Naufrágios

Os gigantes submersos da costa brasileira

Caravelas do período colonial, vapores do século XIX e cargueiros da década de 1960 guardam fortunas, casos de amor e episódios esquecidos da história

Bruno Abbud
Mergulhador na corveta Ipiranga, naufragado em Fernando de Noronha (PE) em 1983

Mergulhador na corveta Ipiranga, naufragado em Fernando de Noronha (PE) em 1983 (Ary Amarante/VEJA)

Além do submarino alemão U-513, outras dez belonaves de Adolf Hitler e uma proveniente da Itália foram postas a pique na costa do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial

Os tripulantes do hidroavião americano PBM-3 Nickle Boat entusiasmaram-se quando o operador de radar William Stotts percebeu uma mancha flutuando no Oceano Atlântico por volta das 15h30 do dia 19 de julho de 1943, uma segunda-feira. Era o submarino alemão U-513, especializado em torpedear e afundar navios aliados na costa brasileira. O piloto subiu até as nuvens para sair do campo de visão dos inimigos e mergulhou na direção da belonave. Os soldados nazistas que tomavam sol estendidos sobre a proa foram surpreendidos pelo rasante. Duas bombas penetraram o casco de ferro escuro. Dos 53 alemães, 7 sobreviveram.

Os tripulantes do veleiro brasileiro Aysso entusiasmaram-se quando o comandante Vilfredo Schürmann percebeu uma mancha no fundo do Oceano Atlântico por volta das 23h30 do dia 14 de julho de 2011, uma quinta-feira. Era o submarino alemão U-513, especializado em torpedear e afundar navios aliados na costa brasileira, que 68 anos depois de ser bombardeado pelo PBM-3 Nickle Boat, descansava a 135 metros de profundidade, 85 quilômetros a leste de Florianópolis, em Santa Catarina.

Fazia dois anos que a família Schürmann (famosa por passar uma década navegando pelo mundo) buscava pela relíquia. Por isso a empolgação da equipe – também formada por oceanógrafos, geólogos e estudantes – ao começar a calcular quantas toneladas de ferro repousavam sob seus pés e concluir que o resultado (entre 600 e 800 toneladas) equiparava-se com as do submarino alemão. Aquela mancha era mesmo o U-513 (assista a entrevista com Vilfredo Schürmann).

Outras dez belonaves de Adolf Hitler e uma proveniente da Itália foram postas a pique na costa do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. No silêncio das profundezas, elas fazem companhia a caravelas do período colonial, vapores do século XIX e cargueiros da década de 1960, que guardam fortunas, casos de amor, mistérios e episódios esquecidos da história (veja o infográfico). As águas brasileiras foram palco de naufrágios trágicos, românticos, milionários, históricos e misteriosos. “Há uma riqueza enorme de navios submersos em nosso litoral”, afirma o almirante Armando de Senna Bittencourt, 70 anos, diretor do Patrimônio Histórico da Marinha. No ano passado, os funcionários do órgão começaram a catalogar num mapa todos os naufrágios do Brasil – o documento será aberto ao público em 2012. Segundo Bittencourt, a Marinha registrou 2.125 naufrágios em território nacional até 1950. “Seguramente, não está tudo aí”, ressalva o almirante.

O mergulhador carioca Mauricio Carvalho, especialista em naufrágios há 20 anos, registrou 2.197 ─ dos quais 391 foram efetivamente encontrados. Como biólogo e pesquisador, Carvalho costumava ser contratado para afundar navios intencionalmente. No fundo do mar, os cascos tornam-se ecossistemas poderosos, atraem peixes que alimentam vilarejos inteiros e servem de armadilhas para pescadores irresponsáveis que atiram redes gigantescas em busca de camarões em quantidades superlativas.

Carvalho apaixonou-se pelos navios submersos e decidiu montar o Sistema de Informações de Naufrágios (SINAU), que tenta registrar todos os naufrágios do país. “É provável que a costa brasileira abrigue mais de 5.000 embarcações submersas”, acredita. Com 7.367 quilômetros de costa, seria um a cada 500 metros.

