Protestos

Manifestações contra corrupção definem reinvindicações

Há propostas como o fim do foro privilegiado e a promulgação do projeto de lei que caracteriza a corrupção como crime hediondo

Fernanda Nascimento
Em Brasília, manifestantes no protesto contra a corrupção mostram a capa de VEJA com José Dirceu

Em Brasília, manifestantes no protesto contra a corrupção mostram a capa de VEJA com José Dirceu (Ueslei Marcelino/Reuters/VEJA)

A mobilização na internet se disseminou com tanta velocidade que muitos não sabem que o protesto que inaugurou o movimento ainda nem aconteceu

Uma das poucas semelhanças entre as milhares de pessoas que foram às ruas gritar contra a corrupção no dia 7 de setembro era a indignação com a situação da política brasileira. Alguns saíram de casa revoltados com a absolvição de Jaqueline Roriz, outros queriam transformar a corrupção em crime hediondo e havia até quem pedisse o impeachment de Dilma Rousseff.

Tantos brasileiros, com tantas ideias diferentes, conseguiram reunir-se na mesma hora e local por causa de algumas dezenas de pessoas que tomaram a frente dessa mobilização que nasceu na internet e desembarcou nas ruas em pleno feriado da Independência. Eles negam o rótulo de organizadores – preferem ser chamados de moderadores.

Uns mais politizados, outros nem tanto, esses moderadores acabaram envolvidos neste movimento que, além desta terça-feira, tem mais três datas confirmadas para o próximo mês (dias 2, 12 e 15 de outubro). Desconfiados de que apenas gritar contra a corrupção pode não trazer resultados efetivos, eles resolveram dar uma cara de reivindicação ao movimento.

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“Essa é uma fase em que cada um está fazendo seu protesto e, devagarinho, estão começando a colocar ideias dentro da luta”, explica o porto-alegrense Adilson Di, cabeça do movimento que promove outro protesto na manhã desta terça-feira, no Rio Grande do Sul. “Não simplesmente lutando contra a corrupção, mas pelo que querem combater na corrupção”. Algumas capitais definiram seu grito, outras ainda organizam reuniões – que não costumam juntar mais de cinquenta pessoas – para estipular as principais reivindicações.

Em Brasília, a vendedora Lucianna Kalil pretende colher assinaturas durante o protesto, agendado para 12 de outubro, para exigir o fim do voto secreto e a aplicação da lei da Ficha Limpa. Nos outros grupos, há propostas como o fim do foro privilegiado, a revisão dos critérios para aprovação de emendas e a promulgação do projeto de lei que caracteriza a corrupção como crime hediondo.

O princípio - A mobilização na internet se disseminou com tanta velocidade que muitos não sabem que o protesto que inaugurou o movimento no Facebook ainda nem aconteceu. Batizado de “Todos juntos contra a corrupção”, o evento pioneiro está marcado para o fim da tarde desta terça-feira na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. Criado “sem compromisso”, conta a empresária Cristine Maza, movimentou 200 pessoas na rede social em apenas quatro horas. Uma das organizadoras do protesto, ela espera que a marcha reúna mais de 20 mil pessoas. No Rio, os manifestantes ainda não definiram suas reivindicações. “Não queremos perder o foco inicial, que é juntar gente e fazer o movimento crescer”, diz Cristine.

No dia 7 de setembro, pelo menos 25 mil pessoas saíram às ruas em dezenas de cidades para protestar contra a corrupção. Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre foram as capitais que mais reuniram manifestantes. Já existem movimentos articulados no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia. No entanto, a mobilização está longe de conseguir compor uma bandeira comum. Para o movimento se tornar um só, ainda há um longo caminho a percorrer.

Manifestações contra a corrupção

O que pensam os moderadores dos principais protestos que se espalharam pelas ruas do Brasil

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SÃO PAULO

Nelson Antoine/Fotoarena/Folhapress

CARLA ZAMBELLI, 31 anos
Organizadora do movimento NASRUAS, a gerente de projetos tem dedicado quase todo o tempo livre para administrar os grupos de discussão que criou na internet para estimular a mobilização em diferentes estados. Na capital, uniu-se a outros movimentos, como o Dia do Basta, para organizar o próximo protesto, marcado para 12 de outubro. No último feriado, a mobilização reuniu 4 mil pessoas na Avenida Paulista.

Qual o balanço das manifestações de 7 de setembro?
Sabe quando você está no escuro e de repente alguém acende uma vela? Dia 7 foi a vela. Alguém notou que estamos acordando.

O que é esperado dos protestos programados para 12 de outubro?
Espero só uma coisa: que o brasileiro definitivamente se conscientize que precisamos agir. Não adianta ficar só debatendo na internet, temos que sair nas ruas com propostas firmes, sólidas. Estamos nos encontrando para votar propostas e discutir o que é mais importante.

É melhor levantar uma bandeira genérica contra a corrupção ou nomear os políticos corruptos e partidos que deveriam deixar a política e escolher uma causa específica contra a qual lutar?
Se nós conseguirmos tornar constitucional uma lei como a Ficha Limpa, conseguiremos derrubar um Sarney. Se conseguirmos emplacar o voto distrital, conseguiremos derrubar um Valdemar Costa Neto. Não adianta derrubar o Sarney e surgir alguém que aja igual. Se atacarmos o cerne da questão, acredito que teremos sucesso. O voto aberto nas votações do Congresso acaba com palhaçadas como a absolvição da Jaqueline Roriz, por exemplo. Temos que saber como vota quem está votando por nós, para decidir quem queremos reeleger. Essa é uma das bandeiras, mas não a única.

Qual a solução para a corrupção na política brasileira? A mobilização dos manifestantes pode efetivamente mudar este cenário?
Em primeiro lugar, temos que sair às ruas. Temos que ter força, divulgar nossas propostas, para que o governo queira dialogar conosco. Sou contra encabeçar coisas, porque não pode ter uma pessoa decidindo sozinha. Por isso, tentamos juntar todos os grupos, discutir.

Os partidos políticos representam a população? Como você os enxerga?
Não, nem os partidos nem os governantes. Acho que nenhum dos três poderes representa a população. Quando você fala em um país que desvia mais de 3% do PIB para a corrupção, não dá para dizer que nossos governantes estão ali para nos defender. Os partidos políticos brasileiros estão descaracterizados. Eles não têm propostas, todos se aliam para conseguir mais tempo na televisão ou um ministério. É um jogo de interesses.

Você se sente representado por um partido político, pela UNE ou por alguma outra entidade?
Hoje, não me sinto representada por nada. Na época da faculdade, sentia que era representada pela UNE. Mas eles não nos ajudaram em nada com as manifestações do dia 7 de setembro e ainda têm coragem de dizer que nos apoiam.

O Brasil tem jeito?
Quero que tenha, estou brigando por isso. Acho que não vai ter jeito para mim, mas talvez tenha para meu filho. O João tem três anos e é para ele que estou fazendo isso.

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