Na Zona Norte do Rio, o oásis dos traficantes de drogas

Corrupção policial e armamento de guerra em poder do bandido Fernandinho Guarabu fazem da Ilha do Governador um território 'seguro' para os bandidos

Enquanto uma parte dos morros do Rio recebe reforços policiais, com o programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), persiste, em uma área da Zona Norte da cidade, o que pode ser considerado um oásis de tranquilidade para o tráfico. O Morro do Dendê, reduto do traficante Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, como mostrou reportagem publicada em VEJA desta semana, abriga bandidos oriundos de favelas que se tornaram pouco “seguras” para os bandidos – um problema que o poderio armado e a farta distribuição de propina a policiais tratou de resolver na Ilha do Governador, bairro do aeroporto internacional do Galeão e onde vivem 211.000 moradores.

No último dia 1º de dezembro, Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, completou dez anos ditando as regras do lugar, extorquindo comerciantes e motoristas e decidindo quem vive e quem morre. Ao longo de um mês de apuração, VEJA teve acesso a imagens que revelam bem mais do que o impressionante poderio bélico da quadrilha, ostentando uma infinidade de diferentes pistolas, granadas, metralhadoras antiaéreas e fuzis, em especial o russo AK-47, o preferido do terrorista Osama bin Laden.

Em VEJA desta semana:

Tudo isso bem ao lado do Galeão

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Outros destaques de VEJA desta semana

A quadrilha de Guarabu tem, além do chefe, dois homens fortes do tráfico, procurados há anos pela polícia. Gilberto Coelho de Oliveira, o Gil, de 35 anos, teve seu primeiro mandado de prisão (atualmente são doze) decretado pela 1ª Vara Criminal da Ilha do Governador na mesma data que Fernando, ainda no ano de 2003. “Na hierarquia do morro, o Gil manda exatamente tanto quanto o Fernandinho. Se um dá uma ordem, o outro não contesta”, afirma um policial civil que investigou a quadrilha por dois anos, sem sucesso na missão de capturá-los.

Gil mantém o mesmo padrão sanguinolento de Fernandinho. Os dois dividem todo o dinheiro arrecadado. O faturamento proveniente apenas de vans e kombis que circulam pelo bairro – cerca de 600 veículos – rende à dupla 800.000 reais mensais. Um motorista de van ouvido pelo site de VEJA afirma pagar 330 reais por semana para poder trabalhar na região.

Outro criminoso da cúpula do tráfico escondido no Dendê, e identificado a partir de um inquérito da 37ªDP (Ilha do Governador), é Carlos Alberto Cambraia Júnior, conhecido como Metal. Braço direito de Gil, ele foi fotografado vestido como um militar, com calça camuflada, colete à prova de balas, granadas, boas e luvas de combate. Tranquilo, Metal monta guarda em uma das ruas principais do Dendê, ao lado de uma metralhadora Madsen, capaz de disparar 550 tiros por minuto. As imagens reveladas por VEJA mostram Metal sempre fazendo a segurança de Gil. “Ele é o armeiro da favela. Todo o material bélico passa nas mãos do Metal”, explica um agente que participou da investigação sobre o Dendê.

A explicação para a facilidade com que a quadrilha de Guarabu se instalou naquela região passa, necessariamente, pela relação promíscua que o bando tem com a polícia. A reportagem publicada em VEJA desta semana mostra que as propinas podem variar de 450 a 1.000 reais por dia. No ano passado, durante uma das raras operações realizadas pelo batalhão da área no Dendê, uma equipe de policiais chegou à casa do criminoso e encontrou vários objetos de valor, como roupas, móveis e até aparelhos de tevê de última geração. “Quando acabou a ação, eles foram obrigados a devolver tudo por ordem de um major e ainda foram perderam suas funções no Grupamento de Ações Táticas”, contou um dos policiais militares que atuava naquele dia no policiamento da favela.

​Para o promotor Sawei Lai, que há uma década atua na Vara Criminal da Ilha, desmontar o bando de Fernandinho Guarabu é, no momento, mais uma questão de ação policial efetiva do que de abrir novas investigações. “Não é necessário mais inquéritos para apurar o tráfico ali. É preciso apenas levar à frente um trabalho para prender os criminosos”, afirma.

O Dendê persiste como um território blindado, à parte das regras do restante da cidade. As ações policiais na favela são raríssimas. Na semana passada, uma equipe de policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) apreendeu na favela 7.500 munições para diversos calibres, uma metralhadora antiaérea e munições de uma metralhadora ponto 50, capaz de furar a blindagem dos “caveirões”. “É realmente preocupante que essas munições estejam nas mãos de traficantes, porque isso indica que eles também têm armas para dispará-las”, diz o consultor de segurança Vinícius Cavalcante.

A ação do Bope poderia ser ainda mais proveitosa. Um detalhe, no entanto, impediu o pleno sucesso da investida: na noite anterior, a quadrilha tomou conhecimento da missão do Bope, através de uma outra equipe da PM, que vem sendo investigada por passar informações ao bando de Fernandinho Guarabu, em troca de um pagamento de 12.500 por cada plantão.