VIPs : quando a realidade é melhor que a ficção

Filme é livremente inspirado na história de Marcelo Nascimento, estelionatário que em 2001 enganou celebridades brasileiras

A realidade, nesse caso, parece ter sobreposto os recursos de que câmeras, roteiro e enredo são capazes.

Em 2001, durante um carnaval fora de época no Nordeste, o apresentador de um programa de entrevistas de subcelebridades, ricos cafonas e alpinistas sociais desavisados enchia de salamaleques o vice-presidente de uma das maiores companhias aéreas do Brasil. Diante da TV, uma das secretárias do verdadeiro dono pasmava. Não havia avião nenhum, nem empresa e aquela pessoa não era quem dizia ser.

Marcelo Nascimento da Rocha, estelionatário paranaense, à época com 25 anos, criara para si um roteiro de cinema; pura ficção. Convenceu famosos com muita lábia e jogo de cintura de que era um homem rico, conseguindo por tabela regalias de todo tipo, inclusive jatinhos de empresas aéreas ao seu dispor. A trajetória do pilantra chegou ao cinema com VIPs, de Toniko Melo, lançado neste domingo (26) no Festival de Cinema do Rio, livremente inspirado na história de Marcelo, biografado pela jornalista Mariana Caltabiano num livro homônimo e interpretado por Wagner Moura.

A história de Marcelo, que aprendeu a pilotar aviões trabalhando para traficantes de drogas no Mato Grosso do Sul, antes de alastrar suas mentiras de bon vivant pelo Brasil afora, ganha com VIPs a narrativa na qual parece melhor se encaixar: o cinema. Mas, contada pelos jornais, as peripécias do personagem são muito mais emocionantes do que o filme foi capaz de dramatizar – o que é a sua grande desvantagem. Passando-se por roqueiro da banda famosa, policial e até líder de facção criminosa, Marcelo desafiou a ficção. O resultado do filme, mesmo sustentado numa ótima atuação de Moura, deixa a desejar.

Outro ponto importante: são muitas as histórias do picareta para pouco tempo de filme. Concentrado nos primeiros passos de Marcelo como piloto na fronteira, até o recorte em que ele aparece engambelando famosos numa micareta, o filme se detém pouco em descortinar quem de fato é Marcelo e como o seu “talento” foi lapidado, aspecto importante para contar bem a história desse homem.

Muito levemente se mostra a sua busca incessante por identidade, ancorada na figura ausente do pai piloto de avião a quem Marcelo busca mimetizar no filme, e que nos remete de imediato à história de Frank W. Abagnale, levada ao cinema por Steven Spielberg em 2002 em Prenda-me Se For Capaz, interpretada por Leonardo Di Caprio – embora a história deste seja mais rica em peripécias.

Wagner dá conta de interpretar cinco personagens com segurança, carregando o filme praticamente nas costas, sem deixar que o humor involuntário das mentiras do personagem e os dramas que o acompanham desde a juventude se percam na solução “espírita” de pô-lo em diálogo com o pai ausente (estaria ele morto?). Ou que o entremeio da história com lições e mensagens epifânicas como a que em tese o move (“Não é o touro que mata o toureiro, é o toureiro que se deixa matar”) ponha a perder a boa história que deixa mais curiosidade do que explicações e vá lá, poderia ter sido melhor explorada pela ficção. Muito embora seja compreensível que, diante de tão farta e inusitada realidade, melhorar o que já é absurdo não seja uma tarefa fácil.

Marcelo foi preso em 2001 quando tentava embarcar num jatinho atulhado de celebridades globais, que inclusive o defenderam para a polícia como se fossem grandes amigos e ele, de reputação ilibada.

Assista ao trailer do filme abaixo.