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Às vésperas de fazer 80 anos, Ferreira Gullar prepara livro e peça

“A poesia nasce do espanto. Nasce quando eu estou na sala, me levanto para atender ao telefone e o osso do fêmur bate no da bacia. Eu desligo o telefone e penso, mas que é isso, um osso batendo dentro de mim?”

Com a morte do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e do pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), a coroa da poesia nacional voou, sem escalas, para a cabeça do maranhense Ferreira Gullar – posição reforçada pela recente conquista do Prêmio Camões, principal distinção dada a escritores de língua portuguesa. Ainda que pouco afeito a vestes institucionais, ele não teve como evitá-lo, e assumiu com consciência a responsabilidade. “É por isso que eu publico pouco. Não posso escrever besteira.” O que o poeta fala se explica em números. No mês em que completa 80 anos, setembro próximo, ele lança pela José Olympio, editora que detém a exclusividade da sua poesia, Em Alguma Parte Alguma. Será seu primeiro livro após Muitas Vozes, de 1999, que por sua vez chegou 12 anos depois de seu antecessor, Barulhos. Mas o livro não vem sozinho. Chega acompanhado da peça O Homem como Invenção de si Mesmo, que marca o retorno de Gullar ao gênero teatral após 30 anos, e deve entrar em cartaz em São Paulo ainda em 2010. Foi sobre a peça, o livro – de que leu dois poemas com exclusividade a VEJA.com-, a política e a vida que o poeta falou na entrevista a seguir.

Qual o tema principal de Em Alguma Parte Alguma?

O livro tem três partes sem nome, que podem ser separadas pelo conteúdo. Uma delas fala do cosmos, do problema da galáxia e da Terra e da vida e da luz, uma série de coisas. Outra tem poemas mais ligados ao meu livro anterior, como um sobre (José Maria) Rilke e a morte, que é um texto longo. A terceira parte tem um jogo entre a ordem e a desordem. Esse é um dos temas básicos do livro. Vários poemas tratam disso. A linguagem é ordem. Fora da linguagem, a emoção e a vivência são desordem, porque ainda não estão organizadas em linguagem. A poesia se realiza num jogo dialético entre a ordem e a desordem. O título do poema que abre o livro já diz tudo, Fica o não dito por dito. Não tem a expressão “Fica o dito por não dito”? O título do poema é o contrário. Porque a poesia a gente não consegue dizer, o poeta tenta dizer o que não é possível. Então, faz de conta que eu disse (risos).

. Ouça o poema Acidente na sala, lido por Ferreira Gullar

. Ouça o poema Offprice, lido por Ferreira Gullar

E a peça O Homem como Invenção de si Mesmo, do que trata?

Essa peça (risos) é uma teoria (ele diz “tioria”). Eu, ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que a vida é uma coisa inventada. Que nós inventamos a nossa vida e nos inventamos. Cada pessoa se inventa. O cara se inventa poeta, se inventa pintor, se inventa músico, se inventa como qualquer pessoa comum do mundo, porque, quando nascemos, não somos ninguém, não temos nem nome. É a cultura que vai nos formando, e a sociedade toda é uma invenção, uma coisa criada. Os valores, a religião, a ciência são coisas inventadas, não são coisas da natureza. Nós somos natureza, nosso corpo é natureza, mas nós vivemos no mundo da cultura. São valores que nos constituem. Como não sou filósofo, não iria escrever um tratado para mostrar minha teoria, entendeu? Então, resolvi escrever uma peça, um monólogo engraçado em que essa teoria é exposta.

O senhor tem algum ator em mente para o papel?

Não. Não sou eu que estou fazendo a montagem. O Robson Phoenix, o diretor, é que vai escolher o ator e produzir a peça.

Segundo a sua teoria, todo mundo se inventa. Por que, então, há quem queira se inventar poeta e não consiga?

(Risos.) Todo mundo se inventa, mas não é gratuito. É preciso ter as qualidades para o papel que nos inventamos. Se o cara se inventa filósofo, é porque quer e porque descobre dentro dele que é capaz de ser isso. É uma mistura de acaso e de vontade, mas também de necessidade. Isso é um aspecto. O outro aspecto é o seguinte: a invenção que você quer fazer de você mesmo tem que ter o reconhecimento do outro. Se você diz que é músico, mas o que compõe não é bom, você não consegue se inventar como músico.

