Filme ‘Ela’ transforma solidão em poesia futurista

Novo trabalho do cineasta Spike Jonze conquistou cinco indicações ao Oscar ao usar a tecnologia para potencializar o isolamento humano

No futuro próximo apresentado pelo filme Ela, que estreia nesta sexta-feira no Brasil, as pessoas possuem acesso a tecnologias um pouco mais avançadas que as atuais, entre elas um assistente pessoal eletrônico – parecido com o sistema de voz Siri, da Apple -, que “fala” com o usuário por um ponto no ouvido, listando e-mails, compromissos e tarefas variadas. Logo nos primeiros minutos do longa-metragem, o dispositivo é substituído pelo OS1, um sistema operacional consciente, que supera tudo o que se conhece até hoje no quesito inteligência artificial.

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O enredo assinado pelo cineasta Spike Jonze, diretor de Onde Vivem os Monstros (2009) e Quero Ser John Malkovich (1999), é comandado pelo ator Joaquin Phoenix no papel de Theodore, um homem triste e introspectivo, que trabalha escrevendo cartas sob encomenda, a maioria para casais apaixonados. O protagonista foi deixado há um ano pela esposa Catherine (Rooney Mara) e mantém poucos amigos, entre eles Amy (Amy Adams) e Charles (Matt Letscher), com quem não consegue se abrir realmente.

Theodore compra um OS1 com personalidade feminina, chamada Samantha, alcunha que ela mesma escolhe após ler um livro de nomes em menos de um segundo. Com a voz sexy da atriz Scarlett Johansson, o sistema parece uma pessoa comum, que existe em alguma dimensão. Em pouco tempo, a solidão de Theodore encontra um refúgio aparentemente seguro em Samantha. Ambos se apaixonam e começam um relacionamento.

O romance criativo rendeu a Jonze a consagração na categoria de melhor roteiro original no Globo de Ouro e a indicação na mesma categoria no Oscar. Apesar de nonsense, a história se constrói com certo ar de verossimilhança. Afinal, se nos dias de hoje a humanidade já é dependente de seus smartphones, em um futuro não tão distante, a sociedade pode estar evoluída o suficiente para que “namoros” como o apresentado sejam possíveis.

Na trama, antes mesmo do surgimento de Samantha, o protagonista lançava mão das facilidades tecnológicas para buscar companhia imediata. Um escape para a solidão, com efeito ironicamente contrário, já que tais subterfúgios potencializam o isolamento.


Além da história capaz de deixar o espectador com a sensação de que, em breve, ele também pode se apaixonar por um computador, a coletânea de elementos artísticos utilizados por Jonze faz da produção uma obra para ser degustada de maneiras variadas. As principais qualidades podem ser percebidas nas cinco indicações recebidas pelo filme no Oscar: melhor roteiro original; canção original para The Moon Song, cantada no longa por Scarlett e Phoenix; trilha sonora original; melhor direção de arte e melhor filme.

Enquanto a base de Ela fica com os diálogos existenciais e líricos entre Theodore e Samantha, os complementos, que enchem os olhos e ouvidos, são a fotografia, o figurino e a trilha sonora. Ambientado em Los Angeles, em uma data não especificada, o longa mostra a cidade com uma coloração amarelada, que remete a fotos antigas, ou a uma mistura de filtros do Instagram. As roupas e os cabelos indicam personagens perdidos no tempo, com estilos próximos aos dos anos 1950 e 1960. E a trilha sonora, dominada pela banda canadense Arcade Fire, mistura canções instrumentais, na base do piano e violão, com composições eletrônicas, algumas com sons típicos de computador.

A combinação desses ingredientes coloca futuro e passado no mesmo prato. Fusão vista também no trabalho de Theodore: ele dita cartas de amor para um computador que as escreve com letra manuscrita, como se tivessem sido feitas pela mão do cliente que a encomendou. A máquina, então, pode não só servir o homem, como superá-lo. Porém as necessidades emocionais do homem insistem em levá-lo ao sentimento de saudosismo de tempos antigos, ao valorizar, por exemplo, um papel recebido pelo correio com frases bonitas e corações desenhados.

Como um maestro cheio de imaginação, Jonze orquestra com primazia todos os elementos da trama, de maneira sedutora, inteligente e perspicaz. Em um ano em que seis dos nove indicados ao Oscar de melhor filme são baseados em histórias reais, a ficção dramática desenvolvida pelo cineasta caiu no gosto da Academia de Artes americana e ganhou destaque, se tornando um dos grandes favoritos da noite para sair da cerimônia, do dia 2 de março, com, pelo menos, a estatueta de melhor roteiro original nas mãos.

‘Trapaça’

Trapaça, que tem David O. Russell no roteiro e na direção, é baseado em uma operação real do FBI batizada de Abscam, que ocorreu nos anos 1970 e descobriu, enquanto investigava um grupo de trapaceiros, uma rede de corrupções políticas. O ponto alto do filme, que levou o troféu de melhor longa cômico ou musical no Globo de Ouro, fica nas mãos do elenco, que conta com a presença de Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Todos conquistaram indicações ao Oscar, dominando as categorias de atuação. No Globo de Ouro, Jennifer Lawrence e Amy Adams já saíram vencedoras, dando à produção o maior número de prêmios na festa, três. Em 2013, Russel já se saiu bem com O Lado Bom da Vida, que deu a Jennifer o Oscar de melhor atriz. No total, Trapaça, que estreia dia 7 de fevereiro no Brasil, teve 10 indicações. 

