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Belo Monte: um barril de pólvora prestes a explodir
No rastro das obras da terceira maior hidrelétrica do mundo, conflitos trabalhistas e explosão da violência chegarão à região do Rio Xingu, no Pará
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Cenas de Belo Monte
Como a construção da terceira maior hidrelétrica do mundo vai mudar a rotina de Altamira - e de toda a carente região do Xingu
É por trás de grades de ferro que Maria do Carmo Oliveira, de 39 anos, atende a clientela que procura seu mercadinho, num bairro simples de Altamira, no Pará, quando a noite cai. “Tenho medo. Sei que aqui tem tráfico”, diz, olhar desconfiado. A comerciante instalou as grades depois de sofrer um assalto ali perto, em sua antiga loja. Ela, o marido e a filha ficaram na mira de bandidos armados. A cena se tornou comum na cidade: dois homens em uma moto rendem comerciantes, limpam o caixa e fogem por ruas estreitas. “Pensei que pudessem fazer uma maldade.”
Há cinco meses no novo ponto, Maria do Carmo aprendeu a manter distância dos traficantes de crack que rondam o local. E acredita que a violência aumentará quando Belo Monte chegar. Com 105.000 moradores e distante 500 quilômetros de Belém, Altamira é o município à beira do Rio Xingu que ficará mais perto da usina hidrelétrica projetada para ser a segunda maior do país e a terceira maior do mundo.
Saiba o que vai mudar com a usina hidrelétrica de Belo Monte.
Quando começar a construção, pelo menos 100.000 pessoas deverão migrar para a região. Há quem fale no dobro. Além de possivelmente enfrentar problemas em canteiros de obras, como os que ocorreram em Jirau, no mês passado, as onze cidades vizinhas (com 370.000 moradores) sofrerão com o súbito inchaço. Às voltas com problemas de segurança e urbanismo, não têm infra-estrutura para suportar a massa de pessoas que já começa a chegar - 4.000 fixaram residência em Altamira no último semestre.
"Belo Monte é um barril de pólvora", resume o procurador do Ministério Público Federal (MPF) Felício Pontes Jr., que acompanha a discussão sobre a usina há uma década. Diante dos iminentes conflitos que virão no rastro da usina, o governo do Pará elaborou um plano de segurança exigindo do consórcio Norte Energia, responsável pelas obras, medidas de prevenção para quando os 20.000 trabalhadores colocarem as botinas nos canteiros e outras 80.000 pessoas – pelo menos – chegarem.
Maria do Carmo atende os clientes por trás das grades: "Tenho medo"
Na lista: mais equipamentos e carros para a polícia e construção de prédios para abrigar detentos. As prefeituras fazem coro: querem agilidade no cumprimento dos requisitos sociais e ambientais para tocar a obra – as chamadas condicionantes. A direção do consórcio Norte Energia foi procurada pelo site de VEJA em Altamira e em Brasília, mas não concedeu entrevista.
Rota do tráfico - Basta uma rápida espiada nas ruas de Altamira – a cidade menos atrasada da região - para perceber que o policiamento é escasso. A delegacia conta com efetivo reduzido. "Já não conseguimos atender todo mundo: aqui funcionamos como clínica geral", confidenciou ao site de VEJA um escrivão da Polícia Civil. Os assaltos avançam. Para completar, Altamira é rota do tráfico de cocaína que vem da Bolívia e segue para cidades como Belém ou São Luís (MA). O consumo de crack, uma droga devastadora, já explodiu no município.
À beira do gigante Xingu, que tem 1.800 quilômetros de extensão e corta o Pará, em uma região inóspita e com estradas em péssimas condições, como a Transamazônica, a Polícia Federal (PF) sequer tem embarcações ou aeronaves e carece de pessoal. "As autoridades de segurança não estão preparadas para Belo Monte. Estamos de mãos atadas", desabafou uma delegada da PF ao site de VEJA, também sob a condição de anonimato.
