Por que o Enem errou de novo?

Para especialistas, exame sofreu grandes mudanças de forma acelerada, e seus responsáveis não se adequaram a seu gigantismo

Em 2009, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi reformulado, e o que inicialmente era uma avaliação do que os estudantes aprendiam naquele período escolar se transformou em um atalho para as universidades federais. Neste ano, por exemplo, 59 dessas instituições de ensino superior vão considerar, em alguma medida, a nota obtida pelos estudantes no Enem em seus processos seletivos. A mudança, contudo, foi acelerada demais: na visão de especialistas ouvidos por VEJA, aí estão as sementes dos erros que se sucedem no exame. Em 2009, a prova foi cancelada às vésperas de sua aplicação após ser furtada da gráfica. Um ano depois, dados sigilosos de 12 milhões de inscritos vazaram na internet. Finalmente, no último fim de semana, erros de impressão prejudicaram o desempenho dos estudantes.

“A mudança de conceito do exame foi grande, e realizada em pouco tempo, sem o devido preparo das pessoas envolvidas”, diz Álvaro Chrispino, doutor em educação e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ). “A estrutura do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pela avaliação, não cresceu na mesma proporção da importância da prova.” Para se ter ideia do que fala o professor: quando foi aplicado pela primeira vez, em 1998, o Enem contou com cerca de 157.000 inscrições. Doze anos depois, o número é quase trinta vezes maior: 4,6 milhões de candidatos.

Ernani Pimentel, presidente da Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos Públicos (Anpac), corrobora com a avaliação. “Instituições responsáveis pela elaboração e aplicação de qualquer concurso público devem ter experiência comprovada nessas tarefas: isso é fundamental para um concurso bem-sucedido”, diz Pimentel. “Os problemas ocorridos no Enem são reflexo da falta de organização e experiência da autarquia responsável pelo exame, o Inep.”

Para Maria Helena Guimarães, que presidiu o Inep durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o gigantismo do Enem propicia a ocorrência de erros, como a falha de impressão deste ano, e atos ilícitos, como o fruto do exame, no ano passado. Por isso, seria necessário multiplicar o zelo em todas as etapas da prova. “Ela se tornou algo muito valioso, objeto de desejo de muitos”, diz. A especialista prega uma reformulação em várias etapas. A começar pela impressão das provas. “O erro descoberto no sábado, mostrando incompatibilidade entre a numeração das questões dos cadernos de perguntas e de respostas, é de responsabilidade do Inep. É preciso mais rigor na confecção das provas”, afirma.

Outro ponto a ser revisto, na visão de Maria Helena, é a estratégia de aplicação da prova, que atualmente é simultânea em todo o território nacional. “O sistema de correção do Enem, baseado na teoria de resposta ao item (TRI), permite que ele seja descentralizado: ou seja, provas diferentes, com o mesmo grau de dificuldade, podem ser aplicadas em datas distintas, sem prejuízo ou benefício aos candidatos.” O sistema é utilizado em avaliações nos Estados Unidos como o SAT, espécie de vestibular americano que ocorre sete vezes ao ano em cidades e datas distintas. “Hoje, só a China tem um vestibular unificado maior do que o Enem. Esse tipo de estratégia de aplicação única não é solução para o Brasil”, diz.

A descentralização na aplicação poderia fazer do Enem um exame mais seguro. Isso porque, devido a suas dimensões, é impossível aplicar a ele medidas de segurança válidas para outros vestibulares bem-sucedidos, como Fuvest e Unicamp (a cargo da Comvest) e variados concursos a cargo da Cesgranrio.

Em sentido inverso, as etapas de formulação funcionam melhor centralizados, defendem especialistas. É novamente o caso de Fuvest, Unicamp e Cesgranrio. Nessas fundações, todo o processo de elaboração, revisão, digitação, diagramação e impressão dos testes é realizado dentro da própria instituição. “Isso aumenta o comprometimento dos profissionais envolvidos com a integridade do exame”, diz Renato Pedrosa, coordenador do processo de seleção da Unicamp. Ao que o especialista em concurso público Ricardo Ferreira acrescenta: “Quanto mais terceirização nessas fases, maiores as chances de erro ou fraude”, diz. No caso do Enem, dá-se o seguinte: o Inep formula questões, uma gráfica escolhida por licitação faz a impressão e um terceiro aplica a prova.

A cada erro nos processos do Enem, faz-se ao menos uma vítima: a educação brasileira. “Os erros que temos visto dificultam a aceitação do valor que o Enem merece. A cada novo tropeço, a imagem da prova fica comprometida perante milhões de jovens que se preparam o ano todo para fazê-la”, diz Chrispino, da FGV-RJ.

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