O senhor alguma vez teve medo de não conseguir se inventar poeta?

Não. Cada pessoa, cada personagem tem um modo de se conceber e de se inventar. Eu confesso a você que nunca planejei ser poeta. Eu fui descobrindo que podia ser isso aos poucos. Na escola, quando fiz uma redação que a professora achou legal, descobri que podia ser escritor. Aí, comecei a ler gramática, porque precisava saber escrever corretamente. Eu fui me preparando, certo de que eu ia ter de batalhar muito para fazer uma boa poesia. Eu queria fazer o melhor possível.

O senhor procurou a opinião de poetas mais experientes?

Não. Eu tive mestres como Rilke, um dos poetas que me revelaram o que deve ser a poesia. Meus mestres foram Rilke, Drummond, Murilo Mendes, Rimbaud, Mallarmé, Jorge Luís Borges.

É curioso o senhor citar Borges, porque ele tem um posicionamento político diferente do seu. Isso significa que o senhor separa as coisas.

Ah, é evidente, imagina… Não tem nada que ver. Ele é um extraordinário escritor. Agora, tem de entender melhor o Borges também, porque o pessoal tem mania de botar as pessoas em categorias: esquerda, direita, revolucionário, reacionário. Isso eu vejo hoje com certa reserva. O que importa é que Borges era um baita de um escritor, um homem de uma riqueza imaginária, uma poética extraordinária. Estou pouco ligando se ele era de direita ou de esquerda.

E, atualmente, a oposição direita x esquerda parece ter perdido o sentido.

Pois é. Imagina, o (Hugo) Chávez é de esquerda, mas o ídolo dele é o (Mahmoud) Ahmadinejad (governante do Irã). O Lula é de esquerda, mas vive de braço dado com o Ahmadinejad, também. Aquilo ali é uma ditadura teocrática, uma das coisas mais reacionárias do mundo. As coisas são complexas. O erro é querer definir tudo com essas expressões – direita, esquerda -, porque são esquemáticas e não levam em conta a riqueza e a complexidade da vida real.

Como o senhor define a sua posição política hoje?

Sou uma pessoa a favor da democracia e querendo que o seu país se torne cada dia mais uma sociedade menos injusta e menos desigual. Que nome isso tem não me interessa. Eu não me considero marxista. Acho que o marxismo foi uma visão de mundo muito importante durante o século XIX. Ali, ele foi de fato necessário. As pessoas com senso de justiça tinham de se revoltar contra um capitalismo selvagem, em que as pessoas não tinham direito a nada, em que as crianças eram retiradas dos orfanatos e transformadas em verdadeiros escravos dentro das fábricas. E o cara envelhecia trabalhando e morria na sarjeta, porque não existia aposentadoria. E o expediente de trabalho podia ter 12, 13, 15 horas. O marxismo contribuiu para acabar com isso, e ajudou a classe operária a conquistar a jornada de trabalho de 8 horas, a aposentadoria e os direitos. Isso é uma coisa. Agora, a sociedade futura com a ditadura do proletariado está furada.

O poeta Ferreira Gullar (foto: Cintia Sanchez/Divulgação)

O poeta Ferreira Gullar (foto: Cintia Sanchez/Divulgação) (VEJA)

O senhor é amigo do José Sarney. Vocês chegaram a conversar por ocasião dos escândalos do Senado, quando ele quase caiu?

Eu sou amigo de juventude de José Sarney. Fizemos revistas literárias em São Luís do Maranhão, ele fazia uma e eu, outra, com outro amigo. Mantivemos a amizade, mas raramente conversamos. Nossa relação é assim: ele publica um livro e me manda, eu dou opinião, trocamos ideias e cartas. Eu não vou me meter em questão política. Mas reconheço que o Sarney fez uma porção de coisas. Acho que o pessoal demoniza o Sarney. Tenho que admitir que o Sarney salvou São Luís. Mesmo com o crescimento da economia em torno, a cidade, que é colonial, teve seu casario preservado.

Por falar em São Luís, de que maneira a cidade ecoa na sua poesia?

São Luís está presente em tudo. Eu sou produto, sou filho de São Luís. Na minha poesia, na minha voz e no meu sangue correm as coisas da cidade. O rumor das copas, a luz grossa das manhãs de São Luís, tudo o que eu vivi lá. Eu tenho um livro chamado Muitas Vozes, em que tem um poema de mesmo nome. Eu estou cheio dessas vozes. Se eu não tivesse nascido em São Luís, eu seria outra pessoa.

