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Cannes: ‘Wonderstruck’ tenta maravilhar, mas não consegue

Filme de Todd Haynes, diretor de ‘Carol’, é belo visualmente, mas demora demais para revelar o mistério que liga a história dos protagonistas

Da última vez que Todd Haynes esteve na competição do Festival de Cannes, foi dois anos atrás com Carol, um romance entre duas mulheres, interpretadas por Cate Blanchett e Rooney Mara, nos anos 1950. Wonderstruck (que pode ser traduzido como “assombrado” ou “maravilhado”), na disputa pela Palma de Ouro, não se parece em nada com seu filme anterior, a não ser pelo fato de, novamente, se passar num outro período histórico. Baseado em Sem Fôlego, livro de Brian Selznick — autor também de A Invenção de Hugo Cabret, filmado por Martin Scorsese, e neto de David O. Selznick, produtor e …E o Vento Levou —, o filme tem como protagonistas duas crianças de épocas diferentes.

Em 1977, Ben (Oakes Fegley) acaba de perder sua mãe, Elaine (Michelle Williams), que nunca lhe contou quem era seu pai, apesar da insistência do menino. Depois de um acidente que o deixa surdo, Ben resolve ir atrás do pai em Nova York. Paralelamente, há a história de Rose (Millicent Simmonds), uma menina surda obcecada pela atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore) em Nova Jersey, em 1927, contada em preto e branco e quase sem palavras.

“Não tinha feito parecido antes, com foco na imaginação das crianças”, disse Haynes na coletiva de imprensa após a sessão de imprensa. “E tudo foi construído como uma história de mistério. Por que as duas histórias estão sendo contadas?”, completou o diretor.

Mas a verdade é que o mistério demora demais para ser desvendado, e o filme se perde nas idas e vindas entre as duas épocas e no excesso de temas e detalhes. Até funciona ao traduzir para a tela a maravilha da imaginação infantil, que é mais alimentada quando não depende de YouTube e outras tecnologias da vida moderna. Como nos trabalhos anteriores de Todd Haynes, Wonderstruck também é uma homenagem ao cinema do passado, com resultados menos satisfatórios do que em filmes como Carol e Longe do Paraíso (2003), apesar da sempre bela fotografia de Ed Lachman. “Há muitas razões pelas quais o passado me motiva”, afirmou Haynes. “Ele me força a olhar para a história do cinema.”

O diretor também destacou que o filme é um tributo ao que se faz com suas mãos ou dedos, desde a linguagem de sinais, fascinação com história natural, maquetes. Ben coleciona de tudo e transforma seu quarto em um minimuseu. Suas aventuras em Nova York o levam ao Museu de História Natural, onde depara com dioramas de animais diversos. Rose, por sua vez, constrói maquetes de Nova York, que está logo ali, do outro lado do rio.

Haynes disse que foi fundamental encontrar a garota certa para fazer Rose. Millicent Simmonds, que fala com a linguagem de sinais, faz sua estreia no cinema. “Minha mãe me acordava muito cedo para trabalhar no roteiro”, disse a atriz, com a ajuda de uma tradutora. “Eu queria ficar lendo a história, mas aí me obrigava a trabalhar nas cenas do dia. Jamais imaginei que minha vida me traria aqui e quero muito agradecer a todos.” Para Michelle Williams, o segredo de trabalhar com crianças – ou lidar com elas – é ouvir. “O importante é ouvir e responder de acordo com quem são, não com quem você gostaria que fossem”, disse a atriz, que é mãe de Matilda.

Julianne Moore agradeceu o privilégio de poder trabalhar com Todd Haynes pela quarta vez, depois de A Salvo (1995), Longe do Paraíso e Não Estou Lá (2007). “É um gênio. Não preciso fazer nada porque ele já pensou em tudo, fotografia, figurino, direção de arte. Só preciso entrar nesse mundo.” O diretor retribuiu, chamando a atriz de sua “alma gêmea”.

Polêmica da Netflix

Haynes também opinou sobre a polêmica envolvendo a Netflix, que tem dois longas-metragens na competição do 70º Festival de Cannes, apesar de não exibi-los nos cinemas nem respeitar a janela de três anos entre a tela grande e o streaming, como manda a legislação francesa. Wonderstruck é produzido pela Amazon Studios, que trabalha de maneira diferente: os longas sempre são lançados no cinema antes, como foi o caso de Manchester à Beira Mar e A Criada, entre outros. “Sei que a Amazon Studios não está incluída nessa polêmica. Lá, eles amam o cinema e querem dar oportunidades para os cineastas”, disse.