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Cientistas interrompem a progressão da doença de Parkinson em animal vivo

Composto desenvolvido em laboratório foi capaz de quebrar as aglomerações tóxicas de uma proteína que se acredita ser causadora do distúrbio

Existem diversas terapias eficazes que tratam os sintomas da doença de Parkinson, distúrbio do sistema nervoso que afeta os movimentos, mas nada diminui sua progressão no organismo humano. Pesquisa da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, descobriu agora uma forma que pode interromper a doença e impedir sua progressão. Os resultados foram publicados na edição on-line da revista Neurotherapeutics.

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DOENÇA DE PARKINSON

É uma doença degenerativa e progressiva do sistema nervoso. A degeneração das células nervosas na doença não tem causa conhecida. A doença não tem cura, mas existem tratamentos que diminuem seus sintomas, que são, principalmente, tremores quando os músculos estão em repouso e lentidão dos movimentos. Afeta cerca de 1 em cada 250 indivíduos com mais de 40 anos.

Ainda não se sabe o que exatamente causa o distúrbio, mas evidências apontam como principal culpada o acúmulo de uma proteína chamada de alfa-sinucleína. A proteína, encontrada em todos os pacientes que sofrem de Parkinson, pode se tornar tóxica e provocar a morte de neurônios quando se une em aglomerados. O que a recente pesquisa descobriu foi uma forma de prevenir que essas aglomerações se formem, além de desintegrar aglomerados já existentes.

Isso foi possível graças ao desenvolvimento de um modelo de ‘pinça molecular’, um composto molecular complexo capaz de se ligar a outras proteínas. Em um modelo animal vivo usado pelos cientistas – um peixe-zebra modificado geneticamente – ela bloqueou o acúmulo de alfa-sinucleína e cessou sua toxicidade, além de reverter os aglomerados já formados no cérebro. A pinça fez ainda tudo isso sem interferir em qualquer função normal do órgão.

Segundo o estudo, existem hoje mais de 30 doenças sem cura que são causadas pela agregação de proteínas e sua toxicidade resultante, como o Parkinson, a doença de Alzheimer e a diabetes tipo 2. Por isso a importância em encontrar uma maneira de acabar com esse processo de aglomeração. Pesquisadores e empresas farmacêuticas têm tentado, nas últimas décadas, desenvolver drogas com esse intuito, mas obtiveram pouco ou nenhum sucesso.

A maior dificuldade agora, em relação ao Parkinson, é descobrir qual é a função convencional da alfa-sucleína no cérebro – segundo os pesquisadores, pode ser que ela sirva para ajudar a comunicação entre os neurônios. A partir daí, será possível evitar que esses aglomerados da proteína se formem, sem atrapalhar a sua função natural, além de outras áreas cerebrais saudáveis.

Como foi feita a pesquisa – A pesquisa da UCLA trabalhou com uma pinça molecular desenvolvida pelos próprios cientistas chamada de CLR01. Ela foi testada em um animal vivo transparente que é comumente usado em pesquisas, o peixe-zebra (Danio rerio), modificado geneticamente para portar a doença de Parkinson. Os cientistas injetaram CLR01 no animal e usaram proteínas fluorescentes para controlar o efeito das pinças moleculares sobre as aglomerações.

O teste provou que a CLR01 impediu a alfa-sinucleína de se agregar, evitando assim a morte dos neurônios e a progressão da doença no modelo de animal vivo. Apesar de ter curado a doença apenas no peixe, os especialistas acreditam que a pinça molecular pode ser uma grande promessa para futuras drogas a fim de retardar ou parar o desenvolvimento do Parkinson e doenças relacionadas.

O próximo passo, afirma a pesquisa, é estudar a CLR01 em ratos para, quem sabe, chegar a ensaios clínicos humanos.

Opinião do Especialista

Erich Talamoni Fonoff

Neurocirurgião da Divisão de Neurocirurgia Funcional do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq HC)

Hoje, após várias pesquisas, se acredita que o acúmulo da proteína alfa-sinucleína seja responsável pela morte de neurônios e causadora da doença de Parkinson, embora não haja uma prova cabal disso. Por isso, um medicamento que realize a quebra dos acúmulos existentes e a inibição de novos aglomerados de alfa-sinucleína é promissor. Se conseguir inibir esse acúmulo, os neurônios provavelmente vão deixar de morrer, e portanto seria possível diminuir a progressão da doença.

Mas há dois problemas. A alfa-sinucleína tem várias funções no cérebro. Ela trabalha na comunicacao intra-celular dos neurônios – e na dos neurônios dopaminérgicos (é a morte desse tipo de neurônio que causa a doença de Parkinson). Sua função não é totalmente compreendida ainda. Não se sabe se um medicamento que iniba o acúmulo vai causar problemas em outras funções. Aparentemente não causou no peixe-zebra, usado nesta pesquisa. Mas não é possível saber com certeza.

A droga também não teria o poder de cura. É impossível reverter a doença. Atualmente, quando o diagnóstico é feito, assim que os sintomas aparecem, de 70% a 80% dos neurônios dopaminérgicos já morreram. O que a droga poderia fazer no futuro seria diminuir a morte de neurônios ainda viáveis. Para ela impedir o surgimento da doença, seria preciso ter um diagnóstico muito mais preciso do que é hoje.

A pesquisa é original, interessante e promissora. Mas por enquanto trata-se apenas de um teste em peixes. São necessários muitos anos para que ela possa ser testada em humanos. E caso ela se mostre mesmo eficiente, outros avanços precisam ocorrer para deter a doença em seu estágio inicial.