Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Com estranheza, evangélicos de Itaquera tentam aceitar obra em arena

A região de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, abriga incontáveis igrejas evangélicas. A partir de 2014, será também uma grande referência para os católicos. O Corinthians pretende colocar uma estátua de aço inoxidável de São Jorge de aproximadamente 30 metros de altura (do tamanho do Cristo Redentor, se descontado o pedestal do monumento carioca) e 200 toneladas em frente ao estádio que sediará a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014.

Saiba tudo sobre a estátua do estádio

Antevendo a rejeição da comunidade evangélica, que condena a adoração de imagens, o escultor encarregado do projeto já encontrou um subterfúgio para a aceitação de sua obra. Gilmar Pinna preferiu nomear a estátua de ‘Cavaleiro Fiel’ e não admite mais comparações com São Jorge. Apesar de todos os elementos da caracterização habitual do padroeiro do Corinthians – um guerreiro, sua lança e o dragão – serem contemplados no monumento. ‘Pode até lembrar São Jorge, mas bem de longe. É o Cavaleiro Fiel’, garantiu o artista plástico.

Em visitas a igrejas evangélicas da Zona Leste, a reportagem da Gazeta Esportiva.Net pôde perceber que o Cavaleiro Fiel de Gilmar Pinna ainda precisará enfrentar certo desconforto, e não apenas o dragão. A possibilidade de o futuro estádio corintiano se transformar em um centro de peregrinação religiosa causa estranheza em alguns dos cerca de 300 membros da Igreja Batista Central em Itaquera, por exemplo. O pastor Marcelo Rodrigues de Oliveira coçou o queixo, encheu os pulmões de ar e soprou vagarosamente quando foi informado da novidade. Cinco segundos depois, sorriu com o canto da boca, desconcertado: ‘É…’O pastor Marcelo tem propriedade para falar sobre os assuntos relacionados à nova arena do Corinthians. Ao menos na condição de corintiano que reside em Itaquera. Antes de começar a exercer ministério pastoral na Igreja Batista, em 1994, ele gostava de seguir seu clube de coração em meio a torcedores organizados. ‘Acompanho o Corinthians desde que me conheço por gente. Fiz parte dos Gaviões da Fiel, assisti à decisão do Campeonato Brasileiro de 1990, quando fomos campeões em cima do São Paulo, e a inúmeros outros jogos com finais felizes e tristes. Todo mundo é corintiano na minha família. Até o cachorro’, brincou.

O fato de o Corinthians construir um estádio em Itaquera, portanto, havia empolgado o pastor Marcelo Rodrigues de Oliveira em um primeiro momento. Ele só não sabia que passará a avistar uma enorme imagem ‘parecida’ com São Jorge sempre ao abrir uma janela ou caminhar pelas ruas da Zona Leste. ‘Vai ser estranho’, admitiu, tentando superar esse sentimento. ‘No Parque São Jorge, já existe uma estátua de São Jorge. Mas é pequena, diferentemente desta. Às vezes, não fazem isso como culto, mas como um aspecto cultural. Por ser Parque São Jorge e coisa e tal, aí o pessoal…’, relevou.. Fica meio contraditório, não? É uma orientação de um livro da Bíblia, de nome Corinthians… Tanto é que na King James, a tradução bíblica inglesa, o livro é grafado como Corinthians, e não como Coríntios’, acrescentou, antes de se levantar para comprovar o discurso.

Triunfante, o pastor Marcelo abriu a sua versão King James da Bíblia na página 933, onde se lê em destaque: ‘The second espistle of Paul the apostle to the Corinthians’. Em português: ‘A segunda epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios’. ‘Olhe aqui’, ele mostrou, com o dedo indicador sublinhando a palavra ‘Corinthians’. ‘Quando falo para os membros na nossa igreja que o Corinthians está na Bíblia, tenho que provar. Corinthians vem da cidade de Corinto, na Grécia, para onde o apóstolo Paulo endereçou duas cartas à igreja local. Os habitantes de lá se chamavam coríntios. Por isso, existiu aquele time inglês , que veio excursionar no Brasil em 1910 e inspirou a criação do nosso Corinthians. Era como se fosse o Barcelona da época’, complementou.

A explanação despertou a atenção de Eliel Leão de Oliveira, auxiliar administrativo da Igreja Batista Central em Itaquera. ‘Está vendo, Eliel? O Corinthians é bíblico! Está na Bíblia!’, disse Marcelo. Simpático, o palmeirense de 34 anos riu para a provocação do pastor corintiano – mas não muito para a estátua do Cavaleiro Fiel do estádio do Mundial de 2014. ‘Teologicamente, vemos uma obra dessas como uma idolatria. E, seguindo a Bíblia, abominamos a idolatria. Devemos adorar só Deus. Mas não tem problema. O Deus que a gente segue é bem maior do que essa estátua’, opinou.Perto dali, os frequentadores do Campo Eclesiástico de Artur Alvim da Igreja Evangélica Avivamento Bíblico estavam em comunhão com a estranheza batista em relação ao Cavaleiro Fiel do escultor Gilmar Pinna. O que não impediu o presbítero Sulivan da Silva, apresentando-se como responsável pelo departamento de comunicação e marketing, de ser mais um a procurar aceitar a criação do monumento da arena corintiana. ‘A Igreja é uma instituição de Cristo com a finalidade de anunciar a todas as pessoas indistintamente a mensagem do evangelho, incluindo tudo aquilo que agrada e desagrada a Deus. Contudo, entendemos que as associações, clubes, instituições e tantas outras entidades não-governamentais e governamentais são responsáveis por suas escolhas’, avisou.

