Televisão

Diego Guebel, o argentino que revolucionou a Band

Em seu primeiro ano como diretor artístico da Band, Diego Guebel celebra o crescimento da audiência e anuncia: terá o desenho 'Os Simpsons' no horário nobre

Mariana Zylberkan
Diego Guebel, diretor artístico da Tv Bandeirantes

Diego Guebel, diretor artístico da Tv Bandeirantes (Marcos Méndez Quintero)

Há um ano na direção artística da Band, o argentino Diego Guebel chega ao final de 2012 com um belo número como troféu. Em novembro, a emissora abocanhou 7,3% de participação no mercado, o melhor resultado em uma década. Guebel não se vê como um revolucionário. “Eu não estou refundando a Band”, diz ele. “Cheguei numa empresa já consolidada e adapto minhas ideias ao que já existe.” Uma das principais contribuições de Guebel foi trazer para a Band o desenho Os Simpsons, um sucesso mundial que estava escondido na madrugada da Globo. Em sua nova casa, a família de Homer vai ocupar o horário nobre a partir de janeiro. “Vai ser a nossa novela, só que com personagens amarelos.” A escolha está em consonância com a tática adotada de investir em atrações de humor, adotada há cinco anos pela emissora, desde a estreia do CQC. Pode-se dizer, ainda, que a grade da Band se aproximou nos últimos meses dos moldes da TV fechada. Séries como Walking Dead e Roma vão estrear em 2013 – além do game show Quem Quer Ser um Milionário, outro sucesso internacional cuja adaptação será comandada pelo apresentador Datena. “A meta é chegar aos dois dígitos de participação no mercaco”, diz Guebel, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:


Como define a programação da Band atualmente? Uma rede é um produto. Portanto, quanto mais clara for sua proposta, mais fácil será conquistar a audiência. Não queremos oferecer uma miscelânea de opções ao espectador. Bastam três: futebol, jornalismo e entretenimento. Somos fiéis a esses pilares. Na ponta do entretenimento, a Band se consolida como um canal que oferece o melhor do humor. Vamos fortalecer isso com a exibição de Os Simpsons a partir de janeiro.

Por que essa ênfase no humor? Na programação de uma emissora, é preciso planejar e fazer apostas, mas também saber aproveitar o que deu certo. Quando um gênero funciona, fica mais fácil agregar outros programas semelhantes. É mais pertinente fortalecer o que a emissora tem de melhor do que apostar em novelas, por exemplos, que não produzimos. Isso pode dar a impressão de que a grade da Band é mais voltada ao público masculino, mas a audiência do CQC, por exemplo, tem o número de homens apenas um pouco maior que o de mulheres.

Em que momento a Band percebeu que o humor era relevante na grade? Com a estreia do CQC. Mas, antes disso, a emissora criou a tradição do humor no jornalismo. Então, é uma linha seguida há tempos, que só foi se alargando. O programa do Danilo Gentili, que saiu do CQC, é uma variação disso, a comédia combinada com a tradição do late night show. E com o Pânico vemos outra linha de comédia. Agora, não saberia dizer por que tendemos a privilegiar o humor. Acho que é um formato com que nos identificamos. A TV nos acompanha na rotina dentro de casa e gostamos de rir, de ter bons momentos.

O humor é um caminho para atrair o público jovem? Eu não penso dessa forma. Creio apenas que a maneira mais fácil de fazer as coisas é apostar no que você acha de fato interessante. Se você faz as coisas com profissionalismo, tende a errar mesmo. Mas receita garantida de sucesso não existe.

Como apostar no interessante e ao mesmo tempo corresponder à cobrança por audiência? Os resultados vêm naturalmente quando se segue uma linha clara. Uma grande vitória da casa foi obter os direitos de exibição de Os Simpsons. É um dos melhores produtos de animação, capaz de atrair adultos, jovens e crianças. Temos quatro temporadas. Os Simpsons não é uma aposta, ao contrário, é uma certeza.

Como foi a negociação pelos direitos de exibição? Levou nove meses para ser concluída. Alguém percebeu que exibir Os Simpsons na TV Globo às três da manhã era um desperdício, dado o investimento necessário. Não se faz uma negociação internacional desse nível se a outra emissora insistir em manter o produto. A compra dos direitos dependeu da estratégia de programação da TV Globo. Quando se tem produtos tão potentes quanto a Globo, que dão até 70% de share, como as novelas, torna-se impossível acomodar tudo no horário nobre. O The Voice, por exemplo, nos outros países é exibido no horário nobre e nos melhores dias, como terça, quinta-feira ou domingo, mas nunca às três horas da tarde como aqui no Brasil. É um programa caro para ser produzido, tem de ter uma grade muito poderosa para tomar essa decisão.

Como conseguiram tirar Os Simpsons da Globo? Não tiramos da Globo. Pedimos os direitos animação para a Fox, a negociação começou e em algum momento a Globo percebeu que seria melhor para ela abrir mão do programa. A Globo tem uma participação tão alta no mercado que a sua preocupação se torna não perder pontos, enquanto a nossa é o oposto, conquistar participação na audiência. Vamos exibir Os Simpsons perto das 21h30 nos dias de semana a partir de janeiro. Temos também a próxima temporada de Os Simpsons que estreia em junho.

