Cérebro

Pesquisa revela como cérebro calcula e corrige impressões visuais

Cientistas alemães descobriram que duas regiões cerebrais são responsáveis por processar corretamente os objetos ao nosso redor

Em azul, a área do cérebro onde a visão é processada

Em azul, a área do cérebro onde a visão é processada (Thinkstock/VEJA)

Quando focamos nossos olhos em um inseto voando pela sala, deveríamos ter a impressão de que não é o animal, mas o ambiente em volta dele que está se movendo, já que quem está no centro do nosso campo de visão é sempre o mosquito. Mas isso, claro, não acontece: percebemos um inseto em movimento contra um fundo imóvel. O responsável pelo ajuste das imagens é o cérebro. Como, porém, ele faz isso? Uma pesquisa publicada nesta quarta-feira no periódico Neuron, contribuição entre os institutos alemães Werner Reichardt Centre for Integrative Neuroscience e Max Planck Institute for Biological Cybernetics, conseguiu identificar, por meio de ressonância magnética, duas áreas cerebrais que comparam os movimentos dos olhos com os movimentos visuais identificados pela retina, a fim de processar corretamente os objetos que se movem ao nosso redor.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Human Areas V3A and V6 Compensate for Self-Induced Planar Visual Motion

Onde foi divulgada: revista Neuron

Quem fez: Elvira Fischer, Heinrich H. Bülthoff, Nikos K. Logothetis e Andreas Bartels

Instituição: Werner Reichardt Centre for Integrative Neuroscience e Max Planck Institute for Biological Cybernetics, Alemanha

Resultado: Duas áres cerebrais, conhecidas como V3A e V6, exercem a função de comparar os movimentos dos olhos com os sinais visuais identificados pela retina humana para, assim, corrigir nossas impressões visuais.

As duas regiões do cérebro descobertas pelos cientistas como sendo particularmente boas em reagir a movimentos externos, mesmo durante o movimento dos olhos, são conhecidas como V3A e V6. Ambas estão localizadas na metade superior da parte de trás do órgão, conhecida como lobo occipital, responsável por processar a visão.

A V3A mostrou um alto grau de integração, já que reage aos movimentos ao nosso redor independentemente se nós estamos ou não seguindo os objetos móveis com nossos olhos. Já a região V6 possui características semelhantes, mas com um adicional: ela é capaz de executar essas funções mesmo quando nós também estamos movendo nossos corpos. Nesse caso, o cérebro precisa realizar cálculos ainda mais complicados, já que um fator adicional – o do corpo se movendo – foi acrescentado.

Os cientistas analisaram essas áreas por meio de imagens do cérebro captadas por ressonância magnética – procedimento que consegue medir a atividade cerebral baseada nas mudanças locais de fluxo de sangue e de consumo de oxigênio. Os participantes da pesquisa foram submetidos a essa ressonância, enquanto lhes eram mostrados diversos cenários visuais. Eles tiveram, por exemplo, de seguir com os olhos um pequeno ponto que se movia de um lado para outro da tela. O fundo dessas imagens variava, ora estava parado, ora se movimentava em diferentes velocidades. Em certo momento, o ponto também se encontrou imóvel, enquanto somente o fundo se mexia.

Em um total de seis experimentos, os cientistas mediram a atividade de cérebro em mais de uma dúzia de cenários diferentes. Assim, eles conseguiram descobrir que tanto a área V3A como a V6, diferente de outras regiões visuais do cérebro, apresentaram a habilidade em comparar os movimentos dos olhos com sinais visuais presentes na retina. "Eu estou especialmente fascinado pela região conhecida como V3A, porque ela reage muito forte e seletivamente aos movimentos ao nosso redor. Parece trivial, mas é uma capacidade surpreendente do cérebro", explica Andreas Bartels, líder do estudo.

Segundo os pesquisadores, não importa se somos nós que nos movemos ou se é outro objeto ou indivíduo ao nosso redor, o cérebro sempre calcula e corrige nossas impressões visuais. Assim, pacientes cujos cérebros perderam essa capacidade de integrar movimentos externos com os movimentos dos olhos não mais conseguem reconhecer o que está se movendo, se o ambiente ou eles mesmos. Por isso, toda vez que mexem os olhos, sentem tonturas. Estudos como este são importantes para auxiliar a compreensão das causas de tais doenças.


 

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