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Complexo da Maré: a moleza vai acabar para os bandidos

Polícia começa a ocupar território dominado pelo tráfico e por agentes corruptos

Leslie Leitão
OS DONOS DA RUA - Bandidos armados (à esq.) e o chefão Menor P com o funkeiro Naldo: certeza de impunidade

OS DONOS DA RUA - Bandidos armados (à esq.) e o chefão Menor P com o funkeiro Naldo: certeza de impunidade 

O assistencialismo sempre foi um pilar do reinado do Menor P: ele distribuía presentes a todos e até promovia peladas com jogadores de grandes times do Rio. Nenhuma celebridade passava pela favela sem lhe render uma visita

A primeira visão do turista que desembarca no Rio de Janeiro pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim é a do Complexo da Maré, imensidão de casebres de tijolos e ferragens aparentes que margeia a Linha Vermelha, um dos principais acessos à cidade. Junto com o vizinho Caju, aquela é de longe a mais populosa área da cidade ainda sob o domínio da bandidagem. São 150.000 moradores vigiados por marginais que circulam por todos os becos com seus rádios de comunicação e fuzis à vista. Trata-se do último enclave do crime situado no cinturão em torno dos locais que serão palco dos megaeventos esportivos sediados no Rio até 2016. Neste domingo, o estado começará a retomar tal território a partir do Caju, ação que tem o objetivo de fincar ali uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), nos moldes de outras trinta já instaladas em favelas cariocas. A ocupação, que contará com 1 200 policiais e o apoio de tanques da Marinha, foi informada previamente, como as demais, para evitar confrontos sangrentos, ainda que isso leve à fuga dos criminosos com seu arsenal. O plano é reaver todo o complexo até junho - às vésperas da Copa das Confederações.

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O conteúdo de investigações, ao qual VEJA teve acesso, não deixa dúvidas sobre como o tráfico se apossou do lugar - pagando vultosas propinas a policiais corruptos. Dois esquemas foram desnudados: o primeiro era liderado por um bando da Delegacia de Combate às Drogas, que, já se sabe, recebia um "mensalão"; o outro, por homens do Bope, a tropa de elite do Rio. Nesse último caso, o inquérito traz à luz as cifras. Eram pagos 12.000 reais por dia a um cabo do Bope, que rateava o dinheiro entre seus colegas de plantão. Em troca, eles cerravam os olhos ao tráfico e à barbárie. Todos os suspeitos já foram afastados de suas funções. O dinheiro vinha de uma única fonte: o traficante Marcelo Santos das Dores, conhecido como Menor P, integrante do alto escalão do crime.

A cena acima, captada de um vídeo obtido por VEJA, mostra como seus asseclas empunhavam fuzis no meio da rua, livremente. O descaramento era tanto que, em 2009, Menor P chegou a "alugar" um blindado da PM para avançar sobre os domínios de uma facção rival. O assistencialismo sempre foi um pilar de seu reinado: ele distribuía presentes a todos e até promovia peladas com jogadores de grandes times do Rio. Nenhuma celebridade passava pela favela sem lhe render uma visita. Muito menos alguém nascido e criado na Maré, como Naldo, o funkeiro do momento. A foto que registra o encontro foi achada em uma busca recente na casa do traficante, que conseguiu escapar. Espera-se que, com a UPP, registros como esse se tornem restos do passado.

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