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Manhanelli: “Jingle bom é aquele que cai no gosto do eleitor”

Consultor político lança livro sobre o uso da música nas campanhas eleitorais

“O jingle Ei, Ei, Eymael, do José Maria Eymael, prova que um bom jingle é apenas uma das ferramentas da campanha – ele jamais elegerá sozinho um candidato”

Um dos maiores especialistas brasileiros em marketing político, Carlos Manhanelli é apaixonado por tudo o que diz respeito a campanhas eleitorais. Há 37 anos, coleciona filmes, jingles, objetos e outros documentos relativos aos pleitos no Brasil.

Parte desse acervo serviu como fonte de pesquisa para seu 12º livro, Jingles eleitorais e marketing político – uma dupla do barulho, lançado na última semana. Nesta entrevista ao site de VEJA, o presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos e professor do curso Máster em Assessoramento de Imagem e Consultoria Política da Pontifícia Universidade de Salamanca, na Espanha, fala sobre os principais jingles brasileiros, conta qual a importância deles nas campanhas políticas e analisa as estratégias de marketing dos principais candidatos à Presidência nas eleições de 2010.

Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por Manhanelli:

Por que escrever um livro sobre jingles políticos? Durante o mestrado que fiz na Faculdade Metodista de São Paulo, percebi que não havia no país um único livro que analisasse de maneira completa os jingles políticos brasileiros. Assim, decidi que minha tese não se limitaria aos jingles, mas os localizaria dentro do contexto das campanhas eleitorais e situaria essas campanhas no momento histórico que o país estava passando. O resultado é um livro que conta a história do Brasil republicano a partir dos jingles eleitorais.

Como nasceu o jingle no Brasil? A música Seu Julinho Vem, composta em 1929 por Francisco José Freire Júnior, pode ser considerada a pioneira. Foi a primeira vez que criaram uma canção exclusivamente para enaltecer determinadas características de um político. Antes, o que havia eram músicas satíricas ou de protesto, com críticas aos candidatos. Getúlio Vargas, adversário de Júlio Prestes naquela eleição, também inovou com a impressão de cartazes e o uso do rádio, embora de forma ainda bastante embrionária.

Seu Julinho Vem

O que determina a qualidade de um jingle? Um jingle bom é aquele que cai no gosto da população de tal maneira que se torna eterno. Numa campanha, cada ferramenta tem a sua função: os santinhos, os cartazes, o rádio, a propaganda eleitoral gratuita e as inserções na televisão. A do jingle é cair no gosto dos eleitores.

Quais os melhores jingles brasileiros? O Varre, varre, varre vassourinha, do Jânio Quadros, é um dos maiores clássicos de todos os tempos. Ei, Ei, Eymael, do José Maria Eymael, prova que um bom jingle é apenas uma das ferramentas da campanha – ele jamais elegerá sozinho um candidato. Bota o retrato do velho, de Getúlio Vargas, também está entre essas preciosidades e tornou-se um hit carnavalesco da época. Lula lá é o último grande jingle brasileiro, tanto que sempre é reutilizado de alguma forma nas campanhas do Lula. Outro que merece destaque é o Eu vou jangar, criado para a campanha de João Goulart para a vice-presidência, em 1960. Naquela época, o presidente e o vice eram eleitos separadamente. O jingle permitia que as pessoas colocassem o seu próprio nome na letra da música. Eu, por exemplo, poderia cantar “Para Vice presidente, Manhanelli vai jangar, é Jango, é Jango. É o João Goulart”.

Varre, varre, varre vassourinha

Ei, Ei, Eymael

Bota o retrato do velho

Lula lá

Eu vou jangar

Por que os jingles não fazem mais tanto sucesso? Até 1990 as campanhas eleitorais eram mais emocionais. Hoje, são mornas, racionais. A consciência política mudou e os eleitores não se envolvem da mesma forma que no passado. Embora o ritmo mais comum nos jingles ainda seja a marchinha, eles deixaram de ser tocados nos carnavais.

O que o senhor acha dos marqueteiros? Os marqueteiros brasileiros são admirados no mundo todo, principalmente por sua criatividade. Eles tiveram que adaptar as campanhas a duas ditaduras, a do Estado Novo, de 1937 a 1945, e a ditadura militar, de 1964 a 1985. A primeira começou justamente no momento em que se popularizava o uso do rádio nas campanhas. A segunda, na época da televisão. A TV, que hoje ainda é a maior ferramenta de marketing político, uma vez que o alcance da internet é limitado, teve seu uso plenamente liberado só na campanha presidencial de 1989.

O que o senhor achou dos jingles e das estratégias de marketing nas eleições de 2010? Os jingles dos três principais candidatos à Presidência, Marina Silva, José Serra e Dilma Rousseff, foram muito chochos. A campanha do Serra usou uma estratégia de marketing errada. Eles tentaram vender a ideia do “Serra é do bem”. Consequentemente, o PT seria do mal. Isso não funciona mais. O PT não é mais visto como um “partido do mal”, de “comunistas que comem criancinhas”. A linha correta seria a do “reconheço o valor do Lula, mas esse governo tem problemas e eu estou aqui para resolvê-los”. Em vez disso, o Serra passou a campanha inteira sem apontar uma única falha da gestão anterior. Só não se deu conta de que, se tudo estava certo, a continuidade natural não seria ele, mas Dilma.

Marina Silva

José Serra

Dilma Rousseff

O senhor gostou da campanha da Dilma Rousseff? Com relação às estratégias de marketing político, a campanha petista foi impecável. É exatamente a teoria que damos em sala de aula colocada em prática. Primeiro, eles tentaram passar a imagem da heroína. Quando perceberam que não fazia sentido “salvar o Brasil”, já que o país havia sido salvo pelo Lula nos oito anos anteriores, partiram para a tática da “mãezona”. Mudaram as roupas, o cabelo e o tom de voz da Dilma. Tudo nela passou a lembrar a figura materna.

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