‘Gravidade’

Um dos favoritos ao prêmio principal do Oscar, o longa dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón conta a história de Ryan Stone (Sandra Bullock), uma engenheira médica em sua primeira missão fora da Terra, na companhia do experiente astronauta Matt Kowalski (George Clooney). O trabalho — e a sobrevivência — da dupla no espaço é ameaçado quando uma nuvem de partículas resultante da destruição de um satélite russo chega ao local onde eles se encontram. Ryan e Kowalski não conseguem retornar ao ônibus espacial e ficam à deriva. O filme foi o vencedor do Globo de Ouro na categoria de direção e ficou entre os finalistas ao prêmio de melhor filme de drama na competição. No Oscar, Gravidade lidera as indicações ao lado de Trapaça. O longa é lembrado em outras nove categorias, incluindo a de melhor atriz com Sandra Bullock, a de melhor diretor para Alfonso Cuarón e a de melhor montagem. No Brasil, o filme estreou em 11 de outubro.

’12 Anos de Escravidão’

Um dos favoritos ao prêmio, o elogiado longa de Steve McQueen acumula um Globo de Ouro de melhor drama e indicações ao Bafta, o Oscar britânico, e aos prêmios concedidos pelos sindicatos de atores, diretores e diretores de arte dos Estados Unidos. A produção conta a história adaptada da autobiografia Twelve Years a Slave, de Solomon Northup, um americano livre de origem africana que foi sequestrado e vendido como escravo durante a década de 1840. No longa, Northup é interpretado por Chiwetel Ejiofor, indicado ao prêmio de melhor ator no Oscar. No total, o filme foi indicado a nove prêmios, incluindo o de ator coadjuvante para Michael Fassbender, que dá vida a um cruel dono de escravos. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 28 de fevereiro. 

‘O Lobo de Wall Street’

O controverso filme de Martin Scorsese marca a quinta parceria do diretor com o ator Leonardo DiCaprio e conta a história real de Jordan Belfort, um corretor de títulos da bolsa americana que entrou em decadência nos anos 1990. Cercado por uma vida de ganância e abusos, regada a drogas, sexo e álcool, Belfort se envolveu em diversos crimes do colarinho branco e acabou investigado pelo FBI. O Lobo de Wall Street conquistou cinco indicações, entre elas as de melhor filme, melhor ator para Leonardo DiCaprio e melhor diretor. O longa estreia no Brasil dia 24 de janeiro. 

‘Capitão Phillips’

O longa dirigido por Paul Greengrass, indicado também ao Globo de Ouro na categoria de melhor drama, é baseado em fatos reais e conta a história de Richard Phillips (Tom Hanks), o capitão de um navio cargueiro sequestrado por piratas somalis em 2009. O roteiro assinado por Billy Ray, também responsável pela adaptação da saga Jogos Vorazes, é inspirado no livro de memórias A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs, and Dangerous Days at Sea, escrito pelo próprio Phillips. No Oscar, o filme foi lembrado em outras cinco categorias, incluindo a de roteiro adaptado e a de ator coadjuvante com Barkhad Abdi, que interpreta o líder do grupo pirata invasor do navio. No Brasil, o longa estreou em 8 de novembro. 

‘Philomena’

O filme estrelado por Judi Dench conta a história real de Philomena, uma mulher que, nos anos 1950, dá à luz em um convento e se vê obrigada a dar o bebê para adoção. A criança é levada para os Estados Unidos e logo depois Philomena começa a sua busca por ela. Cinquenta anos depois, ela conhece o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan), que a ajuda na investigação sobre o paradeiro do filho. O longa, dirigido por Stephen Frears, foi baseado no livro escrito por Sixsmith. No Oscar, teve quatro indicações: melhor filme, melhor atriz para Judi Dench, melhor roteiro adaptado e melhor trilha sonora original. Philomena está previsto para estrear no Brasil no dia 7 de fevereiro. 

‘Clube de Compras Dallas’

Baseado na história real do eletricista e caubói texano Ron Woodroof, um machão que descobre ter aids em 1986, o longa do canadense Jean-Marc Vallée conquistou seis indicações, entre elas a de melhor ator para Matthew McConaughey e a de ator coadjuvante para Jared Leto. Após receber o diagnóstico, Woodroof descobre que tem apenas um mês de vida. Para conseguir o tratamento que mudará esse quadro, ele passa a adquirir a droga ilegalmente. Depois, ele se alia ao personagem de Leto, um travesti, em um esquema de contrabando. A produção está prevista para 21 de fevereiro no Brasil. 

‘Ela’

O filme dirigido e escrito por Spike Jonze conta a inusitada história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um escritor solitário que se apaixona pelo sistema operacional de seu smartphone, cuja voz é a de Scarlett Johansson. O aparelho apresenta uma interface interativa a partir de uma voz feminina que se apresenta como Samantha (inspirada em Siri, do iPhone). O longa saiu vencedor na categoria de melhor roteiro no Globo de Ouro, onde também foi indicado a melhor comédia ou musical. No Oscar, a produção foi lembrada em outras quatro categorias, incluindo a de direção de arte e de roteiro original. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 14 de fevereiro.

‘Nebraska’

O longa dirigido por Alexander Payne conta a história de Woody Grant (Bruce Dern), um ex-alcoólatra que decide ir do Estado americano de Montana até o de Nebraska a pé com seu filho David (Will Forte) para exigir um prêmio de 1 milhão de dólares que acredita ter ganhado após receber uma propaganda publicitária pelo correio. O filme foi indicado ao prêmio de melhor comédia ou musical no Globo de Ouro e foi lembrado também em premiações como o Bafta e a organizada pelo American Film Institute. No Oscar, Nebraska foi indicado em outras cinco categorias, incluindo a de direção e a de melhor ator para Bruce Dern. No Brasil, o longa tem estreia prevista para 31 de janeiro.