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‘Hair’ estreia nova versão brasileira

“Hair é uma peça universal. Não fala de uma guerra específica e sim do horror da guerra. O grito de liberdade do musical ecoa em todos os lugares. Vivemos numa cidade quase em guerra civil. A segregação racial que ainda existe, a homofobia , a misoginia, a falta de tolerância com opções sexuais e religiosas. Não fazemos mais passeata como os estudantes e hippies em 1967, mas é fundamental ouvir o grito do Hair de 43 anos atrás e ver que precisamos sempre nos posicionar e deixar o sol entrar”

Dupla de ouro dos musicais brasileiros, Charles Moeller e Claudio Botelho encaram agora o desafio de montar, em solo carioca, um dos mais conhecidos e lembrados musicais de todos os tempos. Hair estreia dia 5 de novembro no palco no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, cercado de expectativas, com elenco praticamente desconhecido, selecionado a partir de testes e a excitação de sempre ao apresentar a história do triângulo amoroso envolvendo os jovens Claude, Sheila e Berger.

Claude é um rapaz interiorano que, prestes a se alistar para a Guerra do Vietnã, conhece um grupo de hippies em Nova York e com eles passa a conviver e viver experiências inéditas. A embalar os sonhos de paz e amor livre na nova versão brasileira de Hair estarão os paranaenses Hugo Bonemer e Igor Rickli, como Claude e Berger, e a carioca Carol Puntel, intérprete de Sheila, que já esteve em musicais como Cats e O Fantasma da Ópera. Três de um elenco de 30 atores escolhidos em uma das mais árduas peneiras de que se tem notícia no teatro brasileiro. Foram cinco mil inscritos, e dois mil vistos pelos diretores. Nesta entrevista, Charles Moeller que fala de método de trabalho, ideologias e faz considerações sobre a polêmica versão para o cinema feita por Milos Forman.

Qual é o grande ganho de se fazer testes para escolha de elenco? Hoje em dia a turma está mesmo mais preparada?

O grande ganho é descobrir pessoas novas, é ter contato com um candidato várias vezes, pois ele muda, se prepara. Se ele faz mal uma audição, melhora muito depois, aquilo vira uma causa para ele. Alguns candidatos fizeram três ou quatro testes e depois entraram. A audição é fundamental no teatro musical. Fazer Hair e descobrir dois protagonistas é ótimo, garante uma cara fresca. O público também entra zerado, sem opinião sobre o passado daquelas pessoas. Igor será Berger e Hugo será Claude: o público não tem outras referências sobre os dois. Hoje em dia as pessoas estão tão preparadas que poderia ter feito três elencos completos e ainda deixaria gente boa de fora.

Para os papéis principais, houve muita dúvida ou vocês decidiram de cara? A quem cabia a decisão?

Foram três semanas de muitas audições com todos os finalistas aos papéis principais. Quem julga e escolhe tem que estar afinado num único pensamento: a peça. Sempre vou muito preparado para a bancada da audição. Quando sento ali, sei exatamente o que eu estou procurando. Estudo Hair há dois anos. Sei cada cor que a peça pede para que aquela aquarela funcione. Além dos requisitos básicos para encarar o papel, como ter a voz, o corpo e o tipo, tenho que sacar, até intuitivamente, se o ator tem aquele registro do personagem dentro dele. No Hair, precisava de dois lados da mesma moeda: um ator para o Berger, que tenha um demônio de frente, uma sexualidade e uma virilidade aparente, alguém assim quase selvagem. E seu duplo, que é o oposto: Claude, que tem que ter uma fragilidade, uma sensibilidade e até uma ausência de sexualidade, cheio de duvidas e só racionalidade. É como se fosse o Id e o Superego, o racional e o irracional conduzindo essa tribo.

As outras personagens são definidas também desta forma eu não procuro aleatoriamente. Hair é uma Santa Ceia, a peça é muito clara, temos que escolher os apóstolos certos. A decisão final é minha, a peça está na minha cabeça, mas minha equipe é muita afinada comigo. Estamos juntos há muitos anos e sempre concordamos na decisão final.

Como será o Hair de vocês? Seguirão à risca o que é apresentado na Broadway atualmente ou poderão modificar uma ou outra coisa?

Nunca seguimos à risca nada, nunca compramos um pacote, um franchising. Podemos adaptar absolutamente tudo, essa é mais uma releitura pessoal nossa.

Por que Hair faz sucesso há mais de quatro décadas?

Hair é uma peça universal. Não fala de uma guerra específica e sim do horror da Guerra. O grito de liberdade do musical ecoa em todos os lugares. Vivemos numa cidade quase em guerra civil. A segregação racial que ainda existe, a homofobia , a misoginia, a falta de tolerância com opções sexuais e religiosas. Não fazemos mais passeata como os estudantes e hippies em 1967, mas é fundamental ouvir o grito do Hair de 43 anos atrás e ver que precisamos sempre nos posicionar e deixar o Sol entrar. Pensando globalmente, ainda vivemos em guerra e conflitos muito parecidos e tão assustadores e sem sentido como o Vietnã. A gente ainda não conseguiu aceitar o todo, apesar de olharmos um pouco mais para Oriente e a Índia, e isso virou até uma moda, que beira a superficialidade, por não conseguimos entender o básico: tolerância e aceitação.

