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Mosquitos geneticamente modificados podem ajudar a combater a malária

Alteração faz com que os insetos produzam 95% de descendentes do sexo masculino, que não transmitem a doença e reduzem a população de mosquitos

Em uma nova iniciativa para conter a malária, cientistas criaram mosquitos geneticamente modificados que produzem 95% de descendentes do sexo masculino, que não transmitem a doença e, em algumas gerações, podem levar ao desaparecimento da espécie. A pesquisa foi publicada na terça-feira, no periódico Nature Communications.

Provocada por protozoários do gênero Plasmodium, a malária é transmitida pela picada de uma fêmea infectada do mosquito Anopheles. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2012 havia uma estimativa de 207 milhões de casos, 80% concentrados na África subsaariana.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: A synthetic sex ratio distortion system for the control of the human malaria mosquito

Onde foi divulgada: periódico Nature Communications

Quem fez: Roberto Galizi, Lindsey A. Doyle, Miriam Menichelli, Federica Bernardini, Anne Deredec, Austin Burt, Barry L. Stoddard, Nikolai Windbichler e Andrea Crisanti

Instituição: Imperial College London, na Inglaterra, e outras

Resultado: Cientistas criaram mosquitos geneticamente modificados que produzem mais descendentes do sexo masculino, que não transmitem a doença e, em algumas gerações, podem levar ao desaparecimento da espécie.

A pesquisa concentrou-se nos mosquitos Anopheles gambiae, o principal transmissor da doença. Em um teste no laboratório, os cientistas introduziram os insetos modificados em cinco gaiolas com populações de mosquitos silvestres. Em quatro delas a população foi eliminada após seis gerações, devido à falta de fêmeas para a reprodução. Caso esses resultados possam ser reproduzidos na natureza, as populações do inseto transmissor cairiam muito.

“A malária é uma doença debilitante e frequentemente fatal, e nós precisamos encontrar novas formas de abordá-la. Acreditamos que o nosso estudo representa um grande avanço. Pela primeira vez, conseguimos inibir a produção de descendentes fêmeas em laboratório e isso nos dá uma nova possibilidade de eliminar a doença”, afirma Andrea Crisanti, professor do departamento de Ciências da Vida na Imperial College London e principal autor do estudo.

Os mosquitos receberam o gene que produz uma enzima chamada “endonuclease”, que ‘quebra’ o DNA quando reconhece uma sequência específica. Neste caso, a enzima atacou os cromossomos X durante a formação dos espermatozoides. Como resultado, quase nenhum espermatozoide funcional continha esse cromossomo, que determina descendentes fêmeas. Ao contrário, a maior parte dos espermatozoides carregava o cromossomo Y, que produz machos. Assim, 95% dos descendentes gerados foram machos, enquanto nas populações normais este percentual corresponde a 50%. Por ser uma alteração genética, essa predisposição a desenvolver espermatozoides Y é passada para parte dos descendentes de cada mosquito modificado, até que o número de fêmeas nas populações seja extremamente reduzido.

A iniciativa, porém, desperta a preocupação de ambientalistas, que chamam atenção para o impacto desconhecido de animais geneticamente modificados no equilíbrio da biodiversidade. Eles argumentam que se uma espécie de mosquito for eliminada de uma região, isto abriria a oportunidade para uma espécie concorrente – e potencialmente perigosa – ocupar seu nicho.

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(Com Agência France-Presse)