Autor de ‘Lolita’ formulou teoria sobre evolução das borboletas. E estava certo

Em vida, o russo Vladimir Nabokov não foi reconhecido por seu estudo dos lepidópteros. Agora, 33 anos depois de sua morte, pesquisadores comprovam hipótese sobre a evolução das Polyommatus azuis

Nabokov afirmou que o grupo de borboletas chamado Polyommatus azuis veio da Ásia para a América em sucessivas ondas

Vladimir Nabokov é conhecido como o autor de clássicos como Lolita e Fogo Pálido. Menos conhecida é sua carreira como especialista em borboletas. O interesse pelos insetos, cultivado desde a infância, é o objeto de um estudo publicado nesta terça-feira no jornal Proceedings of the Royal Society of London, que confirmou a teoria formulada pelo escritor para a evolução das Polyommatus azuis.

Nabokov foi curador de lepidópteros (ordem de insetos que inclui, além das borboletas, também traças e mariposas) no Museu de Zoologia Comparada na Universidade Harvard e colecionou insetos de toda as partes dos Estados Unidos. Publicou descrições detalhadas sobre centenas de espécies. Em 1945, surgiu com uma hipótese arrebatadora sobre a evolução das borboletas Polyommatus azuis.

Ele antecipou que a vinda delas da Ásia para o Novo Mundo há milhares de anos se deu em uma série de ondas. À época, poucos colegas levaram essa ideia a sério. Mas após sua morte, em 1977, sua reputação científica aumentou. E nos últimos dez anos, uma equipe de cientistas vem aplicando a tecnologia de sequenciamento genético à hipótese de dispersão e evolução das Polyommatus azuis. Segundo Naomi Pierce, de Harvard, coautora da publicação, o escritor estava absolutamente certo.

Paixão infantil – Nabokov herdou sua paixão por borboletas dos pais. Quando seu pai foi levado preso por autoridades russas por causa de seu ativismo político, o pequeno Vladimir, de oito anos de idade, levou uma borboleta de presente à sua cela. Quando adolescente, Nakobov embarcou em expedições de caça a borboletas e cuidadosamente descreveu as espécies que capturou, imitando os artigos científicos que lia nas horas vagas. Não fosse pela Revolução Russa, em 1917, que levaria sua família ao exílio dois anos depois, Nabokov dizia que poderia ter sido um especialista em borboletas em tempo integral.

Durante o exílio europeu, Nabokov visitou coleções de borboletas em diversos museus. Gastou o que ganhou com seu segundo romance, Rei, Valete, Dama, em uma expedição aos Pireneus, onde ele e a mulher, Vera, capturaram mais de cem espécies. O avanço dos nazistas levou Nabokov mais uma vez ao exílio, em 1940, desta vez nos Estados Unidos. Foi lá que Nabokov chegou ao auge de sua fama como escritor. Foi lá também que mergulhou a fundo na pesquisa sobre a ciência das borboletas. Nabokov passou boa parte da década de 1940 dissecando um confuso grupo das Polyommatus azuis. Reconheceu diferenças em suas genitálias e com isso conseguiu reclassificar as espécies.

Evolução – No final de 1945, numa publicação sobre o grupo, Nabokov passou a discutir sua evolução. Alguns pesquisadores pensavam que novas espécies teriam surgido na Amazônia sob influência da barreira geográfica imposta pelos Andes. Mas o escritor acreditava que elas haviam se originado na Ásia, atravessado o estreito de Bering e viajado até o sul rumo ao Chile.

No artigo, Nabokov fazia um convite aos leitores para que imaginassem “um taxonomista moderno viajando numa máquina do tempo de H. G. Wells”. Voltando milhares de anos no tempo, ele iria parar numa época onde existiam apenas os tipos asiáticos das borboletas. Depois, o taxonomista veria ondas de borboletas chegando ao Novo Mundo. Nabokov admitiu que imaginar as borboletas fazendo uma viagem da Sibéria ao Alasca e depois até a América do Sul soaria muito artificial. Mas fazia mais sentido para ele do que criar uma ponte que atravessasse o Pacífico.

Quando Nabokov virou uma estrela depois de Lolita, em 1958, jornalistas ficaram encantados em descobrir sua vida oculta como especialista em borboletas. Apesar de ter sido o mais conhecido especialista em borboletas de sua época e curador do museu em Harvard, outros estudiosos consideravam Nabokov um pesquisador sem muita importância, embora empenhado. Ele poderia detalhar muito bem, mas não produzia ideias cientificamente importantes, diziam.

Reconhecimento – Somente na década de 1990 uma equipe de cientistas revisou sistematicamente seu trabalho e reconheceu a força de suas classificações. Naomi, que virou curadora de lepidópteros em Harvard, em 1990, passou a olhar mais de perto o trabalho de Nabokov enquanto preparava uma exposição para comemorar seu aniversário de 100 anos, em 1999. Foi tomada por sua ideia de borboletas vindo em ondas da Ásia. “Foi uma hipótese fantástica, audaciosa”, conta. “Pensei, ‘nós poderíamos testar isso'”.

Para fazê-lo, ela precisaria reconstruir a árvore genealógica do grupo e estimar quando o galho foi separado dos demais. Naomi precisaria do DNA delas, que forneceria mais detalhes sobre sua evolução. Trabalhando com outros cientistas americanos e europeus, ela organizou quatro expedições separadas aos Andes em busca das azuis.

De volta ao laboratório, fizeram o sequenciamento genético das borboletas e usaram um computador para calcular as relações mais prováveis entre elas. Compararam o número de mutações que cada espécie teria de adquirir para determinar há quanto tempo elas divergiram umas das outras. Se as Polyommatus azuis tivessem evoluído nos Andes, elas teriam uma relação de parentesco mais próxima das demais borboletas da região. Mas não foi isso que Naomi descobriu. Ao contrário, constatou que muitas espécies do Novo Mundo estavam mais relacionadas às do Velho Mundo do que às próprias vizinhas. Naomi e os colegas concluíram que cinco ondas de borboletas vieram da Ásia para o Novo Mundo – assim como Nabokov havia especulado. “Ele acertou tudo”, disse Naomi. “Eu não conseguia acreditar – fiquei impressionada”.

Ela e os colegas também investigaram a ideia de Nabokov de que as borboletas teriam vindo pelo estreito de Bering. Naomi e os colegas descobriram que a primeira linhagem de Polyommatus azuis poderia sobreviver a uma média de temperatura semelhante ao clima de Bering há 10 milhões de anos. As linhagens que vieram depois são mais resistentes, cada uma delas combinando sua resistência com as mudanças de temperaturas na região. Naomi acredita que Nabokov ficaria extremamente satisfeito em saber que sua teoria foi comprovada. “Durante todo o tempo ele sabia que seu trabalho tinha caráter científico e que ele era apenas mais um a fazer parte de uma empreitada muito maior”, conta. “Ele não ficou conhecido como cientista, mas isso certamente indica que sabia do que estava falando.”