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Crise é oportunidade para intercâmbio

Por Natalia Cuminale

Crise mundial, dólar instável, desemprego em alta, crédito em baixa e o principal: insegurança sobre o que irá acontecer com a economia no futuro próximo. Esses podem ser motivos mais do que suficientes para muita gente adiar, reprogramar ou até mesmo cancelar uma viagem para o exterior a fim de realizar intercâmbio estudantil ou profissional. Porém, antes de tomar qualquer decisão a respeito, é importante ponderar sobre os reais objetivos da viagem, segundo explicam especialistas ouvidos por VEJA.com. Ricardo Rocha, professor de finanças pessoais do Ibemec São Paulo, é categórico: para manter os planos em momentos de incerteza, o projeto educacional deve ser “maior do que a crise”. “Se a pessoa se planejou, tem os recursos necessários para fazer a viagem, então vá. A crise não deve cancelar esses investimentos”, aconselha. Ele lembra que a experiência no exterior pode aumentar as chances de trabalho na volta.

Rocha explica que é importante ter disciplina, fazer sacrifícios e priorizar certos gastos para alcançar o objetivo. “Se sobrou dinheiro, compre dólares e guarde. É muito difícil fazer uma projeção de quanto estará a cotação da moeda no futuro, e a chance de errar é grande”, diz. Para os mais disciplinados, o professor indica a abertura de um fundo cambial, sem o objetivo de especular e obter lucros, mas, sim, com a finalidade de proteção contra as oscilações do câmbio.

Até logo, Sydney – A turbulência econômica já provoca uma queda significativa na procura por intercâmbio, trabalhos em outras nações e até mesmo viagens para diversão. Segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), de novembro até janeiro, a procura por viagens internacionais registrou queda entre 25 e 30%. “O turismo é sempre o primeiro a sofrer impacto de uma crise, mas também é o primeiro a sair. Viajar é uma necessidade ‘psico-social'”, aposta Leonel Rossi Jr., diretor de Assuntos Internacionais da Abav. “O setor registra queda porque as pessoas estão esperando um pouco para ver o que pode acontecer na economia”, afirma Roberto Caldeira, diretor comercial da agência Experimento.

Edmilson Ferreira de Lima, de 21 anos, estudante de administração, é um dos que foram atingidos pelo receio sobre o futuro. Ele planeja aperfeiçoar o inglês e trabalhar em Sydney, na Austrália, mas já deixou a empolgação de lado e redobrou a cautela na programação do intercâmbio. “Estou fechando o meu orçamento, quero dar uma entrada um pouco maior para não ficar apertado pagando as parcelas por muito tempo. Fora isso, fico com o pé atrás de ir para lá e não conseguir um emprego”, diz.

“25% off” – A crise traz incertezas, mas, como sempre, há o verso da moeda. Com o desaquecimento do mercado, as empresas de intercâmbio ampliam suas promoções. “Lançamos alguns pacotes para destinos alternativos, promoções na inscrição e taxa do dólar ‘congelada’, a 1,95 real”, explica Caldeira, da Experimento. Um curso de quatro semanas de italiano em Florença, berço do Renascimento, sai agora 25% mais barato; inglês nos Estados Unidos, 20%; na Irlanda, 10%; na Inglaterra, 15%.

Já a True Experience aposta no ensino da língua inglesa na Cidade do Cabo, na África do Sul. O programa de quatro semanas lá caiu de 2.090 dólares para 1.699 dólares. O parcelamento do pagamento voltou a ser prática adotada por algumas centrais de intercâmbio. O curso de espanhol de quatro semanas oferecido pela Student Travel Bureau (STB) pode ser dividido em até 10 vezes.

Rotas alternativas – Quem está mesmo disposto a estudar fora, tem ainda outra alternativa à crise: países como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Canadá. Enquanto a recente alta do dólar americano encareceu taxas, as moedas australiana e neozelandesa se mantiveram praticamente estáveis, segundo explica Caldeira, da Experimento. No fim de 2008, o dólar canadense também subiu, mas pouco, se comparado ao valor adquirido pela moeda americana.

Para aqueles que resistem em abrir mão de destinos mais tradicionais, como os Estados Unidos ou a União Europeia, ainda restam opções. De acordo com Victor Hugo Baseggio, sócio-fundador da Central de Intercâmbio (CI), estudantes que antes reservavam um mês só para passear pelos países visitados já reduziram o tempo de lazer para duas semanas. Outra opção é procurar hospedagem mais barata. “O estudante não compra mais o passe de trem, por exemplo, que era um custo adicional. E faz ajuste até na carga horária do curso”, explica Baseggio. Outro exemplo: quem pretendia fazer o High School por um ano em uma escola privada na Austrália, pode mudar os planos e estudar por seis meses no Canadá. Nesse caso, o custo pode cair até 40%.