O Rafinha Bastos vai voltar? Ele já voltou e foi demitido. Brincadeira. Ele não volta, eu acho que foi uma pena ele ter saído de A Liga, mas foi uma decisão pessoal dele. O Rafinha tinha um ótimo espaço no programa, que o tirava do papel de humorista. Mas ele precisava sair do ar naquele momento. Na Cuatro Cabezas e na Band, temos a política de conceder um bom espaço aos funcionários. A carreira em televisão não precisa ser uma corrida contra o tempo. É o nosso ofício, e não deve ser encarado como algo que tem data para acabar. 

O CQC muda de cara com a saída de maior parte do elenco da estreia? A mudança é natural. Na Argentina, já estamos na sexta troca total de apresentadores. Lá, o CQC está na 14ª temporada, aqui estamos na quinta. Às vezes, essa mudança é estimulada internamente. Foi o caso do Danilo Gentili, que se dividiu entre o CQC e o Agora É Tarde até esse novo programa engrenar. Damos ao artista a segurança de que vai ter seu emprego caso a nova aposta não dê certo. As oportunidades têm que ser dadas a quem faz parte de seu time, senão é injusto. Eu acho que toda perda é uma oportunidade de ganho.

O que achou da saída do Rafael Cortez? Ele ficou cinco anos no programa, então não posso exigir nada, mas eu acho que foi ruim para ele. O Rafael tinha oportunidade de ter um programa solo aqui e preferiu apresentar o Got Talent na Record. Ele não tem maldade no coração, apenas ficou entusiasmado com o novo programa.

Qual sua opinião sobre a participação de Datena na negociação de um sequestro, ao vivo, na TV? Ele não devia ter feito isso. Mas foi uma situação difícil, a polícia pediu para ele interceder. Eu estava evolvido com outras tarefas no momento e, quando eu vi, a negociação já tinha começado e não dava para interromper. Esse não é o nosso trabalho. O Datena não é treinado para negociar com sequestradores.

Como fazer da segunda temporada de Mulheres Ricas um sucesso como a primeira? Não dá para prever, temos apenas que fazer o melhor. Nossa primeira dúvida foi se deveríamos repetir o primeiro elenco. Decidimos encontrar novas mulheres para contar novas histórias e apenas manter uma da primeira temporada, para o público se reconectar. A Narcisa Tamborindeguy foi a escolhida. Depois, aconteceu de a Val Marchiori entrar para o elenco também. Na outra edição, o programa foi desenhado da seguinte forma: apresentamos as participantes, mostramos suas casas, seus carros e para onde viajam, depois, as relações entre elas se tornou o destaque. Nessas relações, era interessante incluir a Val que tem uma briga antiga com a Narcisa.
A aposta vai ser novamente nas brigas e fofocas entre elas? Não, mas faz parte do programa. Não quis repetir mais de uma participante logo no início para não ficar muito parecido com a primeira temporada, mas depois do quinto ou sexto episódio, não vi problemas.

Qual é o balanço que faz desse seu primeiro ano como diretor artístico da Band? A experiência é muito positiva, a audiência está crescendo. A televisão é evolutiva naturalmente, não é necessário fazer grandes revoluções na grade. A TV faz parte do cotidiano das pessoas. Então, quem trabalha numa posição como a minha, não pode pensar apenas na audiência. Tem de se colocar no lugar do público e tentar combinar inspiração, que ajuda a criar programas, com a razão, que identifica o momento em que devem ir ao ar. Em novembro, atingimos 7,3% de participação no mercado, o maior número nos últimos dez anos da Band. Ultrapassamos o recorde de junho de 2010, de 7,2% por causa da transmissão da Copa do Mundo na África do Sul. A nossa meta é atingir dois dígitos.

É possível se aproximar da Globo? Não temos essa missão. Não pensamos a programação apenas em termos de audiência. Para crescer 10 ou 20% no Ibope é importante ter uma programação clara e previsível. Nós temos 7% da audiência e isso quer dizer que o telespectador não está conectado conosco o tempo todo. Eu não estou refundando a Band. Cheguei numa empresa já consolidada e tenho que adaptar as minhas ideias ao que já existe.

O aluguel de espaço para igrejas evangélicas na grade atrapalha os resultados? Eu acho que não deveria existir, mas isso não é uma decisão minha. O mais interessante para mim é colocar produtos no ar que atendam o maior número de pessoas, mas se o dinheiro desse aluguel nos permite fazer muitas outras coisas, então é válido.

Há planos de retomar a produção de teledramaturgia? Nesse mercado, temos a Globo que produz toda a teledramaturgia, outra que copia essa produção, que é a Record, e o SBT que faz pouca coisa nesse sentido. A Band decidiu oferecer uma alternativa.

Por que, apesar de representar essa alternativa, a Band está em quarto lugar na audiência? É algo que está mudando. Fomos por muito tempo uma rede focada no período da tarde. Decidimos, então, fortalecer o horário nobre. E está dando resultado. Nessa faixa, às vezes ocupamos o terceiro, e mesmo o segundo lugar. 

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