Em ‘Feito na América’, a absurda história de Barry Seal

O diretor Doug Liman fala sobre o filme estrelado por Tom Cruise sobre um piloto que trabalhou ao mesmo tempo para o governo americano e Pablo Escobar

O diretor Doug Liman tinha várias razões para rodar Feito na América, a história de Barry Seal, o piloto de aviação comercial que foi recrutado pela CIA para fotografar campos de treinamento esquerdistas na América Central e se viu envolvido no escândalo Irã-Contras, que quase derrubou o presidente Ronald Reagan. Seu pai, Arthur L. Liman, foi o investigador especial do caso Irã-Contras, que estabeleceu que o governo americano havia vendido armas ao Irã e usado o lucro para financiar os Contras, que combatiam o governo Sandinista, de esquerda. Ao mesmo tempo, Seal trabalhava para o Cartel de Medellín, contrabandeando cocaína nos voos de volta para os Estados Unidos.

Para interpretar Barry Seal, Liman não viu ninguém melhor do que Tom Cruise, que volta a fazer um anti-herói como aqueles do início da carreira. O uruguaio radicado no Brasil César Charlone ficou responsável pela fotografia e foi peça fundamental para dar uma visão menos americanizada da história, segundo o próprio diretor. Ele falou a VEJA:

 

Por que se interessou por esta história? O produtor Brian Grazer me mandou o roteiro. Ele é um dos principais produtores de Hollywood e tem um gosto impecável. Quando ele manda um roteiro, algo que nunca tinha acontecido antes na minha carreira, você para e presta atenção. Me apaixonei pelo personagem Barry Seal. Ele quebra regras de maneira irreverente e com um avião. Eu sou piloto e gosto de pensar que quebro regras. Gosto de anti-heróis. Eu vivi os anos 1980, mas tenho distanciamento para ver que eram tempos extraordinários, selvagens, em que correr atrás da oportunidade sem se importar com as consequências era normal. E foi o último momento em que as pessoas podiam escapar de ser pêgas em situações assim. A forma como ele pilotava não pode ser repetida hoje. Ele era o FedEx do submundo. Naquela época, era o Velho Oeste da aviação. Fora que, com 24 horas de notícias por dia, o governo federal não pode esconder essas coisas.

Seu pai teve participação nesta história, certo? Meu pai liderou a investigação. Eu sabia dos eventos em primeira mão. Mas eles conseguiram atuar por cinco anos antes de serem pêgos. Hoje em dia, não seria possível. Tom Cruise e eu conversamos muito sobre o ethos de Barry Seal. Ele via a oportunidade que se apresentava – com a CIA, depois o cartel – como se encontrasse uma nota de cem dólares na rua. Você precisa pegar, ou outra pessoa vai se apoderar .

Doug Liman

O diretor de cinema Doug Liman, do ótimo ‘Feito na América’ (Jim Spellman/WireImage/Getty Images)

Por que a história é contada com humor? Gary Spinelli, o roteirista, é bem-humorado. Mas quis destacar mais esse aspecto. A CIA colocou o Barry Seal em uma pequena cidade, como se ninguém fosse perceber os contras treinando no seu quintal. Quando meu pai estava investigando, levava super a sério, porque envolvia o possível impeachment de um presidente muito popular. Mas ele sempre viu os detalhes com muito senso de humor. Não tinha como não ver essa história com um filtro cômico. Muitas coisas ridículas acontecem por serem segredo. E continuam segredo porque não querem que o ridículo seja exposto.

Tom Cruise não tem feito muitos anti-heróis. Por que achou que era o ator certo? Tom Cruise tornou-se um astro com filmes que não eram de ação. Sua carreira é tão longa que se pensa nele como o cara do Missão: Impossível. Mas ele ficou famoso com produções como Negócio Arriscado, Jerry Maguire. Só ultimamente que ele tem impedido os vilões de fazer o mal. Ao longo de sua carreira ele demonstrou que não apenas é um ator extraordinário, mas um comediante extraordinário. Meu desejo de trabalhar com o Tom tinha a ver com o personagem estar envolvido com aviação, e Tom ser piloto. Assim teria a oportunidade de retratar a aviação de uma maneira inédita no cinema. Além disso, é um ator destemido, sempre disposto a desafiar a marca Tom Cruise. E eu gosto de ser do contra. Quando fizemos as sessões-teste, ninguém ficou mais empolgado que ele ao ler nos cartões de reação as palavras pouco elogiosas descrevendo Barry Seal. Por exemplo, ao ler “desonesto”, ele abria um sorriso. Porque os espectadores amam o personagem mesmo assim.

 

Feito na América

(Universal/Divulgação)

E como chegou ao César Charlone para diretor de fotografia? Só tem um Tom Cruise. E só tem um César. Quando você, um cineasta americano, toma a decisão de contratar o César, não existe plano B. Não tem ninguém como ele no planeta, com seu olhar e seu estilo de fotografia, tão íntima. E suas composições e suas cores são tão artísticas. Feito na América, apesar de ser uma história real, também era para ser uma aventura extraordinária a outro mundo, como Alice Através do Espelho. Sua fotografia é transformadora. Também foi importante ele ser da América do Sul. Eu sou da América do Norte. E o filme é sobre a relação da América do Norte com a América do Sul. O diretor de fotografia é o parceiro do cineasta. Eu queria um parceiro sul-americano para a história ser equilibrada. E César, com certeza, interpretou esse papel. Ele foi muito direto ao expressar o que certas coisas pareciam aos olhos sul-americanos. E eu cresci muito não apenas como cineasta, mas como ser humano.

O ator Tom Cruise e o diretor Doug Liman em gravação do filme ‘Feito na América ‘ (//Divulgação)

Lembra de algo específico? No roteiro original, Pablo Escobar era um fazendeiro simples. E César achou muito arrogante que um americano ajudasse a construir o negócio dos colombianos. Apesar de eu conhecer a história muito bem, César tinha um foco mais preciso. Personagens que poderiam parecer vilões, para mim, eram vistos de outra maneira por ele.