IMPERDÍVEL: Polêmico, livro de Gay Talese sobre voyeur é lançado

Novo trabalho do jornalista que vem causando controvérsia retrata um homem que construiu uma estrutura em seu motel para que pudesse espiar os quartos

Em 1980, o escritor e jornalista americano Gay Talese recebeu uma carta inusitada, em que um homem afirmava que havia comprado um motel no Colorado e construído uma estrutura no sótão para que pudesse espiar os quartos sem que fosse visto pelos hóspedes, com a ajuda de sua mulher. O voyeur afirmava que havia feito isso pelos últimos quinze anos e documentado o que via em um diário. Ele convidava o escritor a visitá-lo para uma conversa e para conhecer suas “instalações”.

Na carta e ao chegar no Colorado, Talese recebeu de Gerald Foos, o voyeur, a indicação de que só colaboraria com um livro sobre ele e sua história caso não fosse identificado. O autor de livros como A Mulher do Próximo e O Reino e o Poder já estava disposto a deixar toda a história de lado, já que não aceitaria essa condição. Mas sua curiosidade falou mais alto e ele decidiu receber os escritos que Foos lhe mandou nos anos seguintes, ainda que não tivesse intenção de publicá-los.

14215_ggO que recebeu e o que está em O Voyeur (tradução de Pedro Maia Soares, Companhia das Letras, 272 páginas, 39,90 reais), que chega agora às livrarias brasileiras, era uma miscelânea de relatos do dono do motel. Foos admitia que estava interessado nas aventuras sexuais que acontecia em sua propriedade, mas também se considerava um observador, quase um pesquisador, do comportamento humano em geral. Junto com narrativas sobre os atos sexuais de seus hóspedes, o americano fazia pequenas análises sobre o que via.

“Essa é a vida real. Essas são pessoas reais! Estou profundamente descontente que somente eu deva suportar o fardo de minhas observações. Esses indivíduos jamais encontrarão felicidade e o divórcio é inevitável. Ele não sabe a primeira coisa sobre sexo ou sua aplicação. A única coisa que sabe é penetrar e empurrar, até o orgasmo, debaixo das cobertas, com as luzes apagadas”, concluiu Foos sobre um homem que estava hospedado com sua mulher no motel.

Controvérsias

Talese continuou a receber os escritos do voyeur até que, em 2013, ele finalmente concordou que o jornalista usasse seu nome para contar sua história. O escritor publicou uma parte na revista The New Yorker — e se viu no meio de uma controvérsia. Seus leitores não aceitaram nada bem o fato de que Talese soube por anos das atividades ilícitas de Foos e nada fez. Para piorar, o dono do motel afirmava que também havia visto, de sua estrutura no sótão, um homem estrangular uma mulher até a morte em um dos quartos, em 1977.

Com a história publicada em livro nos Estados Unidos, a controvérsia só aumentou. Isso porque jornalistas descobriram algumas inconsistências nos relatos de Foos – ele, por exemplo, havia vendido o motel em 1980 e o comprou novamente só em 1988, mas algumas de suas anotações mencionavam hóspedes que ele teria visto nesse período. O dono do motel também disse que havia ido à polícia para reportar o crime de 1977, sem dizer que testemunhara o estrangulamento. Mas Talese nunca encontrou qualquer registro das autoridades sobre o caso. Teria Foos mentido sobre isso?

No final de junho, pouco antes de o livro chegar às livrarias americanas, o escritor chegou a dizer ao Washington Post que não faria a divulgação da obra por causa desses erros. Mas voltou atrás depois, afirmando que, se houvesse algo a ser corrigido posteriormente, isso seria feito em outras edições. Em uma passagem de Voyeur, Talese indica que sabia que não podia confiar em Foos, ao dizer que, apesar de o americano ter afirmado que ele espiava os hóspedes desde 1966, ele só havia comprado o motel em 1969. “Não tenho nenhuma dúvida de que Foos era um voyeur épico, mas às vezes podia ser um narrador impreciso e não confiável. Não posso garantir a autenticidade de todos os detalhes que ele narra em seu manuscrito.”

Não há dúvidas de que Talese errou ao acreditar demais em sua fonte e ao não ir a fundo em sua pesquisa. Mas o livro tem, sim, méritos. Foos diz ao escritor que ele não acreditava que estava cometendo nenhum crime porque nunca era visto. Com essa lógica distorcida, o dono do motel pensa estar contribuindo para estudos do comportamento humano com seus relatos. Mas não é bem isso. Na verdade, seus escritos falam mais sobre si mesmo e sobre como ele é um homem perturbado, com problemas a resolver, do que sobre qualquer outra coisa. Talese errou, mas, não fosse por ele, essa história, por mais conflituosa moralmente falando que ela seja, talvez nunca tivesse sido descoberta. E que história.