‘Se o Sport Club Corinthians Paulista quer construir uma estátua de 30 metros de seu ‘padroeiro’ São Jorge no estádio de Itaquera, essa decisão compete à diretoria e a seus associados. Vivemos em um País com liberdade religiosa e prezamos por esse direito, ainda que discordemos de certas práticas e venerações que não têm a aprovação de Deus. Nosso pastor José da Silva Netto, presidente do Campo Eclesiástico de Artur Alvim, também considera que essa seja uma responsabilidade do clube e de sua direção, enquanto a Igreja tem por prerrogativa pregar o amor de Cristo e conduzir as pessoas à salvação’, completou o presbítero Suliva

O pastor Marcelo, por sua vez, concordou que é impossível conter ‘certas práticas e venerações’, conforme definiu o representante da Igreja Avivamento Bíblico. ‘São coisas que fogem um pouco da nossa alçada, que não temos como prever’, reconheceu o batista. Para o presbítero Sulivan, há uma maneira de se fazer ouvir mesmo diante de um São Jorge gigante: ‘Cremos que os jogadores que professam a fé cristã têm consciência de tudo o que desagrada ao senhor Deus e devam fazer a diferença, a exemplo de Daniel, quando escravo na Babilônia’.

Divulgação

Camisa com São Jorge já motivou polêmica religiosa no Corinthians

O Cavaleiro Fiel idealizado pelo escultor Gilmar Pinna não será a primeira ação abraçada pelo departamento de marketing do Corinthians que faz referência a São Jorge. No ano passado, o clube lançou um uniforme grená (a cor homenageia o Torino, da Itália) com a imagem do santo padroeiro estampada no peito. A novidade foi bastante criticada pelos torcedores evangélicos.

A estreia da camisa com o desenho de São Jorge ocorreu na vitória por 2 a 1 sobre o Coritiba, em Araraquara, na segunda rodada do último Campeonato Brasileiro. Na ocasião, torcedores organizados invadiram o campo para protestar – não contra o santo, mas porque o grená fugiu à tradição alvinegra.

Apesar da polêmica, aquele terceiro uniforme do Corinthians bateu recorde de vendas de modelos anteriores – 400 camisas foram comercializadas na loja do clube no Parque São Jorge em apenas dois dias. Também foi eleito pelo site britânico ‘Subside Sports’ como o mais belo do mundo em 2011.

Ex-jogador de futebol das categorias de base do Suzano e aprovado em teste no rival Palmeiras quando ‘estava meio contrariado’ na juventude, Marcelo se empolgou ao também mencionar os chamados Atletas de Cristo. Entre os corintianos, um dos evangélicos é o goleiro Julio Cesar, afastado do time titular do técnico Tite após falhar contra a Ponte Preta, nas quartas de final do Campeonato Paulista. ‘Houve um grande crescimento de atletas cristãos. Você citou o Julio Cesar, mas ainda podemos lembrar alguns mais conhecidos, como o Kaká. Um ano antes da Copa do Mundo da África do Sul, tive a oportunidade de viajar ao lado do Jorginho, que é evangélico e foi auxiliar do Dunga. Ele me falou sobre o pastor que dava assistência aos jogadores da Seleção Brasileira, a pedido do Lúcio , procurando prestar o auxílio espiritual sempre de forma discreta’, contou.

Para o pastor Marcelo, é importante que o cristianismo contagie também quem fica nas arquibancadas dos estádios. ‘O grande empecilho para eu voltar a frequentar partidas é a violência. Já vi um torcedor atirar uma pilha, daquela maior que existe, no carro do adversário. Aconteceu na minha frente. Infelizmente, alguns se tornam fanáticos a ponto de achar que tudo na vida gira em torno do futebol. Em grupo, eles adquirem a coragem de maltratar o próximo. A Igreja pode, sim, ser a resposta para acabarmos com essa guerra que acontece entre torcidas’, pregou, lembrando de outra razão para estar longe dos jogos do Corinthians atualmente. ‘Como evangélicos, reservamos os domingos para cultuar Deus. Quando o Timão jogava a Série B, com partidas aos sábados, eu até conseguia ir. Ficou mais complicado agora.’

