Comportamento humano moderno nasceu na África 30.000 anos antes do que se pensava, diz estudo

Compilação de anos de escavação em sítios arqueológicos no sul do continente mostra que comunidades humanas já tinham ferramentas complexas há pelo menos 75.000 anos

A África, onde foram encontrados os mais antigos fósseis de Homo sapiens, é muito mais do que o berço do homem moderno. A compilação do resultado de diversas escavações em sítios arqueológicos na África do Sul, realizada pelo professor Christopher Henshilwood, pesa a favor da teoria segundo a qual o comportamento humano moderno também surgiu no continente. De acordo com ele, grupos humanos no sul da África já se valiam de ferramentas complexas e objetos dotados de carga simbólica há pelo menos 75.000 anos.

A conclusão é importante uma vez que existe um debate entre os arqueólogos sobre onde teriam aparecido os primeiros sinais do comportamento moderno. Em entrevista ao site de VEJA, Mercedes Okumura, pesquisadora do Museu de Arqueologia e de Etnografia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), explica que esse comportamento é definido pelo sentido de grupo e identidade, cujos vestígios pré-históricos incluem pinturas em paredes de cavernas, ferramentas lascadas e peças de rituais funerários primitivos. “São evidências que mostram que uma determinada população era formada por gente como nós, o que inclui símbolos, linguagem e identidade de grupo”, afirma.

Existe uma corrente da arqueologia que defende que esse florescer da capacidade cognitiva humana ocorreu após a migração dos Homo sapiens à Europa, há cerca de 40.000 anos, no período conhecido por Paleolítico Superior. Mas peças encontradas em escavações nas últimas décadas, principalmente na caverna Blombos (costa da África do Sul) a partir dos anos 90, começaram a oferecer evidências do contrário. Em seu artigo publicado nesta quinta-feira no periódico Journal of World Prehistory, o professor Christopher Henshilwood, do Instituto de Evolução Humana da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, argumenta que havia comportamento moderno pelo menos 30.000 anos antes, em agrupamentos humanos vivendo onde hoje é território sul-africano.

Saiba mais

PALEOLÍTICO SUPERIOR

O Paleolítico Superior começou há cerca de 40.000 anos na Europa. Datam do período instrumentos rudimentares, como anzóis e machados de mão. Os materiais mais utilizados para confeccionar objetos eram ossos, pedras e madeira. Aparecem também os primeiros animais domesticados.

Henshilwood estudou duas culturas pré-históricas da região, chamadas Still Bay e Howiesons Poort. A primeira foi formada por grupos humanos que viveram entre 75.000 e 71.000 anos atrás e a segunda, entre 65.000 e 59.000 anos. Ao longo das escavações, os arqueólogos encontraram: pontas de pedra fabricadas com lascamento de pressão, uma técnica de precisão utilizada para dar o retoque final às peças, armamentos complexos como arco e flecha e artefatos de clara carga simbólica, como colares de conta e ossos, ovos de avestruz e ocre (um pigmento mineral) marcados com desenhos.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Late Pleistocene Techno-traditions in Southern Africa: A Review of the Still Bay and Howiesons Poort, c. 75-59 ka

Onde foi divulgada: Journal of World Prehistory

Quem fez: Christopher S. Henshilwood

Instituição: Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo, África do Sul

Resultado: O professor Christopher Henshilwood compilou os achados em sítios arqueológicos na África do Sul de duas culturas pré-históricas. Pela complexidade dos objetos encontrados, ele afirma que o comportamento humano moderno também nasceu na África dezenas de milhares de anos antes da migração de Homo sapiens à Europa.

“Todas essas inovações, além de muitas outras que estamos descobrindo, claramente mostram que o Homo sapiens daquele tempo, no sul da África, era cognitivamente moderno e se comportava em muitas maneiras como nós mesmos”, diz Henshilwood.

Clima e demografia – Em seu artigo, o professor Henshilwood escreve que ainda há pouco material para saber ao certo o que desencadeou esse boom tecnológico. “Parece que a demografia e mudanças climáticas, particularmente a alteração dos níveis do mar, foram os principais vetores da inovação e da variabilidade cultural e material”, relata o arqueólogo.

“A demografia é muito importante para a inovação cultural”, complementa Mercedes Okumura, do MAE-USP. Ela afirma que, como na pré-história o domínio de técnicas era transmitido dentro do grupo a partir de tradição oral, um aumento populacional tinha um efeito multiplicador de conhecimento.

O raciocínio vale na direção oposta. O clima aparentemente também teve um efeito predominante para o desaparecimento dessas duas tradições, informa o estudo. “O fim da tradição Still Bay corresponde a um período de aridez e de baixos níveis do mar”, escreve o autor no artigo. Ele pondera, no entanto, que a questão do sumiço dessas culturas ainda não foi resolvida. “Uma possibilidade é que ela não tenha desaparecido, mas seus integrantes viveram em números reduzidos, o que torna difícil encontrar seus vestígios”, concluí.