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Como nasceu a expressão ‘para inglês ver’?

“Qual a origem da expressão ‘isso é para inglês ver’? Agradeço desde já. Abraços.” (Kalina Santos)

Não existe uma explicação acima de controvérsia para a conhecidíssima expressão “para inglês ver”, cujo sentido o Houaiss define como “para efeito de aparência, sem validez”. A mais aceita, e que me parece também a mais plausível, é a que apresentou o filólogo João Ribeiro em seu livro “A língua nacional”: no tempo do Império, as autoridades brasileiras, fingindo que cediam às pressões da Inglaterra, tomaram providências de mentirinha para combater o tráfico de escravos africanos – um combate que nunca houve, que era encenado apenas “para inglês ver”. O sentido da expressão nesse contexto é exatamente o mesmo que ela tem até hoje.

Em seu “Tesouro da fraseologia brasileira”, Antenor Nascentes enumera outras teses. Uma delas (de Mário Sette) diz respeito aos trajes de linho que os ingleses usavam em Pernambuco, diferentes dos de casimira preferidos pela população local – o que levava certos brasileiros gozadores, sempre que viam um nativo trajando linho, a dizer que ele só se vestia assim “para inglês ver”.

Entre as teses enumeradas por Nascentes, a mais rica em detalhes – talvez rica demais para ser crível, mas o estudioso anota que Gilberto Freyre e Afonso Arinos lhe deram crédito – é apresentada por Pereira da Costa em seu “Vocabulário pernambucano”:

Tocando na Bahia na tarde de 22 de janeiro de 1808 a esquadra que conduzia de Lisboa para o Rio de Janeiro a fugitiva família real portuguesa, e não desembarcando ninguém pelo adiantado da hora, à noite, a geral iluminação da cidade, acompanhando-a em todas as suas sinuosidades, apresentava um deslumbrante aspecto. D. João, ao contemplar do tombadilho da nau capitânia tão belo espetáculo, exclama radiante de alegria, voltando-se para a gente da corte que o rodeava: ‘Está bem bom para o inglês ver’, indicando com um gesto o lugar em que fundeava a nau ‘Bedford’, da marinha de guerra britânica, sob a chefia do almirante Jervis, de comboio à frota real portuguesa.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

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  1. Comentado por:

    Ednei

    Sr. Sérgio, boa tarde!
    Lembro que minha professora de história, Sra Joana Dark, em 1986 aproximadamente numa das aulas do ginásio, falou dessa expressão e com uma história muito mais contundente, ela disse o seguinte:
    A corte de Portugal assim que se instalou na Quinta da Boa Vista recebeu uma notícia que ganhariam um portão produzido na Inglaterra de presente para que colocassem na entrada da Quinta, sendo que já existia os portões e grades em torno da Quinta e D. João mandou guardar os portões, mas daí há algum tempo, a corte inglesa mandou avisar que viriam fazer uma visita, imediatamente D. João mandou que instalassem os portões, mas não tendo onde colocá-los foi criado um largo em frente o portão principal e instalado o portão, áté hoje o portão se encontra lá no largo que serve como uma rotatória em frente a Quinta da Boa Vista, daí o termo: “Obra para inglês ver”
    Desculpe o português, espero ter sido útil.
    Abç
    Ednei Veiga

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  2. Comentado por:

    Casca Fina

    Tudo bem.
    Seja como for, parece-me que a comentada expressão já pode ser atualizada: ‘para brasileiro ver’, já que quase tudo nas plagas de Pindorama é feito de forma atamancada. Estradas que não resistem a algumas chuvas, prédios que desabam de uma hora para outra, semáforos que enlouquecem se chove um pouco mais, apagões, e por aí vai… A lista não termina.
    Também ‘para brasileiro ver’ a perrengue infraestrutura do país, a morosidade da justiça e seu acumpliciamento com réus privilegiados, etc., etc.
    E a Copa da Fifa? Bem… essa corre grande risco de ser um tremendo fiasco nacional ‘para o mundo inteiro ver’.
    Chega, né?!…

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  3. Comentado por:

    Claudio Defensor

    Me lembro de aulas no ginásio onde, para explicar tal frase, minha professora referia-se à fiscalização do tráfico de escravos exercida pela esquadra inglesa, onde eram colocados nos navios negreiros tapumes que escondiam sob seu fundo os salões onde os escravos vinham escondidos. Não era necessário muito acabamento nestes tapumes utilizados como piso, pois seriam apenas “para inglês ver” e seguir viagem ao Brasil. Daí em diante, tudo que fosse provisório ou improvisado teria virado “para inglês ver”. Mas pelo que li do nobre professor Sérgio, o relato acima seria mais uma lenda. Abçs, Claudio Defensor

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  4. Comentado por:

    AJS-RJ

    A expressão “para inglês ver” se aplica bem ao atual Brasil.

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  5. Comentado por:

    Vagner Lima

    Olá!Gostaria de deixar aqui registrado que o nosso incrível escritor Lima Barreto também deixa essa expressão em um de seus contos maravilhosos: “Miss Edith e seu tio”, e a data de publicação é de 1915. Bem, de qualquer forma vale dar um conferida.
    Abraços!

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  6. Comentado por:

    José Carvalho

    A expressão é de uso comum também em Portugal, pelo que a sua origem brasileira, e especialmente a factos pós indepência, é difícil de fundamentar.
    A explicação mais provável parece-me ser a que se encontra em https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080127064705AA26jVR:
    “A expressão “para Inglês ver” remontam aos tempos das invasões francesas e após a partida da família real portuguesa para o Brasil.
    O que aconteceu é que Portugal passou a ser uma espécie de protectorado Inglês assim que começaram as guerras peninsulares contra os franceses. Ou seja, o Rei pediu aos ingleses para tomarem conta de Portugal enquanto ele estava no Brasil. Sendo assim os ingleses assumiram o comando da máquina militar portuguesa na luta conjunta contra França.
    O grande problema que os ingleses enfrentaram ao chegar a Portugal foi a desorganização geral dos portugueses.
    Como todos sabemos os ingleses são metódicos, adoram fazer leis e ter tudo por escrito e bem arranjado, ao contrário dos portugueses que viviam mais numa base prática e com uma política do desenrrasca. No entanto, com as novas imposições organizacionais dos ingleses os portugueses viram-se obrigados a organizarem-se no modo possível.
    Assim sendo, sempre que saía uma lei ou era necessário apresentar um relatório a um general inglês, o português lá tinha que organizar tudo muito bem e por escrito, para mostrar aos ingleses de que estava tudo em ordem. Na prática era só papel e servia apenas para demostrar teoricamente que tudo estava OK, quando na realidade a situação era bem diferente e muito possivelmente as regras não eram cumpridas pela população que nem sequer estava virada para acatar ordens ou conselhos de estrangeiros.
    Sendo assim a expressão nasce precisamente dos portugueses que escreviam relatórios, leis com as coisas que sabiam que deixaria os ingleses agradados. O mesmo se aplicava a visitas de generais ingleses a certos locais onde a realidade era tapada de modo a que as aparências iludissem. Vejamos: “Os ingleses querem que se construa uma nova estrada aqui?? Ok, vão buscar umas quantas pás e pedras e metam-nas aí a um canto só para os ingleses verem que já estamos a começar” ou então: “Os ingleses querem um recolher obrigatório à noite? Tá certo. Escrevam uma folha a referir tal, e coloquem nas portas Igrejas.” (Acham que alguém cumpriria esta regra ditada por um estrangeiro? lol. Isso é só para inglês ver 😉 haha)”

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  7. Comentado por:

    José Carvalho

    Contudo no Norte de Portugal muitos ligam a expressão ao estabelecimento da Região Demercado do Vinhos do Alto Douro em 1756. Os terrenos foram classificados em de 1ª e de 2º por assim dizer (vinhos generosos e vinhos de mesa), sendo os primeiros destinados especialmente à Inglaterra e os segundos ao Brasil. Os Ingleses tinham direito legalmente instituido de inspecionar e certificar a origem dos vinhos antes do embarque. Quando os Inglese vinham fazer as inspecções os comerciantes trocavam os vinhos maus nas adegas por bons. Quando eles partiam trocavam-nos de volta por vinhos correntes. Era tudo feito “para Inglês ver”!

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