A tragédia segundo o melhor amigo do atirador

Segundo M.V.S., o estudante que atirou na professora e se matou sabia que a arma estava carregada e premeditou o crime

D.M.N, 10 anos, parecia um menino normal. Adorava videogame – seu jogo preferido era Sonic, do Playstation 1 – e filmes, especialmente os de terror, como Freddy Krueger Vs. Jason. Torcedor do Santos, fazia questão de completar os álbuns de figurinha do Campeonato Brasileiro. Durante os cultos na igreja presbiteriana que frequentava com a família, tocava bateria. As baquetas foram presenteadas pelo pastor. Neste semestre, tirou seis em três provas – a nota máxima no 4º ano da Escola Professora Alcina Dantas Feijão. Sentia-se especialmente à vontade nas aulas de matemática, com a professora Ana Paula Lima, e de História, Geografia e Ciências, com a professora Priscila Razante. Como costuma acontecer nesta idade, era apaixonado por uma menina da sala. Desde o começo do ano, passou a jogar queimada toda quarta-feira, das 17h30 às 18h20.

Foi o que fez na última quarta, dia 21. Depois do jogo, foi para casa, jantou e dormiu a noite inteira. Na quinta-feira, acordou e seguiu para a escola em São Caetano do Sul, no ABC paulista, com uma ideia fixa: assassinar a professora de Língua Portuguesa, Rosileide Queirós de Oliveira, e se matar. D.M.N tentou cumprir a promessa por volta das 15h50. Disparou contra Rosi, como era chamada pelos alunos, e enfiou uma bala na cabeça. M.V.S., também de 10 anos e melhor amigo do atirador, confirma que D.M.N. sabia que a arma estava carregada.

Durante três dias, a reportagem do site de VEJA conversou com mais de dez alunos da escola (sendo oito do 4º ano) e seus pais, com Márcia Gallo, diretora da instituição, professores, coordenadores pedagógicos e outros personagens que participavam ativamente da rotina de D.M.N. Todos confirmaram a amizade entre os dois garotos. M.V.S. estudou com D.M.N. desde 2003, quando eles tinham pouco mais de 1 ano de idade e integravam a lista de alunos da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Octávio Tegão, localizada na mesma rua do colégio em que ocorreu a tragédia – onde ingressaram juntos em 2007. Na manhã desta terça-feira, todo o tempo ao lado da mãe e do pai, M.V.S. repetiu à reportagem tudo o que havia contado a eles em 22 de setembro, quando presenciou o drama do amigo.

Naquela quinta-feira, M.V.S. chegou à escola atrasado, pouco depois das 13h. Do pátio, viu a professora Ana Paula subir as escadas em direção à sala 23, do 4º ano C, e correu para alcançá-la. Quando chegou, cumprimentou D.M.N., que estava no lugar de costume – a terceira carteira da segunda fileira. M.V.S. sentou-se na quarta carteira, bem atrás de D.M.N. Na segunda aula, também de Ana Paula, ouviu D.M.N. dizer a outros dois colegas, uma menina e um menino: “Tenho uma arma. Vou matar a professora e me matar”. O garoto abriu a mochila e mostrou o revólver calibre 38 que pertencia ao pai, o guarda-civil municipal Milton Nogueira. M.V.S. viu de relance o cabo de madeira da arma. “Eu pensei que era de mentira”, disse. Depois da aula, veio o recreio. D.M.N, M.V.S e pelo menos outros cinco alunos brincaram de pega-pega.

Um menino feliz – “O D.M.N. estava tranquilo, sorridente”, disse G.J.G., que sentava a três fileiras de distância de D.M.N. na sala de aula. G.J.G. é o aluno que desembarcou nas manchetes dos jornais nesta semana. De acordo com o depoimento de Márcia Gallo, o menino havia dito para uma psicóloga que “D.M.N. só queria assustar a professora”. Em entrevista ao site de VEJA, ao lado de duas tias e do avô, G.J.G. revelou que, no dia da tragédia, voltou à escola para saber do amigo. “A psicóloga perguntou o que ele achava que tinha acontecido”, conta o avô. “Ele respondeu: ‘acho que foi uma brincadeira, que ele só queria assustar a professora e pensava que o revólver não tinha bala'”. Em 30 de junho, G.J.G. deu uma festa num buffet infantil de São Caetano. D.M.N. aparece alegre nas fotografias, de meias, carregando bexigas e brincando com as outras crianças. (Veja as fotos abaixo)

Durante o recreio, M.V.S. levou às mãos à boca e cochichou para a irmã, que está no 6º ano e também brincava de pega-pega: “O D.M.N. trouxe uma arma e vai matar a professora”. Ela não acreditou. Às 15h, Priscila Razante deu início à aula de Geografia, explicando como funciona o sistema solar. Segundo M.V.S., Davi passou a aula escrevendo, quieto. Às 15h50, o sinal tocou. A quarta aula do dia ia começar. Rosileide, que estava no 4ºB, e Priscila trocaram de lugar. Rosileide entrou no 4ºC, soltou alguns livros sobre a mesa e começou a apagar a lousa da esquerda para a direita. O desenho do sistema solar até agora permanece semiapagado, quase intacto. Nesse instante, D.M.N. chamou M.V.S. mais uma vez, abriu a mochila e, segundo o relato do amigo, disse: “Eu tenho seis balas”. M.V.S. conta que as mesmas crianças que na segunda aula ouviram Davi dizer que ia matar a professora e suicidar-se presenciaram a cena.

Segundo M.V.S., o amigo levantou da carteira e segurou o revólver com as duas mãos no lado direito da cintura, tentando escondê-lo. M.V.S. disse: “Não faz isso”. D.M.N. ignorou. Correu até a lousa, mirou na professora e, também com as duas mãos, apertou o gatilho. Ao contrário do que disseram outras testemunhas, M.V.S. afirma que D.M.N. não saiu da sala nem pediu para ir ao banheiro. Rosileide gritou, tentou agarrar-se na parte da lousa em que se deixa o giz – quase arrancando a estrutura -, girou o corpo, torceu o joelho e caiu de bruços. De acordo com M.V.S., depois de atirar contra Rosileide, D.M.N. saiu correndo e, numa escada de nove degraus, deu um tiro na própria cabeça.

A coordenadora pedagógica Meire Bernardete Cunha, que cuida de 300 alunos espalhados por 11 salas do 1º ao 5º ano da escola, foi uma das primeiras pessoas a ver D.M.N. depois da tragédia. O garoto estava caído sobre a escada, a cabeça junto à parede, encostada no terceiro degrau. Ele tremia com os olhos abertos, aparentemente inconsciente. A bala furou o crânio perto da orelha esquerda, atravessou a nuca e atingiu a parede branca. O buraco na superfície foi fechado por funcionários da prefeitura no dia seguinte. Enquanto Meire socorria D.M.N., a professora Priscila, que dava aula na sala ao lado, resgatava os 23 alunos do 4ºC. Ela os conduziu ao 4ºB, a dez passos de distância, onde não há janelas e a parede de concreto ofereceria maior proteção a um suposto assassino.

O depoimento de M.V.S. ainda não foi colhido pela polícia. O que o melhor amigo de D.M.N. tem a dizer promete causar uma reviravolta nas investigações, conduzidas pela delegada Lucy Fernandes, responsável pelo caso. Até esta segunda-feira, ela acreditava que a tragédia não tinha sido premeditada. Ninguém desconfia do que levou D.M.N. a protagonizar a história estarrecedora. Meire acredita que o segredo jamais será revelado: “A única voz que poderia falar se calou”.