Antes de mais nada, cuidado com os sabichões

“Caro Sérgio, já li que não se deve usar a expressão ‘antes de mais nada’. Essa expressão é muito usada ao se iniciar uma elocução, discurso ou afim. Alguém, condenando tal expressão, justificou que não vislumbrava algo que vem antes de nada. Como pode algo vir antes do nada, perguntou-me. O que você acha?” (Carlos Vasconcelos)

“Antes de mais nada” (que significa “em primeiro lugar”) é mais uma expressão do português que, embora tenha uma história nobre e bonita, vem sofrendo nos últimos tempos com a patrulha de quem tenta enquadrar a língua em moldes de pensamento literais demais. É perda de tempo condená-la ou dar ouvidos a quem a condena.

Isso porque a locução faz perfeito sentido, como prova o fato de ser compreendida por qualquer falante. Muitas vezes é peculiar a lógica do idioma, um dos traços daquilo que se chama com algum romantismo de “espírito da língua” – com o qual me parece sábio estar em comunhão, não em guerra. “Antes de mais nada” significa (e tem sonoridade melhor que) “antes de tudo”, assim como “pois não” significa sim e “pois sim” significa não.

Claro que cada um fala como quiser e tem o direito, se assim o desejar, de banir “antes de mais nada” do seu discurso. Pode até fazê-lo por razões inatacáveis: se busca objetividade e concisão, essa locução pode mesmo parecer palavrosa. O problema começa quando se tenta transformar tal decisão em lei universal. Ao sair corrigindo seus semelhantes com o argumento de que a expressão “não tem lógica”, o sujeito demonstra ignorância sobre como funcionam as línguas. Julga-se sabido, mas é apenas sabichão.

Entre os autores consagrados que, numa rápida busca, confirmei terem usado sem o menor constrangimento essa locução adverbial está o português Camilo Castelo Branco, que durante boa parte do século 19 era considerado um prosador-modelo. A lista inclui ainda Machado de Assis, Rui Barbosa, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector. No fim das contas, trata-se de uma escolha simples entre ficar na companhia deles ou abraçar os patrulheiros do literalismo.

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  1. Comentado por:

    augustowebd

    Por vezes, os comentários são melhores que assunto principal. Aprendi bastante lendo cada um de vocês.
    Muito obrigado.

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  2. Comentado por:

    CARLOS

    E eu posso escrever, numa redação de concurso, “DEPOIS DE MAIS NADA”? Se existe “ANTES”, não poderia ter o “DEPOIS”, como o “antes de tudo” e “depois de tudo”? A língua não deve ter uma certa lógica?
    Não, “depois de mais nada” não faz sentido.

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  3. Comentado por:

    Percival de Carvalho

    Quais serão as próximas vítimas dos logicistas linguísticos? Alguns palpites: “de então para cá”, por essa confusão entre as noções de tempo e de espaço; “falar bem de”, porque aí o que é bom não é a maneira como se fala sobre a pessoa, e sim o que se fala sobre ela; e “já, já”, porque, evidentemente, é redundante.

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  4. Junior Oliveira

    Antes de mais nada, está por óbvio, depois de tudo. Ao passo que “antes de tudo” significa isso mesmo. NÃO PODEM SER SINONIMOS!!!
    A análise sintática, se compreendida como deve, funciona como um excelente mata-burro para cascateiros.
    Não há mal em ser literalista, ao contrário. É justamente a falta de literalismo que fez das linguas latinas essa beleza de linguagem eivada de abstrações que ao fim e ao cabo significam rigorosamente nada! Mas claro, sempre deixando entrever a suspeita de profundidade.

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