Progresso - Quando estiver pronta, Belo Monte terá capacidade para produzir 11.233 MW. A energia garantida, isto é, a que estará disponível para consumo, será de 4.571 MW médios, o suficiente para abastecer Belém por um ano. Maior obra a ser feita no país e uma das estrelas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), vai dar cara nova ao Xingu e, a reboque, transformar a área ao redor dele. A longo prazo, espera-se, para melhor.
A discussão sobre Belo Monte se arrasta há três décadas. Nesse período, outras obras com esse perfil foram concluídas. Muitas lições foram aprendidas com os erros de empreendimentos como Tucuruí, no Pará, e Balbina, no Amazonas. O Brasil tem hoje rigorosa legislação de proteção ambiental e tecnologias mais modernas, que permitem alagar regiões menores, produzir mais energia e agredir menos o entorno das usinas.
São mesmo os impactos sociais da construção que causam maior ceticismo. “Já tivemos uma avant- première dos problemas em Jirau e Santo Antônio, que devem ser muito maiores em Belo Monte", diz o engenheiro Ildo Sauer, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-diretor de gás e energia da Petrobras. "Apesar de muitas e amargas lições dos governos anteriores, o governo Lula-Dilma pouco as levou em conta.”
Leia também: Em Altamira, a revolução na economia já começou
Gargalos - Inevitavelmente, Altamira se transformará num foco de atração populacional, não só de operários, mas de empresários e trabalhadores de todas as partes do país, atraídos pelo sonho de ganhar dinheiro na carona do bilionário investimento. Para suportar a chegada de tanta gente, Altamira terá que ser praticamente reconstruída. A cidade não tem saneamento básico. A (escassa) água encanada é de péssima qualidade e, segundo moradores, não serve nem para lavar roupa. Nas palafitas em torno dos igarapés que cortam a cidade vivem 13.000 pessoas, segundo estimativa da prefeitura. O atendimento de saúde é precário. O site de VEJA conversou com moradores que chegam a procurar hospitais em Teresina (PI) em busca de procedimentos simples, como preventivos ginecológicos e exames oftalmológicos.
Não existe transporte público em Altamira. O trânsito é caótico, piorado pela incrível proliferação de motos. A frota cresceu 35% de 2009 para 2010, chegando a 16.000 veículos segundo o Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) - o total de carros, caminhões, carretas e tratores que circulam pelo município é de 14.000. No mesmo período, dobrou o número de mortos em acidentes com motos: foram 20 vítimas no ano passado. Só metade das ruas é asfaltada. Um fétido lixão, onde são despejadas 105 toneladas de detritos todos os dias, completará um século junto com o município, em novembro. Centenas de urubus estão por toda parte. E colocam em risco o transporte aéreo.
O lixão de Altamira completa um século em novembro, junto com a cidade
Milagre - É difícil saber por onde começar para arrumar a casa. As autoridades locais, de mãos postas, parecem à espera de um milagre. É como se Belo Monte fosse exterminar, de uma tacada só, todas as mazelas da região. “Hoje a nossa saúde não é suficiente nem para atender a população atual. A saúde realmente deixa a desejar. A nossa infraestrutura também”, admitiu ao site de VEJA a prefeita de Altamira, Odileida Sampaio (PSDB). Para justificar o atraso, ela responsabilizou a falta de “compromisso com igualdade para todas as regiões” do governo federal. “É como se nós, paraenses, não fôssemos seres humanos”, completou, criticando o fato de a Transamazônica não ter sido asfaltada até hoje.
A prefeitura diz que o consórcio responsável pela obra comprometeu-se a concluir logo melhorias consideradas indispensáveis para que a construção da usina possa começar - são as chamadas "condicionantes". Segundo a Norte Energia, existem 70 obras em andamento na região. Em Altamira, a mais adiantada é a construção de um posto de saúde. “As condicionantes estão em ritmo lento demais", diz Odileida. "Se tem que fazer, vamos fazer logo."
Outro compromisso dos empreendedores é revitalizar a área onde hoje reinam as palafitas e construir 6.000 casas em local seguro - e seco - para abrigar as famílias que sofrem com as cheias do Xingu no chamado “inverno”, o período de chuvas. Como as moradias ficam em um local que poderá ser alagado caso o nível do rio suba mais que o previsto com a entrada em operação de Belo Monte, as famílias serão removidas.
