Aguinaldo Silva, o demolidor do politicamente correto na TV

O autor tacha de censura disfarçada a patrulha dos movimentos sociais e garante que em 'Fina Estampa' não haverá beijo gay porque 'o público não aguenta mais viado em novela'

“Tem um grupo gay da Bahia que diz que eu sou o inimigo número um dos homossexuais. Dizem que nas minhas novelas os homossexuais são estereotipados. Essas entidades são todas um saco, todas elas tem interesses econômicos, vivem à custa do governo ou daquelas empresas alemães que por má consciência financiam qualquer coisa. Se você bota hoje em dia uma bandida disfarçada de enfermeira, trinta sindicatos de enfermagem espalhados pelo Brasil te processam. Aí você tem que se preocupar com a audiência em Rondônia, em Tocantins… E não dá, porque você ainda tem uma novela para escrever”

A duas semanas da estreia de ‘Fina Estampa’, Aguinaldo Silva recebeu o site de VEJA em sua casa com um aviso: nos próximos meses, ficará em prisão domiciliar. “Quando eu estava escrevendo ‘Duas Caras’, só saí de casa duas vezes em oito meses. Durante o período de uma novela eu fico escravizado, encarcerado na minha própria casa.”

Nessa fase reclusa, em que escreve 35 páginas por dia, Aguinaldo não gosta de dar entrevistas, nem tem paciência para conversar com atores. “Eu não atendo telefonemas de atores. Imagina ter que dar atenção a 60 pessoas do elenco. Isso é tarefa do diretor”, diz.

Aguinaldo fez jus à fama de sua língua ferina. Recriminou Gilberto Braga por reclamar do trabalho de escrever novelas e afirmou que Manoel Carlos não é popular. Nas críticas, sobra para cantoras de MPB e para os telespectadores, de cuja capacidade intelectual duvida: “está cada vez mais bolsa-família”.

O dramaturgo sabe que tal qual o tema de central de Fina Estampa, a vida real é regida pelas aparências. Por isso criou esse personagem para si mesmo. O Aguinaldo Silva polêmico nada mais é do que um grande divulgador de suas novelas. “Um mês antes estrear só se fala em Fina Estampa. Novela precisa de divulgação para as pessoas se interessarem em ver. Então eu uso os meus veículos na internet para divulgar, porque ninguém faz isso melhor do que eu”, gaba-se.

Em meio a sua coleção de arte, com obras do período entre 1870 e 1930, Aguinaldo não esquece, é claro, de “deixar escapar” algumas novidades de Fina Estampa.

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Por que existem tão poucos autores de novela? Não há muitos autores, principalmente nas novelas das nove, por uma simples razão. É muito difícil. Não é fácil escrever 35 páginas por dia. Você não pode acordar e achar que não está inspirado e deixar para amanhã. Tem que escrever todo dia e bem. Senão o público percebe que o capítulo está pior. Tem que ter muita disciplina. Eu acho o Geraldinho Carneiro talentosíssimo, mas outro dia brinquei dizendo que é fácil ser um gênio da literatura como o Geraldo Carneiro, difícil é ser novelista das nove.

O dramaturgo Gilberto Braga

O dramaturgo Gilberto Braga (VEJA)

Cansa ser autor de novela das nove? Eu não entendo autores como o Gilberto Braga que reclamam e dizem que não aguentam mais escrever novela. Por que escrevem, então? Já estão cheios de dinheiro. Escrever novela é a melhor coisa da minha vida. É quando mais me divirto. Mas é realmente cansativo. Quando eu estava escrevendo Duas Caras, só saí de casa duas vezes em oito meses. Durante o período de uma novela eu fico escravizado, encarcerado na minha própria casa. Nem jantar fora eu jantava. O máximo que fazia era chamar uns amigos para jantar aqui em casa.

Nesse período sua vida social acaba. Você nem namora? Há oito anos que eu não durmo com ninguém. Digo, dormir de verdade. Tive uma pessoa por 18 anos e depois outra por sete, mas depois cansei. Gosto de dormir sozinho, atravessado numa cama de casal só para mim. Durante esse tempo todo tive poucos namoricos.

