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Entrevista: Jeremy Adelman

'Brasil não está na periferia do saber', diz responsável pela internacionalização da Universidade Princeton

Para ele, intercâmbio com instituições de outros países é vital para brasileiros

Nathalia Goulart
Jeremy Adelman: 'As universidades estrangeiras estão de olho no Brasil'

Jeremy Adelman: 'As universidades estrangeiras estão de olho no Brasil' (Divulgação / Universidade de Princeton)

Universidades de todos os cantos do mundo estão engajadas no processo de internacionalização. Enviar estudantes ao exterior e atrair jovens estrangeiros é motivo de preocupação também no Brasil, que ainda amarga índices tímidos em relação a emergentes como China e Índia. Nos Estados Unidos, o destino mais procurado por universitários, existem 724.000 estrangeiros no ensino superior: quase 158.000 são chineses e cerca de 104.000 são indianos, enquanto os brasileiros representam menos de 9.000, de acordo com o Institute of International Education. O Brasil também é pouco atrativo. A Grã-Bretanha, por exemplo, abriga 32.683 estudantes americanos, ante os 3.099 conterrâneos de Barack Obama que estão por aqui. Ficamos atrás de nações como República Checa e até Costa Rica na preferência dos americanos. A despeito dos números tímidos, o Brasil é atrativo para instituições de ponta. A avaliação é de Jaremy Adelman, diretor do conselho para a internancionalização da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e historiador especialista em América Latina. "O Brasil precisa se libertar desse complexo de inferioridade, desse estereótipo de que está sempre na periferia do mundo", diz. "O fato de não figurar entre os mais bem colocados [nos rankings internacionais] não significa que aqui não existam centros de excelência ou estudantes e profissionais excepcionais." Adelman esteve no Brasil a convite da Fundação Estudar, que oferece bolsas de estudo a brasileiros no país e no exterior, e conversou com o site de VEJA. Confira a entrevista a seguir.

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O que, afinal, significa 'globalização do ensino superior'? Cada sistema tem uma definição particular para esse termo. Em termos gerais, é a capacidade do saber intelectual de transcender as barreiras nacionais. O aspecto mais conhecido desse processo é o intercâmbio de estudantes e pesquisadores. É criar condições para que eles extrapolem as fronteiras de seus países em direção a uma educação mais global.

Por que essa discussão se tornou tão latente nos últimos anos? Pelo simples fato de que saber é poder. Os países têm despertado para isso. Nações ricas, como os Emirados Árabes, por exemplo, passam a entender que a bonança do petróleo pode não durar para sempre. É preciso uma outra forma de exercer poder. A educação oferece isso – é uma forma de exercer o chamado "soft power" em contraposição ao "hard power".

Com raras exceções, o Brasil costuma se localizar na periferia da excelência em rankings internacionais. O que nossas universidades têm a oferecer a instituições de ponta, como as americanas? Sou muito cético em relação a esses índices. Eles têm muita utilidade quando falamos de investimentos e o desenho de políticas públicas, mas esconde muitas particularidades das instituições. Existem nuances que não aparecem nessas medições. O fato de o Brasil não figurar entre os mais bem colocados não significa que aqui não existam centros de excelência ou estudantes e profissionais excepcionais. O Brasil precisa se libertar desse complexo de inferioridade, desse estereótipo de que está sempre na periferia do mundo. É preciso baixar um pouco o tom da conversa e enxergar as oportunidades que o país tem de crescer quando o assunto é ensino superior.

Sob essa óptica, o que Princeton busca no Brasil? Estamos aqui para aprender. A posição tradicional americana é vender-se. Muitas universidades vêm ao Brasil para vender-se como um bom destino para os estudantes brasileiros ou mesmo para os professores e pesquisadores. O objetivo principal para Princeton é inverter um pouco essa lógica. Nesse novo jogo temos muito o que aprender com países que se definem como atrasados. Critico esse discurso de submissão. Queremos aprender sobre o país a partir de um diálogo fraternal. Não quero chegar aqui com um modelo engessado de ensino e cooperação. No largo prazo, trabalharemos com o fluxo de estudantes e professores entre Princeton e centros brasileiros onde existe grande interesse por parte de ambos os lados. É uma troca de saber. Para isso precisamos conhecer profundamente a realidade do Brasil. E estamos dispostos a isso.

Os níveis de internacionalização das universidades brasileiras ainda são pequenos quando comparados a outros emergentes. Como é possível mudar esse cenário? Cifras são sempre relativas. É certo que, comparados com China e Índia, os índices do Brasil são relativamente baixos. Isso não quer dizer que não tenha havido um aumento nos últimos tempos. O país precisa, em primeiro lugar, escolher em que modelo de internacionalização quer investir. Que modelo se aproxima mais da realidade das suas universidades. Não adianta querer copiar o modelo americano ou chinês. O Brasil só não pode deixar de aproveitar as oportunidades que estão surgindo no mundo. As universidades de todos os cantos estão mais abertas que nunca a receber estudantes estrangeiros. E cada vez mais haverá, da parte de universidades internacionais, interesse de se associar às universidades daqui. A questão é como negociar com os parceiros. É preciso encontrar um patamar de igualdade nessas relações para que elas sejam produtivas e significativas.

A língua portuguesa, pouco falada em países como os Estados Unidos, é um empecilho para a internacionalização? É um obstáculo que o Brasil precisa atacar. O inglês se tornou a linguagem hegemônica do saber. E isso é um problema na medida em que dá aos falantes do idioma muita vantagem. Por outro lado, as novas gerações aprendem inglês com muita facilidade. A língua é muita mais acessível para esses jovens do que para a geração de 25 anos atrás. Na Europa, o enfrentamento dessa questão já está bastante avançado. Vemos hoje programas de mestrado na França sendo oferecidos integralmente em inglês. É preciso observar também que nos Estados Unidos hoje o espanhol é tido como a segunda língua. Isso nunca aconteceu na história americana. Todo jovem americano consegue se comunicar minimamente com um latino. Isso pode ser um caminho para o ensino do português, por exemplo. Não estou dizendo que vai acontecer da noite para o dia, mas é uma oportunidade que nasce.

O esforço chinês em favor da edução é notório. Em termos de ensino superior, o que vem acontecendo naquele país que chama tanto a atenção dos especialistas? Existem dois processos simultâneos e até contraditórios. De um lado, existe um investimento maciço sendo feito pelo governo para tornar as universidades da China atraentes para os estrangeiros. Por outro, um esforço grande para patrocinar jovens chineses em centros de excelência mundo afora. A presença do governo nesse caso é extremamente produtiva. É um sistema que contrasta com o sistema americano, onde as regras são mais descentralizadas e o investimento governamental é muito baixo.

Mas, no caso da China, isso tudo se dá debaixo da repressão. Exatamente. Esse é o ponto contraditório ao qual me referia. A China tem um grande problema: não é um país liberal. A universidade, por definição, precisa estar livre para pensar e questionar. É de sua natureza. Assim se produz o conhecimento. Na China, isso não é possível. Nesse sentido, o Brasil sai na frente. Porque, a exemplo do gigante asiático, é um país onde há investimento público na educação superior, mas, por outro lado, é uma sociedade mais aberta e democrática. Esse é um valor imprescindível para a universidade.

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