Senhora ou senhorita? As francesas denunciam o ‘sexismo cotidiano’

Senhora ou senhorita? A pergunta irrita as feministas francesas, que argumentam que os homens não são requisitados a dizer se são casados, e por isso reivindicam a retirada da opção de marcação “Senhorita” dos formulários administrativos, luta à qual nem todas as mulheres aderem.

“Abertura de conta no banco: impossível de se dizer ‘Senhora’ se for solteira. É forçosamente ‘Senhorita'”, protesta Christine no site http://www.viedemeuf.fr, do Atreva-se ao feminismo!, que lançou nesta semana com uma outra associação, as “Cadelas de Guarda”, uma campanha pelo fim da marcação “Senhorita” nos formulários e correspondências.

Este requisito foi incluído na legislação francesa no início do século XIX através do código de Napoleão, agora revogado, o termo “Senhorita” não possui nenhum valor legal na França e nenhuma regra impõe esta denominação.

Contudo, muitas administrações, como a de recolhimento de impostos, ainda requisitam esta informação, apesar dos muitos e-mails e cartas de protesto.

Este assunto gera debates no país do cavalheirismo, eas feministas lembram que muitos países já abandonaram esta distinção, como a Alemanha, que quase não utiliza mais a palavra “Fräulein” (senhorita).

Para Laurence Waki, autor de “Senhora ou senhorita” (Editora Max Milo): ao fazer esta distinção, impomos uma identidade “seja em função da idade ou do estado civil, isso é insuportável”.

“Isso obriga a mulher a expor uma situação pessoal e familiar”, enquanto os homens estão livres disso, insiste Julie Muret, que acredita haver uma conotação “condescendente” na palavra “senhorita”.

Já Olivia Cattan, da Associação Palavra das Mulheres, não vê esta questão como prioridade. “Isso não vai resolver os problemas das mulheres, as violências, as precariedades”, diz.

A campanha “Senhorita, opção desnecessária” é realizada no momento em que o movimento feminista ganha força na França após o caso de Dominique Strauss-Kahn, acusado em maio de agressão sexual contra uma camareira em Nova York, antes de os EUA abandonarem as acusações três meses depois.

A atitude do ex-diretor do FMI foi muito criticada por várias associações feministas, que agora também defendem Tristane Banon, a jornalista e escritora francesa que acusa DSK de tentativa de estupro em 2003.

“Lançar esta campanha não nos impede de falar das discriminações ou da violência”, defende-se Julie Muret, do “Atreva-se ao Feminismo!”.

A luta não é unânime, e as críticas de mulheres chovem na página do Facebook da associação. “Isto mancha a imagem de luta feminista, afoga os problemas realmente importantes!”, diz Mireille que prefere defender “a imagem da mulher na publicidade, nos clipes, a equivalência dos salários para cargos iguais”.

Alexandra, 26 anos, diz que está “revoltada” com a campanha do grupo. “Eu acho que ser chamada de senhorita é muito bonito (…) não é degradante ser chamada assim, pelo contrário, acho que é uma marca da juventude”, explica.