Você se considera o principal novelista da Globo? Não. Nós, que escrevemos as novelas das nove, nos equiparamos. Mas eu sou o mais agitador e por isso apareço mais. Eu não faço só novela. Ao contrário dos outros, que acham que autor não tem que aparecer, eu acho que tenho que vender o meu peixe e a única maneira de vendê-lo é o expondo na bancada. Neste momento eu sou o autor mais conhecido. Talvez o único que saia na rua e as pessoas reconheçam facilmente porque eu apareço muito. Meus colegas dizem que eu apareço demais.

Mas você é o único novelista da Rede Globo que só escreveu novela das nove. Isso é uma imposição contratual sua? Essa característica de ser o único autor que só fez novelas das nove eu vou manter a qualquer preço porque possivelmente isso vai entrar para a história da televisão brasileira. Existe um acordo informal entre mim e a Globo: eu digo para eles que só sei escrever novela das nove. Isso mata qualquer proposta diferente. Isso significa que se mandarem fazer novela de outro horário eu vou fazer mal feito. Eu não saberia fazer novela das sete, sinceramente. Para mim esse horário é o mais difícil de todos, porque pega um publico que varia muito, hoje é um amanhã é outro.

A cantora Zélia Duncan

A cantora Zélia Duncan (VEJA)

Das 12 novelas de maior audiência na tevê, cinco são suas. Existe algum segredo para uma novela alcançar o sucesso? A coisa mais importante de uma novela é a escalação. Os bastidores de uma novela são complicados. São dezenas de pessoas convivendo muitas horas por dia, durante vários meses e às vezes cria-se um ambiente de hostilidade entre alguns e aquilo se espalha, se transforma num saco de gatos. Um outro momento delicado é a escolha da trilha sonora. As novelas já tiveram grandes trilhas, mas agora ninguém sabe os temas das novelas. Qual é o tema de Insensato Coração? De Vale Tudo, de 1988, você sabe, que é a música do Cazuza. Trilha sonora atrai público e identifica a novela. Qualquer pessoa que escuta “Brasil mostra a tua cara” lembra de Vale Tudo. Eu acho que uma novela com pegada popular como Fina Estampa, tem que ter uma trilha muito popular. Dessa vez eu estou me intrometendo mais nisso. Se eu puder vou ousar e colocar o Zeca Pagodinho para cantar o tema. Ele fez um samba para Griselda que é uma coisa espetacular. É daquele que você ouve e sai cantando na mesma hora e durante seis meses você vai cantar e não vai enjoar. Por isso estou em campanha pelo Zeca Pagodinho. Mas eles insistem muito nas Marias Ritas, Anas Carolinas, Zélias Duncans, e são todas muito iguais. Essa repetição das trilhas afasta público.

O que mais afasta o público das novelas? O povo não aguenta mais viado em novela. Chega! Tem muito. Tem novela que tem seis viados. As pessoas não aguentam mais isso. E geralmente os gays são todos iguais. São cópias dos héteros, querem casar, ter romance, engravidar e parir um filho nove meses depois. São gays chatos. Outra coisa que está cansando o público é o vilão desenfreado, que faz maldade sem nenhuma justificativa. Faz por fazer. Não é nem psicopata. O bom vilão tem que ser meio canastrão. Tem uma vila que eu adoro, que é a Nazareth Tedesco (personagem de Renata Sorrah em Senhora do Destino), que era engraçadíssima porque tudo que ela fazia dava errado. Eu me inspirei muito no Tom do desenho animado, que tenta há anos tenta matar o Jerry e sempre se dá mal.

Mas em Fina Estampa não vai ter um gay? Tem um só, que é o Crodoaldo Valério, que quem está fazendo é o Marcelo Serrado. Eu fiz questão que fosse um ator hétero porque eu acho que ele vai me surpreender. Antes da novela estrear, já tem gay entrando no meu portal e escrevendo que não viu e não gostou porque eu criei um homossexual estereotipado. Como eu falei antes, acho ridículo tratar o gay como um personagem padrão. Eles tem seus códigos, seu universo. São pessoas diferentes. A graça desse personagem é que ele tem uma paixão devastadora pela Teresa Cristina (Cristiane Torloni), que o trata miseravelmente mal. Alguns gays têm essa mania de venerar as mulheres que o maltratam. Eu queria mostrar esse tipo de gay. As pessoas vão odiá-lo porque vai fazer mil maldades em nome dela, porque ele adora aquela mulher que é um horror, ela é péssima.