A que você atribui a força das canções de Hair?

O compositor, além de ser um gênio, estava no lugar certo e na hora certa. Ele teve uma sacada incrível: usar o rock, a voz dos jovens, mesclando uma diversidade de sons e ritmos, música negra com mantras orientais, a influência indígena e mexicana. As letras são cheias de significados nas entrelinhas, tem um psicodelismo, tem signos escondidos. E tem a força por ter sido composta naquele momento. Eles (texto de James Rado e Jerome Ragni, música de Galt MacDermont) escreveram exatamente aquilo que eles estavam vivendo: a descoberta do LSD, os horrores da segregação racial e sexual, a guerra do Vietnã sendo televisionada. Eles colocaram em letra e música aquilo que todos queriam falar. As canções viraram hinos, uma causa. Não tem uma música sequer mais ou menos.

A cena do nu ainda pode provocar impacto?

Claro que pode. O mundo pisou no freio, a partir de 70. As mortes de Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Jim Morrison de overdose e o assassinato do Charles Manson, líder de uma tribo de hippies, deram motivos pra desconfiarem daquilo tudo. Tudo entrou numa rebordosa, numa ressaca.

Acho que teve um lindo final com Woodstock e seus três dias de paz e amor, mas já era quase com uma despedida. Logo depois, o mundo foi ‘careteando’ e quando realmente a guerra acabou e os soldados do Vietnã voltaram em 1975 já não havia mais quem recebê-los. O mundo tinha mudado novamente. Estava de ressaca. As drogas, para os hippies, tinham ideal lisérgico: uma janela pra alma (psicodélico). E não era droga pela droga, era a descoberta de outros níveis de percepção interna. Era a busca pelo auto-conhecimento e pelo sagrado. Mais ainda era droga e droga cobra um preço muito alto do usuário – e eles perderam a mão. Lógico que era um movimento muito ingênuo, pois eram crianças drogadas cantando e se divertindo e tendo a coragem de se expor, eles mesmos se destruíram, literalmente morreram de overdose. Do meio de 75 pra cá, tudo mudou, os anos 80 foram um desastre estético, resgataram padrões muito esquisitos. A partir de 2000, começa a dar uma refrescada. Mas o corpo ainda é culpado, como diz uma das músicas de O Despertar da Primavera. Somos cheios de tabus. Temos muito medos dos nossos desejos. Veja como vivemos na intolerância: vivemos num país sexualizado, onde ficamos nus na praia o ano inteiro, pessoas pagam fortunas pra desfilarem absolutamente peladas no Carnaval, e hostilizamos aquela garota do vestido rosa de lycra na faculdade.

A adaptação cinematográfica de Hair o agrada? Qual a diferença básica entre ela e a peça?

Quando vi pela primeira vez, chorei do início ao fim. O filme é uma das razões para eu ter me tornado diretor de musical, era a melhor música e coreografias do mundo e a escolha do elenco é adorável. Mas o diretor, o genial Milos Formam, que é muito musical e sabe filmar com precisão os números, trai a peça totalmente. Ao transpor para o cinema, ele tira a linguagem teatral e o que é uma conversa direta entre atores e plateia vira uma historinha cartesiana. Ele tira o ritual, o psicodélico, o caos. A grande tragédia do filme é o Berger ir para o Vietnã no lugar do Claude. O filme mata o hippie e salva o cowboy interiorano!

Hoje ainda amo o filme e choro sempre, mas realmente acho que o filme pesou a mão. Ele transformou os caretas em mocinhos. O Claude se apaixona pela menina rica, que mora na Quinta Avenida. O filme não coloca o Berger como um João Batista, um Messias de uma nova era, nem um revolucionário polêmico. Ele vira o fofinho hippie do Central Park, que pede esmola e dança sobre a mesa da casa de gente rica. Quando lia que os autores odiavam o filme e que muitos atribuíam a depressão e até o câncer de Gerome Ragni depois do lançamento e do sucesso do mesmo, não entendia . Mas quando vi em Nova York e depois que o material caiu na minha mão, entendi que o filme trai conceitos básicos do original. Hair não era mais um libelo de uma nova era, uma nova seita de aceitação total, fora que despreza os paralelos com o cristianismo e com Shakespeare. Virou para sempre a história de um bom moço americano que se apaixona pela rica americana e se divertem com uns hippies maluquinhos no Central Park e no final quem é sacrificado é o líder marginal da tribo.

No mundo dos musicais, Hair tem seu lugar no Olimpo. A que você atribui o fascínio de gerações diferenciadas em torno do texto?

Eu acho que é a música. O grande fascínio é a música cantada por um grupo de jovens diferentes. Todo mundo quer participar daquela tribo. São pessoas pregando coisas em que todos nós queremos acreditar e pregar. Você não tem como não se identificar com algumas cenas. O espectador vê uma tribo, o ego vai embora porque você está pensando no todo. Isso ecoa de uma maneira xamânica, tem uma força secular. Desde que o mundo é mundo, as pessoas se juntam enquanto tribo, enquanto aldeia. O coletivo junto com a canção, junto com a vontade de querer pertencer, gera todo esse fascínio.

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