A proximidade da Igreja Batista Central em Itaquera do futuro estádio do Corinthians, no entanto, pode fazer com que o pastor Marcelo reveja a sua posição e volte a incentivar o time de coração de perto – ainda que precise passar pelo Cavaleiro Fiel na entrada da arena. Ele chegou a apontar a torcida evangélica ‘Fogospel’, fundada pelo pastor Hercules Martins para incentivar o Botafogo, como um exemplo a ser seguido. ‘Os membros da Fogospel levam suas faixas, distribuem folhetos, cantam os hinos da igreja e não xingam a mãe do juiz. Não é legal? É um comportamento diferente, que já começou a gerar grande repercussão. Fico pensando… Quem sabe não podemos fazer uma torcida gospel do Corinthians?’, comentou.

Um dos fiéis não gostou da ideia: Eliel Leão de Oliveira. ‘Por incrível que pareça, há palmeirenses aqui. Não é, Eliel? Já não disse que o Corinthians está na Bíblia?’, sorriu Marcelo, satisfeito com a rivalidade saudável que há em sua igreja. ‘A nossa diferença para a maioria dos torcedores é que não maltratamos o próximo por gostar de outro time. Reunimos pessoas de diferentes opções aqui, todas convivendo harmoniosamente’, orgulhou-se.

O próprio palmeirense Eliel colabora com o raciocínio do pastor Marcelo, elogiando a iniciativa de o Corinthians construir o seu estádio em uma região menos favorecida financeiramente de São Paulo. ‘É interessante porque o estádio vai trazer vários benefícios para quem vive aqui. A oferta de empregos aumentará. Até a cultura local mudará um pouco. A nação corintiana, que sempre teve uma presença bem forte na Zona Leste, ficará ainda maior’, enalteceu, mas sem perder as suas ressalvas com a ligação corintiana com São Jorge. ‘Eles não têm que misturar religião com futebol. Quando se trata de esporte e saúde, apoiamos. Se partem para esse outro lado, já começamos a ficar meio assim.’Embora cite as mesmas vantagens observadas por Eliel, o pastor Marcelo também tem suas críticas à construção do estádio em Itaquera – além daquelas que poderiam ser direcionadas à estátua do cavaleiro. ‘Tenho percebido que a região já vem sendo bastante valorizada no aspecto imobiliário, em tudo. Por outro lado, os dias estão passando, o estádio começou a subir, e as obras de infraestrutura não acompanharam esse ritmo. Outro dia mesmo, o trânsito estava completamente parado no bairro. Tudo bem que choveu, mas imagine quando o estádio estiver pronto. Não temos tantas perspectivas nessas questões. É preocupante. Não há nem hotéis em Itaquera. E a Copa vem aí’, alertou.

No próximo Mundial, Marcelo terá seus receios para torcer pela Seleção Brasileira – seja em Itaquera, no Maracanã ou em qualquer outra sede. ‘Às vezes, acham que todos os problemas do Brasil são resolvidos através de um título de Copa. Não temos nem incentivos para outros esportes. Os montantes que os jogadores de futebol ganham também são uma injustiça em um País como o nosso. Além disso, enchem muito a bola deles e esquecem completamente depois, o que pode ocasionar depressão. Temos uma série de problemas’, lamentou, ponderando que só gosta das vitórias brasileiras nos campos porque ‘abrem as portas para os missionários’. ‘Já levei um grupo de 104 pessoas para a China e, mesmo em um País fechado como este, fomos bem recebidos. Por quê? Estávamos com camisas da Seleção. Depois, fomos em 209 evangélicos para a África do Sul e ocorreu a mesma coisa. Asiáticos e africanos nos adoram.’

EXCLUSIVO: VEJA COMO FICARÁ A ESTÁTUA GIGANTE DO ESTÁDIO DO CORINTHIANS

Feito de aço inoxidável, o Cavaleiro Fiel do escultor Gilmar Pinna terá aproximadamente 30 metros de altura e pesará 200 toneladas, com custo estimado de R$ 6 milhões

Enquanto os estrangeiros não fazem o caminho inverso e desembarcam no Brasil para a Copa do Mundo, o missionário Marcelo continua a se dedicar, na medida do possível, ao Corinthians. Nas quartas-feiras, o pastor tem o hábito de visitar o pai (que converteu de religiões afro-brasileiras para a evangélica) em Atibaia, comprar uma pizza e acompanhar em família os jogos da Copa Libertadores da América. Torce de modo comedido nessas ocasiões. No máximo, quando está irritado, grita: ‘Misericórdia, juiz!’.

Orar para que o troféu do torneio continental finalmente vá para a galeria do Parque ‘São Jorge’, então, o pastor Marcelo Rodrigues de Oliveira nem sequer cogita. ‘Hoje, a minha relação com o Corinthians não é de adoração como antes. A minha adoração é Jesus Cristo. Uma vez, vi um corintiano com uma camisa novinha do clube, e ele me disse que o manto da sua religião deveria ser o melhor de todos. Para ele, o time era religião. Mas sempre há alguém orando para outra equipe do lado adversário’, analisou o ex-simpatizante da organizada Gaviões da Fiel. ‘Pelo Corinthians, eu não oro!’, concluiu, taxativo.