Na sua novela não terá o tão esperado beijo gay? Eu estou começando a ficar irritado com essa coisa do beijo gay. Acho que tem uma torcida para que não aconteça, para que o assunto continue durando, mas as pessoas não aguentam esse assunto e se depender de mim ele acabou. A novidade é essa: não vai ter beijo gay em Fina Estampa, pode escrever. Não tem lugar no mundo em que os gays sejam mais ousados do que no Brasil. Aqui os gays não respeitam as fronteiras. Eles chegam no hétero e cantam mesmo, e se colar, colou. Porém, existe essa hipocrisia de você não poder mostrar um beijo gay na televisão. Por debaixo do pano vale tudo, mas publicamente é essa coisa hipócrita. A sociedade brasileira é assim e a tevê não quer correr o risco de perder o público.

Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) assumem romance na novela Insensato Coração

Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo) assumem romance na novela Insensato Coração (VEJA)

A TV Globo foi criticada pelo movimento gay por ter arrefecido o romance entre Eduardo e Hugo em Insensato Coração, Milton Gonçalves foi cobrado pelo movimento negro por ter aceitado um papel de vilão. Como você encara a reação desses grupos? Tem um grupo gay da Bahia que diz que eu sou o inimigo número um dos homossexuais. Dizem que nas minhas novelas os homossexuais são estereotipados. Essas entidades são todas um saco, todas elas tem interesses econômicos, vivem à custa do governo ou daquelas empresas alemães que por má consciência financiam qualquer coisa. Claro que existem negros bandidos como existem brancos bandidos. A cor dos personagens não devia importar para essas entidades. Eles deviam combater as diferenças, mas para eles interessa grifar as diferenças. Se você bota hoje em dia uma bandida disfarçada de enfermeira, trinta sindicatos de enfermagem espalhados pelo Brasil te processam. Aí você tem que se preocupar com a audiência em Rondônia, em Tocantins… E não dá, porque você ainda tem uma novela para escrever.

Como considera que autores e emissora devem reagir a isso? Você não pode ser suicida. Essas pessoas às vezes conseguem por influência política crucificar você. Elas querem notoriedade, a indignação é real ou elas apenas querem tirar proveito? Então, você tem que saber a hora de parar com as polêmicas. Eu sei que tenho que parar quando as pessoas na rua começam a dar razão ao outro lado.

Isso é um tipo de censura? Dizem que não existe censura no Brasil, mas nós vivemos em constante ameaça por causa dessa coisa de classificação etária. Essa turma da “não censura” é toda jovem e devia ter a cabeça mais arejada, mas não têm. Eu tive que explodir um bar em 24 horas em Duas Caras, porque se não a novela teria que passar para as onze horas da noite. Às dez da noite o Wolf me ligou dizendo que no dia seguinte tinha que gravar o fim do bar. Eu fiquei desesperado até que eu tive a idéia do atentado. Inventei a personagem do sufocador, que é, na verdade, essa turma da “não censura”.

O que você tem contra o merchandising social? É mentira dizer que em novela do Aguinaldo Silva não existe merchandising social. Se na minha trama é importante que alguém ande de cadeira de rodas para contar uma história, o personagem vale. Agora se for mostrar um personagem sem perna só para mostrar como é a vida de um cadeirante é forçado. Novela é folhetim, é melodrama, eu faço quando é contextual. Uma vez eu passei na maternidade Leila Diniz às nove da manhã e tinha uma fila enorme de gestantes. 70% eram meninas de 15 anos Na hora eu pensei que tinha que colocar aquilo em uma novela, mas tinha que criar uma trama. Foi aí que eu criei a história da Daiane, em Senhora do Destino. As pessoas adoravam porque era uma historia verdadeira. Eu acho que o merchandising social, como o comercial, tem que ser muito bem inserido na trama senão fica ridículo.

