Os tumultos causados pelos rebeldes sem causa da USP

O retrocesso da USP, onde os manifestantes parecem decididos a continuar estacionados em 1968, contrasta com as mudanças na UNB

O balanço da pancadaria: três PMs feridos, dois dos quais atingidos por pedras, e seis viaturas depredadas. A polícia usou cassetetes, gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar os manifestantes

“Os policiais não são trabaliadores, são o braço armado$ dos exploradores”. A foto do cartaz com erros de português – ao lado de rapazes com o tronco à mostra e os rostos cobertos por camisetas – poderia ter sido tirada em alguma rebelião da Febem. Não foi. Quem aparece nas imagens são estudantes da Universidade de São Paulo (USP), uma das 100 melhores instituições de ensino superior do mundo.

As cenas de fúria do bando de jovens se atracando com policiais militares e os gritos de “fora a imprensa golpista” berrados da janela do prédio transformado em bunker da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), poderiam ter sido pinçadas de um documentário sobre as manifestações estudantis contra a ditadura militar. Não foram – embora os manifestantes pareçam decididos a acreditar que continuam estacionados em 1968. Ao mesmo tempo em que o retrocesso pairava sobre a USP, a Universidade de Brasília (UnB) dava um exemplo de evolução. Nesta quinta-feira, a Aliança pela Liberdade, única chapa que não era composta por militantes profissionais, alimentados com recursos de partidos políticos, venceu a eleição para o Diretório Central dos Estudantes (DCE). As propostas da nova diretoria passam longe da reforma agrária, da destruição do capitalismo global ou da defesa de Fidel Castro. Suas bandeiras são o aumento da segurança, o incentivo a parcerias com fundações privadas e a melhoria na gestão da burocrática instituição de ensino.

São Paulo – “É lamentável que as reivindicações estudantis na FFLCH estejam limitadas ao interesse político de uma minoria”, observa o historiador Marco Antônio Villa. “Não existe uma luta para uma biblioteca melhor, para uma política de estágios eficiente ou até para ampliar o acesso da população à educação pública de qualidade”. Villa lembra que a USP não é um território à parte e, portanto, deve subordinar-se à Constituição – que proíbe o consumo de drogas. “A ditadura acabou em 1985”, enfatiza o historiador. “Naquela época, o que levava os estudantes a serem contra a presença da polícia não existe mais. Nos últimos anos, a USP passou por sérios incidentes envolvendo assaltos e mortes. Não há um motivo coerente para se opor a mais segurança”.

O sociólogo Demétrio Magnoli evoca outro tópico das reivindicações: a exigência de eleições diretas para a reitoria da Universidade. “Nas décadas de 1960 e 1970 isso fazia sentido porque havia a necessidade de preservar a instituição de ensino como um território da liberdade de expressão”, afirma Magnoli. “Hoje não faz. A universidade é um patrimônio de toda a nação e, por isso, o representante dessa instituição pode ser escolhido por quem essa sociedade livre elegeu para representa-la”. O sociólogo estende o raciocínio à polêmica presença de policiais militares no campus. “Numa ditadura, é correto querer manter a polícia longe, porque ela é o braço armado de um governo ilegítimo”, diz. “Qual o argumento para fazer o mesmo em uma democracia?”.

Depois de ponderar que qualquer forma de violência, tanto policial, quanto estudantil, deve ser punida de acordo com a lei, o antropólogo Paulo Roberto Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, lamenta: “Nunca a juventude esteve tão silenciosa”. Para Storani, é inquietante que, no momento em que decidem falar, alguns estudantes o façam para pedir a liberação do uso de uma droga. “Se quiserem lutar pela legalização da maconha, ótimo, mas que o façam pelos meios legais”, diz. “A corrupção foi institucionalizada e eles permanecem calados a esse respeito. Fazendo uma comparação superficial entre a direita e a esquerda no poder, fato que vivenciamos nas últimas décadas, fica evidente que a esquerda é muito mais capaz. Ela conseguiu silenciar os movimentos sociais com dinheiro e cargos públicos. A direita tentou isso com bombas e repressão e jamais conseguiu”.

O tumulto – O tumulto na USP depois que três estudantes que fumavam maconha perto da faculdade de História da USP foram abordados por policiais militares no início da noite desta quinta-feira – desde o assassinato do aluno Felipe Ramos de Paiva, em setembro deste ano, o Conselho Gestor da Universidade firmou um convênio com a PM que permite a entrada da polícia no campus. Quando os policiais ameaçaram conduzir os alunos para a delegacia, colegas dos detidos tentaram impedir que eles entrassem na viatura. Então teve início a baderna.

O balanço da pancadaria: três PMs feridos, dois dos quais atingidos por pedras, e seis viaturas depredadas. A polícia usou cassetetes, gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar os manifestantes. Testemunhas garantem que os alunos pilhados com entorpecentes não ofereceram resistência. Os policiais confirmam. “A polícia só disparou gás depois que os estudantes jogaram um cavalete no carro da PM”, afirmou o tenente José Ricardo Caresi. “Os alunos detidos toparam sair do campus com a PM, mas os colegas não deixaram”. Os três alunos acabaram levados para o 91º DP, na Vila Leopoldina, no carro da diretora da Faculdade de História, Sandra Nitrine, que tentou insistentemente evitar o tumulto. “O pessoal foi para cima da PM”, atestou um aluno de História.

Depois da saída dos policiais, cerca de 300 estudantes organizaram um protesto em que exigiram a renúncia do reitor Grandino Rodas, a retirada da PM do campus e a dissolução do Diretório Central dos Estudantes, acusado de conivência com a polícia. Até a noite desta sexta-feira, os alunos permaneciam acampados no prédio da administração da FFLCH.

Em nota, a reitoria da USP lamentou “os incidentes ocorridos no dia 27 de outubro”. Também garantiu que os fatos serão analisados pelo Conselho Gestor, “para a apresentação de propostas para o equacionamento da situação, e que serão divulgadas em data oportuna”. É cedo saber se prevalecerão os gritos que clamam pelo cumprimento da lei.