fora e eu uso muito é o sintetizador. Quando eu falo de música eletrônica, sempre acham que é música de balada, mas, na verdade, música eletrônica é aquela que é feita com instrumentos não acústicos. Em vez de usar uma bateria orgânica, você usa uma bateria eletrônica, ou, no lugar do piano, você coloca um sintetizador com piano elétrico.

Suas apresentações são feitas apenas por você e mais um baterista. Por que você optou por esse formato? Por duas razões: necessidade e gosto. Se eu pudesse, teria uma banda, mas estou começando e é muito difícil pedir para trabalharem de graça para mim. Por outro lado, estou gostando bastante do formato de ser só eu mais um cara, o Hugo Coutinho. Nosso entrosamento é bom. Ele entende bem minha cabeça e gosta bastante do som que a gente faz.

Você acabou de fechar contrato com a Som Livre e já está preparando um novo disco. Como ele será? O disco ainda não tem nome, mas está praticamente pronto. Serão sete músicas inéditas mais algumas músicas do EP. Todas as letras foram escritas por mim e por meu irmão. Eu toco todos os instrumentos e todas as músicas foram gravadas na minha casa, em Vitória. Eu não mudei muito de estilo, mas dei mais espaço para música instrumental, que gosto muito. Tem bateria eletrônica muito forte, mais camadas de sintetizador e vocal processado com o uso de pedais. A mixagem foi feita por Jeremy Park e a finalização foi de Matt Colton, de novo. O CD deve ser lançado no meio do ano.

Como você classifica a música que faz? Não sabia se podia chamar de MPB, porque, apesar de ser em português, tem muito elemento que não é de música brasileira e que poderia ser de qualquer lugar. Não sabia também se podia chamar de eletrônico, porque meu som não é só eletrônico, tem vocal, tem elementos de canção. Então, eu não sei, é difícil definir. Sinceramente, eu não sei dizer o nome do meu som.

O que você achou da sua apresentação no Sónar? Nunca tinha feito show em um palco daquele. Pulei de um lugar para 150 pessoas para um palcão. Foi muito louco também porque foi no mesmo palco de artistas que eu gosto, como Mogwai, James Blake e Sakamoto. Foi muita responsabilidade. Apesar dos problemas técnicos que eu tive, consegui chegar até o final do show.

Você chegou a conhecer o James Blake? Eu tentei, mas sou muito tímido. Meus amigos ficaram falando que eu tinha que ir lá trocar uma ideia. Quando eu fui para o backstage, ele já tinha ido para o hotel e só estava a banda lá. Gosto muito dele, principalmente da época dele antes de gravar com o vocal. Mas também gosto da fase nova. A voz dele é fabulosa e ele está sempre inovando.

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