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Elisângela cria livro para alfabetizar índios na língua materna

Material feito por professora de Rondônia no idioma paiter suruí, falado em aldeias da região, poderá servir de inspiração para outras escolas indígenas

Uma experiência como voluntária na aldeia nabekodabadakiba, em Rondônia, foi o suficiente para que a paixão de Elisângela Dell-Armelina Suruí por lecionar se transformasse em um importante trabalho na Escola Sertanista Francisco Meireles. Nascida em Ji-Paraná, ela substituiu os livros de português, oferecidos pelo governo, por um material na língua materna dos índios da região: o paiter suruí.

O idioma, sabido pelos pequenos apenas na forma oral, era um fator que unia o aprendizado de uma sala composta de alunos do 1º ao 5º ano, onde Elisângela se esforça para dar atenção igualitária a todos. Ao alfabetizar os pequenos, no entanto, sentiu falta de um material que ensinasse a língua materna das crianças, já que os recebidos pelo governo eram em português.

“Os estudantes viam aqueles livros bonitos, mas muitas vezes não entendiam o enunciado ou não se identificavam com os textos e objetos descritos ali”, afirma. Segundo Elisângela, para os indígenas, a educação deve ocorrer primeiro na língua materna e só depois no segundo idioma.

Surgiu assim a ideia de confeccionar um caderno de escrita e atividades com textos simples em paiter suruí e figuras que pudessem ser coloridas e nomeadas. Tudo feito pelas crianças. Elisângela ainda superou a própria barreira da língua para fornecer a melhor compreensão do paiter aos seus alunos – ela vem se aperfeiçoando no idioma da aldeia ao longo dos dezesseis anos em que vive no local.

Todo o esforço da educadora fez com que o trabalho não auxiliasse apenas a Escola Sertanista Francisco Meireles, mas todas as escolas que estão localizadas em aldeias indígenas. “Como sempre há a necessidade de material para alfabetização em línguas indígenas, esse trabalho pode servir tanto para escolas que ensinam o paiter suruí como para as que têm outro idioma, servindo de referência para que os professores saibam como realizar o próprio caderno”, afirma.

Os ganhos dos pequenos índios com o estudo da própria língua estão além da descrição, atingindo habilidades de sociabilização. “Os alunos aprenderam a conversar com os outros colegas. Os maiores conseguem monitorar os alunos menores e ajudá-los nas atividades. Assim, todos se envolvem no processo”, afirma. As crianças também desenvolveram melhor a leitura, o entendimento e interpretação das atividades, até mesmo na língua portuguesa.

Elisângela Dell-Armelina Suruí

 

O resultado final foi um grande orgulho – não só para Elisângela, mas para seus alunos. “Eles se viram naquele livro. Em um dia, eles se questionavam sobre quem fazia aqueles livros bonitos que chegavam de tão longe para a escola deles e, em outro, eram os produtores do próprio conhecimento. Isso não tem preço”, afirma. Como professora, Elisângela viu concretizar-se tudo o que aprendeu durante sua formação. “Não podemos ser alguém que apenas repassa o conhecimento. Precisamos fazer o aluno procurar as próprias respostas e saber como realizar as perguntas. O professor precisa ser um transformador e trazer conhecimento ao mundo através das crianças”, diz.

Com a iniciativa, Elisângela conquistou um lugar entre os dez melhores professores do ano pelo Prêmio Educador Nota 10, promovido pelas fundações Victor Civita e Roberto Marinho. Ela também tem a chance de ser eleita Educador do Ano na cerimônia que acontece no próximo dia 30, em São Paulo.

Conheça os dez indicados


Denise Rodrigues de Oliveira
Novo Hamburgo – RS


Di Gianne de Oliveira Nunes
Lagoa da Prata – MG


Diogo Fernando dos Santos
Pindamonhangaba – SP


Gislaine Carla Waltrik
União da Vitória – PR


Luana Viegas de Pinho Portilio
Embu das Artes – SP


Rosely Marchetti Honório
São Paulo – SP

Comentários

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  1. Aparecido de Souza Lima

    E aos brasileiros natos, já miscigenados, esta deveria ser a nossa segunda língua, e não, as de conflitos.

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