À espera de Belo Monte, a prefeitura adotou uma solução lamentável. Abriga temporariamente os moradores em barracas no Parque de Exposições da cidade, que têm pedaços de plástico preto como portas. A cena é deprimente: crianças com doenças de pele convivem com jovens que consumem álcool e drogas a céu aberto, sem nenhum policiamento.
Enquanto as obras não começam, o franzino Rafael Lourenço Soares sonha. Não vê a hora de sair do bairro Boa Esperança, à beira do igarapé Altamira, que alaga todos os anos. “Eu rezo para não chegar janeiro, quando começa a chover. Passo o Natal pensando em janeiro”, diz o jovem, que não aparenta os 24 anos que tem e cursa o primeiro ano do Ensino Médio. “Se pudesse, eu queria nascer de novo.”
(Colaborou Adriana Caitano)























Comentários
G. Santargila
"Integrar para não entregar" esse era o lema para a região norte/centroeste na década de 70. Agora é "abandonar para conservar". Mesmo com as opiniões contrárias dos ambientalistas os moradores daquela região se beneficiarão com as obras e o desenvolvimento da região. Quem deseja que o pobre miserável permaneça em seu estam(..)
01.06.2011
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Fernando Pimentel
Como morador de Altamira, temo pela construção da Belo Monte com a vinda de novos moradores para nossa região. O mar de corrupção impera em todas as esferas publicas. Nao tivemos nenhum avanço social/politico nos ultimos 10 anos. Reclamar do governo federal é mto fácil. Altamira nao dispoem de 1 metro de saneamento basico. O(..)
23.04.2011
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Max
Bem vindos a realidade altamirense.
19.04.2011
Maxwell Paiva
Os beneficios nao chega e muita gente reclama, da lentidao nos processos de atendimento a saude, educacao e saneamento basico, mas todo os anos chega seu carne da felicidade, IPTU, para a polulacao pagar, depois que o dinheiro esta na conta dos governantes vem a dor de cabeca, que se reflete todos os anos com as cheias do ri(..)
19.04.2011
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Maxwell Paiva
Belo monte nao pode ser visto como palco principal dos problemas, mas tambem nao e ela quem sera responsalvel pelo soucao de todos eles, BR230, tambem conhecida como transamazonica e que no periodo chuvoso se torna TRANSAMARGURA, esta obra que foi iniciado na decada de 70, permace ate hoje inacabado, como podemos ter progres(..)
19.04.2011
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REGIS SALES
A longo prazo com certeza Belo Monte trará desenvolvimento para essa região; porém, o preço que será cobrado de quem aqui vive, logo no início das obras, quando a cidade terá sua população mais que dobrada, será bastante alto. Moro em Altamira há pouco mais de um ano. O caos e a precariedade reina na cidade. É comum faltar i(..)
15.04.2011
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WOR
o que precisamos mesmo é de uma atenção maior de nossos goverantes pois não precisamos de barragem pra podermos receber o que é de direito nosso, segurança, saude,educação e por fim nossa tal sonhada rodovia transamazonica quando sera realmente afastaltada somos eleitores e pagamos um preço super alto na esolha de nossos adm(..)
15.04.2011
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Wagner A. Porfirio
Será que o problema de Altamira é Belo Monte?! A obra nem começou e o município tem um lixão centenário!!! Seria culpa de Belo Monte que o poder público não construiu nenhuma infraestrutura de tratamento de água e esgoto, não asfaltou nenhuma rua nem pavimentou a transamazônica?! Interessante o fato da autora comentar "maus (..)
12.04.2011
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loureiro
Como os megawats de Belo Monte sao imprescidiveis para o crescimento do pais ,sugiro, em substituiçasão a ela, uma nuclear do mesmo porte no eixo Rio Sao Paulo.Sera que os ecos concordariam?
