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Fóssil de herbívoro com dentes de sabre é achado no RS

Espécie de 260 milhões de anos é descrita no periódico americano 'Science'

O fóssil de um estranho herbívoro que viveu há 260 milhões de anos foi encontrado no Sul do Brasil por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da sul-africana University of the Witwatersrand. Apesar de se alimentar de plantas, o animal tinha dentes caninos de sabre, até então só encontrados em carnívoros, e dentes molares no céu da boca, algo nunca observado no reino animal. Com isso, a espécie conseguia mastigar, habilidade que os paleontólogos acreditavam ter aparecido apenas 40 milhões de anos mais tarde. A descoberta será publicada sexta-feira (25) no periódico americano Science.

Cabeça-anemodonte: ilustração mostra como seria a cabeça do Tiarajudens eccentricus. Cientistas tem ossos de outras partes do corpo, mas a análise completa do restante do corpo levará um ano para ser feita

Tantas características estranhas renderam ao animal o nome de Tiarajudens eccentricus, que significa “Dentes excêntricos de Tiaraju”. Tiaraju é o nome do distrito de São Gabriel, Rio Grande do Sul, onde o fóssil foi encontrado, em março de 2009 – um crânio esmagado, dentes e partes do corpo. O material foi levado ao laboratório da UFRGS, analisado e depois comparado a outro fóssil descoberto em 2000 na África, após o que os pesquisadores tiveram certeza de que o Tiarajudens era um parente distante dos mamíferos.

EsquisitoTiarajudens pertence ao grupo dos anomodontes, animais herbívoros da ordem dos terapsídeos, que deram origem tanto a répteis quanto mamíferos. Viveu há 260 milhões de anos, no período Permiano (entre 299 e 251 milhões de anos atrás), muito antes dos dinossauros. Era do tamanho de uma capivara e não vivia em grupos. Alimentava-se de plantas e era territorial. O paleontólogo Juan Carlos Cisneros, um dos descobridores do fóssil, acredita que o animal usava os dentes de sabre para intimidar predadores ou rivais da mesma espécie. “É uma característica que encontramos em herbívoros modernos, como o hipopótamo”, diz.

Fóssil: estes foram os ossos encontrados em Tiaraju, distrito da cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul

O animal também conseguia mastigar, o que é sugerido pelo fato de que os dentes da mandíbula se encaixavam perfeitamente com os do maxilar. “Imaginávamos que essa vantagem evolutiva só havia se manifestado há 220 milhões de anos”, explica Cisneros. Isso permitiu que a espécie pudesse comer alimentos abundantes na época, como plantas fibrosas difíceis de engolir.

Para mastigar, o Tiarajudens contava com dentes molares que não contornam o osso da mandíbula, como nos outros animais. Eles eram ligados a outro osso, no céu da boca. Cisneros não sabe dizer se isso representava uma vantagem ou desvantagem evolutiva. Muitas vezes, explica, a natureza tem duas “respostas” para o mesmo problema. “É como o golfinho e o tubarão: têm características que os tornam excelentes nadadores, mas por dentro são completamente diferentes.”

Os pesquisadores conseguiram estimar o tamanho do animal com base nos vestígios das patas e outras partes do corpo que também foram encontradas. Contudo, decidiram publicar um artigo descrevendo apenas a cabeça. A análise do restante do corpo, explicam, levará mais um ano e será descrita em outros artigos.

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