O merchandising comercial atrapalha muito o autor? Tem um merchandising no primeiro capítulo de Fina Estampa. Não foi escrito para isso, é uma seqüência em que o personagem do Dalton Vigh vai buscar o carro de presente para a filha, o pneu fura e ele conhece a Griselda (Lilia Cabral). Isso era uma ação da novela, que quando os caras de uma montadora descobriram resolveram comprar. Mas nem vai parecer merchandising. É difícil você não deixar passar o ruído do merchandising, às vezes fica feio. Mas eu gosto pelo desafio. E pela grana, é claro. (Risos)

Salomão Hayala nas duas versões de 'O Astro'

Salomão Hayala nas duas versões de ‘O Astro’ (VEJA)

O que você pessoalmente não gosta em novelas? Eu odeio o “Quem matou”. Acho falta de imaginação. Quando o autor não tem mais nenhum recurso, usa o “Quem matou”. Eu odeio, mas o público continua embarcando. Ainda funciona. Agora a gente vai ver isso tudo de novo em O Astro. Esse é o “Quem matou” clássico. Tudo que foi feito depois nesse sentido foi pior que o original. Em Vale Tudo foi rápido. Foram apenas duas semanas de suspense. Não foi uma pergunta que se arrastou por seis meses para o público especular. As pessoas não levam mais a sério essa pergunta.

A Globo tirou do YouTube cenas de O Astro e Insensato Coração. Até que ponto isso pode de fato atrapalhar a audiência? Eu, por exemplo, estava assistindo no Youtube porque alguns capítulos estavam terminando muito tarde, depois de meia-noite. Pode ser que atrapalhe. Não sei dizer ao certo. Só sei que eu prefiro que as minhas novelas apareçam no maior número de lugares possível. Acredito na divulgação. Acho que ajuda a audiência. Acho o Youtube uma coisa sensacional. Mas a decisão é da emissora.

A audiência de O Astro depois das 23 horas abre uma janela para uma quarta novela. Existe público para todas? Acho ótimo esse horário. As grandes novelas das quais se falam até hoje como Gabriela, O Bem Amado e Saramandaia, eram às dez da noite. A Janete era a novelista das oito e o Dias Gomes e outros grandes autores da época eram das dez. O público está ávido por ficção. Ninguém quer ver sobre o peixe azul da Tasmânia nem um especial sobre o matador da Noruega. A maioria das pessoas chega do trabalho cansada, ficou presa no trânsito dentro de um ônibus e aí não quer ver mais realidade. Chega! Quando o cara finalmente chega em casa quer sonhar. A dramaturgia é o que faz as pessoas sonharem, relaxarem e pensarem um pouco também. Porque, afinal, a gente não é tão alienado assim.

A Globo já declarou que o horário das 23h é destinado aos remakes. O que fará se a Globo pedir para reescrever uma trama sua? Respondo que não. Remake eu não faço. Eu odeio. Eu tenho quinhentas mil historias para contar e não vou ficar reescrevendo o que eu já escrevi. Não faz sentido.

Em que Fina Estampa será semelhante e em que será diferente de suas últimas novelas? Será a minha volta ao novelão. Fina Estampa será mais parecida com as novelas do meu início de carreira. Será bem folhetim, com melodrama rasgado.

O que você pode adiantar da novela? Uma lição que eu aprendi com a Janete Clair foi: drama trama você não economiza. Você gasta tudo e depois inventa outras. Em Fina Estampa, a Griselda já fica rica no capitulo 40, depois disso começa uma outra novela. Eu não tenho essa história de ficar enrolando por seis meses e depois sair correndo para resolver tudo. Outra história que acho que vai chamar mais atenção é a da Ester, personagem da Julia Lemmertz. Ela é uma mulher que trabalhou a vida inteira e não teve filhos, até porque o marido (Dan Stulbach) não pode ter filhos. Então ela será uma barriga de aluguel. Mesmo não gerando um filho ela vai hospedar uma criança. Ela vai alimentar, doar todos os seus fluidos, essa criança vai sair dentro dela e ser criada por ela. Então a gente pode dizer essa criança não é filha dela? Isso vai causar uma discussão muito grande numa classe de telespectadores que é cada vez mais forte, as mulheres de 50 anos.

