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‘O Fundamentalista Relutante’ é aplaudido em Veneza

Teve uma boa partida o 69º Festival de Veneza, com a apresentação fora de concurso de O Fundamentalista Relutante, da diretora indiana Mira Nair. O longa foi bem aplaudido na sessão de imprensa, nesta quarta-feira, mesmo que tenha suscitado dúvidas em alguns profissionais. Uma delas, sobre a tentativa de se fazer um filme sobre os conflitos do mundo para o público amplo. Ora, qualquer artista deseja atingir o maior número de pessoas. A questão é saber se faz concessões em excesso nessa busca. A outra objeção parece mais fundamentada: Nair teria tratado assuntos políticos com base em conflitos pessoais, misturando uma coisa com a outra, sem muito rigor.

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A história é a de Changez (Riz Ahmed), jovem paquistanês que tenta fazer a América. E faz com sucesso. Ele galga postos numa dessas empresas de “reestruturação”: o escritório, no 53º andar de um edifício em Manhattan, pega empresas em dificuldades econômicas e as reergue cortando custos; ou seja, amputando empregos. O big boss, vivido por Kiefer Sutherland, acha que, nesse jovem tímido, encontrou o sócio ideal. Filho de um poeta, Changez terá seu momento de iluminação no momento de usar suas habilidades cirúrgicas em uma casa editora turca.

Enfim, Changez terá direito a vários outros momentos de insight. Ele, que já se considerava um americano típico, verá por exemplo que, depois do 11 de Setembro, as coisas não são bem assim. Terá problemas também com a namorada Erica (Kate Hudson). A garota tem dificuldades em esquecer um antigo namorado, morto em acidente de carro quando ela dirigia, bêbada. A alusão aqui é bastante clara, sobre a dificuldade de realizar o luto e olhar em frente, seja num caso individual, seja num caso coletivo.

Mira Nair diz que pretendeu olhar o mundo com essa visão do Paquistão, país que tem relacionamento difícil com a Índia, no qual ela morou quando criança. Tantos antagonismos se expressam numa posição humanística e crítica: “O mundo é complexo demais para ficarmos naquela posição de Bush de ou você está conosco ou está contra nós”, diz a diretora. Ela mesma possui uma experiência traumática em relação ao 11 de Setembro. Em 2001 havia vencido justamente o Festival de Veneza, com seu “Casamento Indiano”, e voltaria para casa no dia seguinte com o troféu quando aconteceu o ataque às Torres Gêmeas. “Fiquei apavorada, pois meu marido e meus filhos moravam em Nova York. Não conseguia voltar para casa e só cheguei lá uma semana depois”, lembra.

A ideia de base do filme é, como não podia deixar de ser, sobre a convivência entre diferentes. Nesse ponto, aliás, está alinhado com a própria proposta do autor do livro. Mohsin Hamid diz que sua intenção é problematizar essa diferença muito fácil que fazemos entre indianos, paquistaneses, americanos… Afinal, somos todos seres humanos, não?

De modo que O Fundamentalista Relutante é muitas coisas num só filme. Primeiro, thriller político com algumas boas sequências. Tem clima. Os fatos vão se revelando em torno de uma mesa de chá, quando Changez conta sua trajetória para um jornalista americano (Liev Schreiber). Segundo, balanço até interessante sobre os efeitos do 11 de Setembro nos Estados Unidos, gênese do mundo tal como o sofremos hoje, com paranoia e obsessão de controle. Terceiro, tenta mesclar sentimentos e reflexão política, mas o coquetel não dá muito certo. Às vezes, onde falta pensamento, entra o melodrama para tapar o vazio. Mas, no todo, é um bonito filme.

(Com Agência Estado)