Jonne Roriz/AE

Mergulhador no navio Therezina, naufragado em 02 de fevereiro de 1919 em Ilhabela (SP), a embarcação se encontra a 17 metros de profundidade

Mergulhador no navio Therezina, naufragado em 02 de fevereiro de 1919 em Ilhabela (SP), a embarcação se encontra a 17 metros de profundidade

Histórias naufragadas - Alguns dos mais emblemáticos navios naufragados na costa brasileira repousam no fundo do Atlântico justamente pela atuação dos irmãos gêmeos do U-513. Em 26 de setembro de 1943, por exemplo, na altura de Alagoas, o U-161 colocou a pique o cargueiro Itapagé. “Ouvi uma pancada forte e surda”, contou na época o maquinista João Soares de Pinho, então com 52 anos. “Ao abrir a porta do meu camarote, deparei-me com um quadro triste: as águas já começavam a invadir o convés”. 

O ataque aconteceu depois que Getúlio Vargas decidiu ajudar os países aliados durante a Segunda Guerra Mundial e o Itapagé foi incumbido de transportar pelas águas calmas e claras do litoral nordestino cerca de 30.000 panelas que serviriam para armazenar o látex extraído das seringueiras da Amazônia. O material retirado da floresta abasteceria a indústria bélica. Os alemães sabiam disso. Por volta das 14 horas daquele dia de primavera, dois torpedos perfuraram o casco do cargueiro. O navio afundou em quatro minutos. Alguns náufragos flutuavam com a ajuda dos destroços quando o U-161 surgiu “como um vulto sinistro que emergia das águas lentamente”, descreveu um dos sobreviventes. As escotilhas se abriram e soldados magros e loiros apareceram sem camisa, empunhando máquinas fotográficas e gargalhando. O Itapagé permanece no litoral de Lagoa Azeda, a 60 quilômetros de Maceió. Aqueles que se aventuram a 27 metros de profundidade ainda conseguem ver algumas panelas e garrafas.

Um pouco mais ao norte, na altura do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, um tesouro milionário repousa escondido mais de cem metros abaixo do nível das ondas. Embora algumas empresas especializadas na caça ao tesouro dediquem tempo e dinheiro em sua busca, ele ainda não foi encontrado. Carregado com 6 toneladas de ouro e outros tantos quilos de pólvora, o porão da Nau Santa Rosa explodiu há 285 anos, em 6 de setembro de 1726. Até hoje não se sabe a origem da tragédia. Segundo o mergulhador Mauricio Carvalho, a Santa Rosa renderá 400 milhões de dólares ao felizardo que encontrá-la. “É um dos mais valiosos naufrágios do mundo”, afirma.

É por isso que os Indiana Jones modernos, como o francês Deni Albanese, proprietário da empresa brasileira Salvanav, preferem evitar a imprensa. Qualquer dica divulgada acidentalmente pode comprometer os negócios. Bastante numerosas nos Estados Unidos, as empresas de caça ao tesouro passam anos vasculhando cada milímetro de água salgada com os chamados magnetômetros ─ peças que, acopladas aos barcos, tentam identificar a presença de metais no fundo do mar ─ e sonares, que mapeiam as areias da mesma maneira que um aparelho de ultrassonografia. Quando encontram algo, amparam-se na lei 10.166 de 2000 que permite ao caçador de tesouros ficar com 40% do valor daquilo que encontrou. Os 60% restantes pertencem ao estado. “Normalmente são itens históricos, arqueológicos”, diz o almirante Bittencourt. O naufrágio da nau Santa Rosa matou mais de 600 tripulantes.

O mais antigo navio encontrado em águas brasileiras é a nau La Provedora de San Esteban, afundada em janeiro de 1583. Duas lápides e um canhão transportados pela San Esteban foram descobertos em junho deste ano

 

Naufrágio - folha

 

pelos mergulhadores do projeto Barra Sul, uma ONG de Florianópolis. A 15 metros de profundidade, na ponta Sul da Ilha de Santa Catarina, a caravela constitui um tesouro de valor ainda não calculado. A forte correnteza que levanta a areia fina do fundo do mar impede que os mergulhadores avancem rapidamente na exploração. “É um processo lento, de investigação”, explica Bruno Germer, 34 anos, um dos mergulhadores da expedição. 

Quase três quilômetros a leste da San Esteban, o superpetroleiro Hercules descansa com uma bomba alojada na proa. O navio seguia sem carga das Ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, para o Alaska, nos Estados Unidos, quando seu casco foi atingido por três mísseis exocet disparados por um caça argentino. Era a época da Guerra das Malvinas. Uma das bombas não explodiu e, em julho de 1982, os peritos acharam melhor naufragá-lo. Na época, o repórter Marcelo Fagá, da Folha de S. Paulo, destacou o ruído produzido pelo afundamento. “Era o som do resto de óleo nos tanques, como o uivo de um gigante ferido”. A costa brasileira está repleta desses misteriosos gigantes submersos.

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