Lilia Cabral, a Griselda de 'Fina Estampa

Lilia Cabral, a Griselda de ‘Fina Estampa (VEJA)

Suas últimas obras incluem na trama uma inversão das relações de poder, com a valorização de personagens que costumam frequentar apenas as tramas paralelas. Isso estará presente em Fina Estampa? Não sou o Manoel Carlos. Eu sou um autor popular, isso sempre aparecerá em minha obra. A Griselda é uma das mais populares que já escrevi. Nos primeiros capítulos ela aparecerá de macacão. A Lilia Cabral não usa sutiã em cena. Quando ela me disse isso eu adorei. É incrível ver uma atriz do quilate da Lilia se despir de vaidades para fazer um personagem seu.

Manoel Carlos não é um autor popular? Eu acho que as novelas do Manoel Carlos são sofisticadas demais para o nível do público atual. Houve uma evidente queda do nível intelectual do telespectador, não sei por quê. Talvez por ser hoje em dia tudo muito rápido, por falta de leitura. As novelas dele são muito bem escritas, os diálogos são adoráveis. Dá gosto de você ver, mas o grande público está ficando cada vez mais bolsa família, 50 reais e uma cerveja ali na esquina. E as novelas tem que se adaptar a isso. Descobrir um meio de ser mais popular sem perder qualidade. Ser popular sem ser popularesco é muito difícil. Pode parecer pretensioso, mas o segredo das minhas novelas são que elas parecem populares, mas são sofisticadíssimas.

No dia-a-dia você é uma pessoa popular? Eu sou uma pessoa normal. Outro dia eu peguei um ônibus. Estava parado no ponto e não passava táxi. Eu dei sinal e o ônibus parou. Quando eu entrei todos os olhares convergiram para o meu relógio (de ouro). Quando eu percebi, eu puxei a cigarra e desci no ponto seguinte antes que acontecesse uma tragédia e arrancassem minha munheca. Eu faço compras, vou ao supermercado, vou à padaria, vou ao açougue. No supermercado aqui do lado, as moças já me conhecem. As empacotadoras sempre me pediam para eu botar uma empacotadora em uma novela. Foi por isso que eu criei a personagem da Marjorie Estiano em Duas Caras. Até hoje quando eu entro lá as mulheres me aplaudem. Não foi uma empacotadora qualquer, foi a Marjorie Estiano.

Aguinaldo Silva no Twitter

Aguinaldo Silva no Twitter (VEJA)

Em suas experiências com a internet, o que tem aprendido sobre o público? Aprendi que por trás do anonimato, dos perfis fake, existem pessoas muito inteligentes doidas para se comunicar, interagir na internet. Depois que migrei para a internet passei a prestar mais a atenção na opinião das pessoas, seja dentro ou fora do mundo virtual. Em Senhora do Destino eu estava no supermercado e uma senhora me parou para falar que a Carolina Dieckman estava ficando muito chata. Só falou isso e mais nada. Era uma fase em que a personagem dela estava demorando a aceitar a mãe verdadeira. Eu vim correndo para casa e escrevi o grande encontro das duas. O que a senhora do mercado quis dizer foi que aquela trama estava demorando demais, e estava mesmo, mas eu não tinha percebido. Eu achava que aquela situação dramática poderia durar umas três semanas. Você tem que estar antenado com a opinião das pessoas. A internet faz isso.

O que mais o público quer ver na tevê, além de novelas? Ainda tem um público muito grande para os seriados. As emissoras brasileiras não vêm fazendo esse tipo de produto, mas devia fazer. É a linguagem do futuro, que vende no mundo inteiro. Se a Globo botasse um seriado entre a novela das nove e a das onze, o público ia ver. Mas seriado não são essas sitcom que as emissoras estão fazendo. Isso é ação entre amigos. Um ator, diretor e roteirista, que são amigos resolvem apresentar um projeto e aí a emissora topa. Mas não é seriado por causa disso. Seriado é Mad Man, Família Soprano, não é essa brincadeirinha que estão fazendo.