Alguns autores dizem que escrever é um processo doloroso. Para o senhor, também dói? Isso é mentira. Não é doloroso. Eu escrevo por prazer, ninguém me manda escrever. Muitas vezes, escrevo uma coisa a partir de uma dor muito grande. Mas não é o escrever que provoca a dor. Pelo contrário. No momento em que eu transformo aquilo em poesia, eu estou realizando a alquimia que transforma a dor em alegria estética. É o contrário. (T. S.) Eliott, o grande poeta anglo-americano, diz, “Eu escrevo para me livrar da emoção”.

É uma forma de catarse? De algum modo, é. Mas eu escrevo porque a vida é pouca. Escrevo para criar beleza, para dar à vida algo que ela não tem. Algo de que naquele momento ela está carente. É por isso que a gente escreve. E não adianta eu ter escrito o Poema Sujo anteontem. Eu estou triste agora e preciso escrever outro poema porque o Poema Sujo já está escrito. Não me socorre mais. Neste ponto de vista de reinventar a vida, ele já era. Ele me ajudou a reinventar a vida em Buenos Aires, em 1975 (quando Gullar estava no exílio). Do ponto de vista do autor, acabou, passou. O que me socorre agora é o novo, o que vai nascer agora. O que me socorre é o processo da escrita.

Como nascem os poemas?

A poesia nasce do espanto. Nasce quando eu estou na sala, me levanto para atender ao telefone e o osso do fêmur bate no da bacia. Eu desligo o telefone e penso, mas que é isso, um osso batendo dentro de mim? É assim que nasce um poema. Aliás, nasceu, está no novo livro. O poema se chama Acidente na sala.

Depois do Prêmio Camões, cresceu o interesse da Academia Brasileira de Letras (ABL) de tê-lo entre seus membros. O senhor pensa em se candidatar?

Eu tenho amigos na academia e freqüentemente esse ou aquele vivo fala para eu me candidatar. Eu não sei o que dizer, é complicado, porque ficar dizendo “não” é chato. Mas o que eu posso falar? Eu não tenho o desejo de ser imortal. Certas pessoas, como eu, não têm um espírito institucional, uma vontade de pertencer a instituições.

E o senhor deseja se tornar um imortal dentro da cultura brasileira?

(Risos.) Eu, pessoalmente, acho que o sentido da vida é outro. O outro. Nós vivemos para o outro, e fazemos as coisas para o outro. É ele que carrega no colo o que nós possivelmente cheguemos a criar. Se a minha poesia toca as pessoas, elas vão guardá-la, preservá-la e passá-la adiante. Se ela não comunica, não comove, ela desaparece. Entendeu? Eu vou desaparecer. Na hora em que morrer, eu nunca existi. Shakespeare, Drummond, eles existiram, e hoje existem para nós. Somos nós que os carregamos e de certo modo damos vida a eles. Eles vivem em nós, através de nós, que assistimos às suas peças e lemos os seus poemas. Eu tenho um poema que diz assim, “Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos”, porque estava na praia e me lembrei do meu filho, que ficava passeando na areia. Mas ele estava ali, dentro de mim. Então, pensei que ele estivesse vendo através de mim. (Marcos, seu filho mais novo, morreu em 1990.)

Você teve uma sensação semelhante quando escreveu o poema Morte de Clarice Lispector?

Eu tinha acabado de saber da notícia e tinha um compromisso em São Paulo, precisava passar de táxi na casa de uma pessoa, para pegá-la, e ir ao aeroporto. Era uma manhã linda, iluminada, as árvores balançavam na brisa. E ela tinha acabado de morrer. Então, era uma coisa assim, a natureza estava se lixando (risos). Mas a vida é isso mesmo, e ela estava viva em mim, eu estava carregando ela comigo ali, naquele momento.

Morte de Clarice Lispector

Enquanto te enterravam no cemitério judeu do Caju

(e o clarão de teu olhar soterrado resistindo ainda)

o táxi corria comigo à borda da Lagoa

na direção de Botafogo

as pedras e as nuvens e as árvores

no vento

mostravam alegremente

que não dependem de nós