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A volta do pop afro brasileiro d’Os Tincoãs

Os cantores Mateus Aleluia e Badu se reencontram após 34 anos para participar de um tributo ao trio, que será realizado no dia 06 de dezembro em Salvador

Os Tincoãs em 1976 (//Reprodução)

Em dezembro de 1983, Badu achou que estava na hora de dar novos rumos à sua carreira musical. Durante uma viagem à Angola, avisou aos companheiros de grupo, Mateus Aleluia e Dadinho, que não iria mais prosseguir com eles – voltaria para o Rio e retomaria sua carreira como cantor solo. Mas, que fique bem claro, não era uma banda qualquer. Aleluia, Dadinho e o agora dissidente Badu formavam os Tincoãs, trio que combinou os cânticos do spiritual americano com as tradições do candomblé e samba de roda. Aleluia e Dadinho ficaram em Angola e Badu, depois de uma temporada carioca, mudou-se para a Espanha e hoje mora nas Ilhas Canárias. Já Dadinho morreu em 2000. Dois anos após a passagem do amigo, Aleluia retornou para Salvador. No dia 06 de dezembro, os dois remanescentes dos Tincoãs irão se reencontrar depois de 34 anos sem se verem ao vivo – embora tenham passado a última década trocando longas conversas por telefone. Claro que também não será uma reunião qualquer. Badu e Aleluia farão parte de uma celebração à música dos Tincoãs, que será realizada no Teatro Castro Alves, em Salvador, e vai contar com a participação de cantores como Margareth Menezes e Saulo, além da presença dos filhos angolanos de Dadinho na plateia. Nós, Os Tincoãs, tem direção musical de Mateus Aleluia Filho – filho de Mateus – e celebra o lançamento de um livro contando a trajetória do grupo e o relançamento de três de seus principais LPs (ainda que Badu tenha nascido no Rio): Os Tincoãs (1973), O Africanto dos Tincoãs (1977) e Os Tincoãs (1977).

 

Os Tincoãs são uma dádiva de Cachoeira, município situado a 116 quilômetros de Salvador e localizado às margens do rio Paraguaçu. Cachoeira teve seu apogeu econômico nos séculos XVII e XIX, quando seu porto era usado para escoar parte da produção agrícola do sertão baiano para a capital, Salvador. Outro fator importante na história da cidade – ainda que seja motivo de vergonha – é que ela foi pioneira na utilização de mão de obra escrava da Bahia. Estima-se que mais de 40 000 negros tenham sido comprados para trabalhar nos engenhos locais. Ali, os negros viviam em condições insalubres e eram submetidos a maus tratos. O cenário de desesperança, contudo, resultou numa das principais manifestações religiosas da Bahia – a Irmandade da Boa Morte, um movimento feminino onde as mulheres homenageiam Nossa Senhora na igreja e os orixás do candomblé nos terreiros. É nesse cenário em que a dor e a música, o sacro e o profano, convivem (nem sempre harmoniosamente, claro), que os Tincoãs surgem em 1960 . Erivaldo, Heraldo e Dadinho, a princípio, tinham um repertório de boleros (a principal inspiração era o Trio Irakitan). A partir da entrada de Mateus Aleluia, no ano de 1963, que o trio passa a fazer esse amálgama de samba de roda e cantos afro-brasileiros. Dez anos depois, o trio gravou seu disco de estreia com essa concepção sonora: Tincoãs, de 1973, produzido por Adelzon Alves. Aleluia lembra da luta de Alves para convencer Milton Miranda, diretor artístico da EMI, para se lançar um trabalho tão diferente da música produzida naquele período. “Miranda tinha dificuldade em aceitar um grupo com som de candombré.” Ele teria mostrado discos de soul para o executivo a fim de ilustrar as mudanças pelas quais a música estava passando. Deu certo: Os Tincoãs, o disco é uma pequena obra-prima do cancioneiro negro brasileiro, com adaptações de temas de candomblé e temas criados por Aleluia, Dadinho e Heraldo. Dali saem Deixa a Gira Girar, Saudação aos Orixás e Iansã Mãe Virgem, temas que dariam fama ao grupo.

 

Heraldo morreu em 1975. Foi substituído brevemente por Morais, que gravou O Africanto dos Tincoãs. Badu entraria em dezembro daquele ano, depois de ser descoberto cantando numa boate do Rio. “O dono do local me disse que o Adelzon Alves estava à procura de um vocalista para os Tincoãs”, lembra. A princípio, o repertório soou estranho para um crooner acostumado aos sucessos da discoteca. Mas depois se acostumou. “Eu até passei a dizer nas entrevistas que era baiano”, diverte-se. Aleluia, Dadinho e Badu gravaram Os Tincoãs, de 1977. É desse álbum Cordeiro de Nanã, gravada posteriormente por João Gilberto. A pouca aceitação comercial do grupo fez com que Badu anunciasse a sua despedida do trio. Aleluia e Dadinho, no entanto, continuaram o legado dos mestres do soul afro baiano. Em 1986, já morando em Angola, eles lançaram o álbum Mateus e Dadinho. Aleluia, por seu turno, assumiu um cargo no governo local.  “Minha missão era identificar a influência brasileira na cultura angolana e pesquisar sobre candomblé e quimbanda.”

 

O retorno de Mateus Aleluia foi marcado por um período de criatividade. Ele lançou dois discos, ambos com repertório e sonoridades impecáveis: Cinco Sentidos, de 2010, e Fogueira Doce, de 2017. No início de dezembro, ele participa de um tributo ao disco Bad Donato, do bossanovista João Donato em Los Angeles, e faz apresentações solo na universidade do local. Badu, após os Tincoãs, foi para Madri para se apresentar num espetáculo do teatro de revista – o repertório era calcado em samba. Depois, mudou-se para as Ilhas Canárias, onde se apresenta em hotéis e casas noturnas. Mais do que uma reunião de dois velhos amigos e agregados, a performance no Teatro Castro Alves é um tributo a um dos trios mais criativos e audaciosos surgidos no cenário pop brasileiro.

 

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