Oz e o Início da Nova Geração de Séries

A cada década uma ‘nova leva’ de produções surge na TV americana para contribuir com a evolução do formato seriado. Algumas promovem mudanças tão significativas  na estrutura que são apontadas como revolucionárias. Outras, pela forma como exploram alguns elementos, definem o caminho a ser seguido. Como já comentado aqui, o formato seriado da TV americana […]

A cada década uma ‘nova leva’ de produções surge na TV americana para contribuir com a evolução do formato seriado. Algumas promovem mudanças tão significativas  na estrutura que são apontadas como revolucionárias. Outras, pela forma como exploram alguns elementos, definem o caminho a ser seguido.

Como já comentado aqui, o formato seriado da TV americana é dividido entre antes e depois de “Twin Peaks”. Foi a partir dessa produção que as séries passaram a adotar uma estrutura mais complexa de desenvolvimento de personagens. Ao longo da década de 1990, outras surgiram adotando essa complexidade com uma abordagem mais realista de situações propostas.

Isso somente foi possível graças às mudanças que ocorreram nos bastidores de produção da TV americana. Foi na década de 1990 que ‘caiu’ a imposição de algumas regras ao veículo, as quais impediam os produtores de oferecerem histórias mais realistas. Quando o FCC, órgão que regulamenta o conteúdo da TV aberta, permitiu essas mudanças, os roteiristas passaram a explorar com mais veracidade o trabalho de profissionais normalmente vistos nas séries de TV, como os policiais e os médicos.

As mudanças de regras permitiram, por exemplo, que detalhes de cenas de autópsias pudessem ser visualizadas pelo público, bem como cirurgias. Também passaram a ser permitidas as filmagens, com mais realismo, de cenas de violência, como assassinatos, sequestros e estupros. Esses detalhes poderiam ser vistos em imagens do ato ou ouvidos na descrição de como eles ocorreram. Assim, a década de 1990 promoveu a escalada do realismo nas séries de TV.

No entanto, a despeito de produções como “Homicide: Life on the Street” ou “Nova Iorque Contra o Crime”, que exploraram essa liberdade com maior ênfase, foi a TV a cabo que trouxe para esse universo aquela que seria a  série a dar o pontapé inicial para a nova geração de produtos do formato.

Em 1997 estreou “Oz – a Vida é uma Prisão”, produção criada por Tom Fontana. Esta é considerada a primeira série dramática da HBO, que até esse momento investia apenas em comédias ou dramédias, como The Larry Sanders Show, sitcom produzida entre 1992 e 1998 e que deu o pontapé inicial nesta fase de produções de qualidade do canal.

Buscando atender seu público, acostumado às produções cinematográficas exibidas pelo canal, a HBO ofereceu sua primeira série dramática com ‘ares’ de cinema.

Frustrado com as limitações da TV aberta, Tom Fontana decidiu oferecer seu novo projeto ao canal HBO, que já tinha exibido com sucesso vários documentários e filmes sobre o mundo carcerário.

Acreditando no potencial do tema, o canal construiu uma penitenciária em um depósito de Manhattam, equipada com celas, escritórios, cafeteria, sala de ginástica, biblioteca, sala de computadores, lavanderia, área de lazer e ala de visitações.

Filmada em ambiente fechado, a série deu ao público a sensação claustrofóbica vivida pelos personagens. Oferecendo baixos salários, o canal atraiu uma dezena de atores, alguns renomados, que buscavam pela inédita oportunidade de trabalhar em uma série com uma abordagem mais profunda daquela vista na TV aberta.

Por ser uma produção para a TV a cabo, o realismo oferecido por “Oz” suplantou  o que  era visto nos canais abertos. A começar pela linguagem, que explorou expressões carregadas de palavrões, passando pela nudez frontal masculina, masturbação e a violência, marcadas por cenas de estupros. Fosse sexo oral ou a penetração anal, “Oz” chocou com sua abordagem direta e crua de uma sociedade basicamente masculina confinada em uma prisão de segurança máxima.

Além dessa temática, “Oz” também introduziu histórias carregadas de tensões raciais, políticas e religiosas. Os personagens não eram heróis. Todos estavam presos por algum motivo, sendo que o comportamento de cada um na cadeia intensificava o perfil criminoso.

Muitos dos guardas eram corruptos e o sistema administrativo era impotente, restringindo-se a apaziguar situações de conflitos e punir os envolvidos. Grupos representantes de raças e religiões se formaram e buscaram o domínio do local, impondo vontades, interesses e crueldade. O tráfico era a fonte de renda de muitos que viviam em Oz, nome pelo qual o Oswald State Correctional Facility era conhecido.

Existiam diversas alas na penitenciária, mas as histórias se concentravam, em sua maioria, dentro da Emerald City, criada com o objetivo de introduzir um novo programa de reabilitação. O lugar era um paraíso em comparação às demais alas. Perder uma vaga em “Em City” era se afastar de certas regalias.

A série conseguiu manter sua proposta ao longo das duas primeiras temporadas. Na terceira, a qualidade começou a cair. Criticada por oferecer apenas violência e terror, sem propor programas que poderiam reabilitar os presidiários, a série retornou em sua quarta temporada com uma nova abordagem.

Surgiram programas culturais e esportivos, diálogos e situações que debatiam os direitos e deveres de uma penitenciária e do estado, além de redirecionar os prisioneiros para uma postura mais suavizada e moralista.

Da quarta até a sexta e última temporada, exibida em 2002, “Oz” se transformou em uma cópia de si mesmo. Uma espécie de novela com reviravoltas à toa e uma abordagem de moral e cívica. Manteve as cenas de violência e nudez, é claro, mas por pura obrigação.

“Oz” contribuiu com as carreiras de Christopher Meloni, Harold Perrineau, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Kirk Acevedo, Željko Ivanek, Dean Winters, Kathryn Erbe, Lee Tergesen e J. K. Simmons.  Também promoveu o retorno de Rita Moreno, Ernie Hudson, Luke Perry e Joel Grey, entre outros.

A estética de “Oz” marca a transição da década de 1990 para o século XXI. Utilizando recursos televisivos, cinematográficos e teatrais (nas cenas com o narrador), a produção conseguiu convencer a diretoria da HBO das possibilidades que surgiriam caso investissem nas séries dramáticas.

Foi então que surgiu “A Família Soprano”, criada por David Chase. Oferecida à Fox, que chegou a encomendar o roteiro de um episódio piloto, a série foi recusada pelo canal. O sucesso de crítica de “Oz”, que em 1998 estava em sua segunda temporada, levou David Chase a bater às portas da HBO, que aceitou o projeto de produzir a série.

Tendo se destacado no elenco de “Oz”, a atriz Edie Falco, que interpretava uma das carcereiras, deixou a série para assumir o personagem de Carmela Soprano. Sua saída foi preparada no final da terceira temporada, quando uma revolta toma conta da penitenciária. Cansada da vida que levava, sua personagem sai de férias, resolvendo não voltar mais. Posteriormente, durante a quarta temporada, ela telefona para se despedir de um dos colegas, com quem estava envolvida.

“A Família Soprano” estreou em 1999, oferecendo uma abordagem totalmente cinematográfica, uma trama mais pessoal e um número menor de personagens (“Oz” teve cerca de 30 atores se revezando nas histórias). Esta série conquistou a crítica, tornando-se uma das responsáveis por colocar a HBO e a produção da TV a cabo ‘no mapa’ e no consciente coletivo, em nível internacional.

Fernanda Furquim: @Fer_Furquim

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