Em protesto, obra de Lygia Clark é apresentada fora da exposição

Filho da artista, Álvaro Clark diz que integrantes do MBL, que criticaram a mostra cultural, não entenderam o significado: 'Nunca vi nada parecido'

Fechada para visitação pelo Santander Cultural após críticas, a exposição “Queermuseu“, em Porto Alegre, deixou o interior do prédio para ocupar a Praça da Alfândega. Obras de Lygia Clark (1920-1988), artista brasileira mundialmente conhecida, foram retiradas do prédio e apresentadas ao público de cerca de 300 pessoas que protestava em frente ao museu na tarde desta terça-feira contra o encerramento da exposição.

A obra Cabeça Coletiva, de 1974, foi a primeira a aparecer. Logo, foi seguida de Eu e o Tu, de 1967, peça interativa em que duas pessoas vestem um macacão preto e exploram um ao outro por meio de toques. Esta última, que já passou por Paris e Frankfurt, foi alvo de ataques na capital gaúcha.

“Fiquei chateado porque a moça [Paula Cassol, coordenadora do Movimento Brasil Livre, que criticou a exposição] não entendeu e disse que a obra incentiva que as crianças toquem órgãos sexuais. Não é isso. São duas pessoas. Quando o homem abre o zíper da axila do outro, ele sente os pelos, é a sua axila que está ali no outro, não a da mulher. O mesmo corre quando a mulher explora a axila do outro, ela sente uma superfície lisa, é o feminino que ela explora”, disse a VEJA Álvaro Clark, filho da artista, que veio a capital gaúcha para o protesto. Segundo ele, que administra o legado da mãe, “Porto Alegre não está preparada” para receber esse tipo de obra, que nunca enfrentou problemas em outras cidades. “Nunca vi nada parecido”, disso o filho.

LGBT

Protesto contra fim da exposição teve presença de ativistas dos direitos LGBT (Itamar Aguiar, Agência preview/VEJA)

A manifestação teve a presença de um pequeno grupo crítico à exposição que pedia intervenção militar e causou tumulto. Mais tarde, um outro pequeno grupo de pessoas rezou e também se disse contrário à mostra cultural. A maioria das pessoas segurava cartazes a favor da liberdade de expressão e contra a censura. O protesto foi organizado por entidades em defesa dos direitos LGBT.

“Queremos mostrar que aqui não é a província do atraso. O MBL lutava contra a corrupção, mas os políticos que eles apoiam estão todos ligados a escândalos. Eles estão sem pauta. O próprio Minsitério Público concluiu que não teve pedofilia nenhuma na exposição”, disse Luciano Victorino, do grupo Juntos.

Confusão no final do protesto

O protesto contra o fechamento da exposição foi pacífico até que um tumulto resultou em ação da Brigada Militar (a PM gaúcha). O conflito ocorreu depois que o blogueiro do MBL, Arthur Moledo do Val, que veio de São Paulo para participar do ato, precisou ser escoltado pela polícia para sair do local. Segundo o tenente-coronel Eduardo Amorim, a polícia jogou bomba de gás lacrimogêneo nos manifestantes porque foram atiradas pedras contra os militares. Dois homens foram detidos e assinaram um termo circunstanciado por desobediência e resistência e depois foram liberados.

O blogueiro paulistano já protagonizou outras polêmicas na capital gaúcha quando foi detido por tumultuar um protesto de servidores municipais e quando abordou a ex-candidata à presidência Luciana Genro (PSOL). A Justiça determinou que Do Val apague o vídeo em que aborda Genro e sua família.

Veja também

MBL

O MBL disse em entrevista nesta terça ao programa Esfera Pública, da Rádio Guaíba, com a presença da coordenadora estadual Paula Cassol e do blogueiro Arthur Do Val, também

ligado ao movimento, que não foi responsável pelos atos que ocorreram dentro do Santander com ataques aos visitantes e gravação de vídeos. O MBL, porém, apoia o boicote ao Santander, chama as obras de a pologia à pedofilia e zoofilia e é contra o financiamento público desse tipo de atividade.

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  1. Claudio Malagrino

    A oração e o pedido de intervenção militar são tão válidos quanto o beijo entre os dois homens, todos amparados pela liberdade de expressão. Mas infelizmente a New Left, com apoio desta revista, só quer um lado da história. As obras que geraram polêmica não eram de Ligia Clark ou de artistas consagrados, mas obras militantes e pobres de conteúdo, que inclusive atacavam símbolos religiosos. O Santander decidiu não associar sua imagem à mostra polêmica e ponto final. Parem de choradeira. Ou então levem a mostra para as dependências da Editora Abril.

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  2. Nicolau Jancar

    Reportagem tendenciosa, pois mostra imagens de “artistas” com a boca amarrada por fita e cartaz com “censura não”, mas o único realmente censurado foi o Arthur do Val.

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  3. Cara ta cada vez pior VEJA ta indo de pro buraco igual a LGBT vc nao pode falar da opção sexual de ninguem mais eles podem fala da religiao e de tudo mais a vai pra pqp

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  4. JOÃO CARLOS Martins

    Estranho o comportamento da VEJA nessa reportagem, pois, seguindo os demais sites de notícia, dentre os quais o globo.com, não demonstra imparcialidade ao divulgar o fatos, pois parece que somente os que defendem essa exposição é que teriam direito de se manifestar e que a ação dos contrários seria algo de anormal. A propósito, liberdade de expressão não é um direito absoluto!
    Para mim, isso não é jornalismo, mas mera panfletagem.
    Como assinante da revista veja, pensarei duas vezes antes de renovar minha assinatura, pois passo a ter dúvida da seriedade de suas reportagens.

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