12.04.2011
joao felipe
sabemos que o pais creceu,e teremos que ter novas fontes de energia, em belo monte vai trazer transtornos para população local e fico triste por isso,mais se não for por este tipo de geração de energia teremos que ver outras fontes , e olha eu temos por estas usinas nucleares, ai sim não so vai afetar os ribeirinhos como tod(..)
11.04.2011
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Gilmar
Torçamos para que as mudanças necessárias sejam implementadas e que principalmente, educação, saude e segurança cheguem até o cidadão comum dando condições para que esta obra monumental reflita positivamente na região. O Brasil e os brasileiros agradecem.
11.04.2011
José Augusto Santos
Que seria menos pior para o Brasil. Fazer Usinas Nucleares sujeitas aos acidentes como o do Japão ou Belo Monte,transferindo pessoas da beira dos rios e dando melhores condições de vida ?
11.04.2011
100% BARRAGEIRO
sem a construçao da usina, em quant tempo os problemas da regiao serao resovidos?
10.04.2011
Vanessa benchimol
excelente reportagem! mostra o completo descaso com as consequências da construção de Belo Monte. Altamira está entregue à própria sorte (ou seria ao próprio azar??).
10.04.2011
joanita lopes
Com toda essa problemática, a Prefeita faz concurso publico com pouquíssimas vagas e um salário de fome e ainda contrata uma instituição não renomada. Isso é Altamira!!!
10.04.2011
claudiomar
É de se imaginar que os municipios do Pará estejam mesmo nessa situação. A corrupão nesse estado, principalmente comandada por dos agentes dos orgãos públicos infestam todas as cidades. Há uma cultura armamentista (parece faroeste - e não é brincadeira não..) em uma terra em que os prefeitos só pensam em cuidar de suas propr(..)
10.04.2011
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Alex
Vendo estas imagens parece-me algum país da África...
10.04.2011
jerônimo
que belo monte de problemas
10.04.2011
mau
É isso que é chato nos político ,vai melhorar,vai ser e quando será .Os político tem que ser mais ágil ,mais preciso,ter que ser de imediato ,porque a população esta cansado de sofrer .
09.04.2011
Felipe Storch
Triste ver que essa população vê nessa obra um milagre.
09.04.2011
Adilson P. Mendes
Se as coisas estão desse jeito em Altamira, então o município a figura do prefeito torna-se dispensável , será que não se encontra uma coisa apenas boa, em Altamira?
09.04.2011
JUBER
O estado do Para ê um exemplo da falencia do estado brasileiro.Hâ vinte anos morei no norte e as coisas lâ continuam com sempre foram.Um povo entregue a propria sorte.Lâ vigora a lei do mais forte e o estado sendo ausente incentiva isto.Pobres paraenses.
09.04.2011
Érica
Isso não justifica a interferência americana na política de nosso país. Morei um tempo na Amazônia percebi que o Norte é muito desprezado pela política Nacional,mas percebi que não só o Norte o Nordeste também ,e é na Amazônia que existe mais ONGS estrangeiras e ´´muito preocupadas´´ com população indígena vemos como mui(..)
09.04.2011
| Ler Mais
Heli Roberto da Silva
Meu Deus, aonde está o Brasil maravilha da campanha Dilma-lula-dilma?Aquele paraíso não seria preservado com a vitória de Dona Dilma I? FORMIGA-MG
09.04.2011
Ney
O caos descrito é consequência da incompetência do estado. Tudo que depende dele tem planejamento falho, organização que deixa a desejar, direção ineficaz e controle ineficiente. Os resultados são pífios e os custos astronômicos, que nos leva a crer que radicalizando, temos que privatizar até a cadeira que a Dilma senta, se (..)
09.04.2011
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hermiton guimaraes
prova de realmente " o interesse do povo, o coletivo, o respeito a dignidade humana" só serve para enfeitar discurso de campanha politica.
09.04.2011
ARF
No Paraná, as usinas hidreletricas sempre trouxeram desenvolvimento. Então acho estranho a população não querer a usina. Mas, sé assim, nesse caso o diálogo e o debate, ouvindo as pessoas é a melhor solução!
09.04.2011