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Bye-bye, Brasil: ontem e hoje

Reportagem de VEJA desta semana trata de uma nova onda migratória brasileira rumo a Portugal,

Reportagem de VEJA desta semana trata de uma nova onda migratória brasileira rumo a Portugal, formada por representantes das classes média ou alta, com documentação legal e dinheiro até para desfrutar uma boa vida na nova pátria. Ao contrário de outras levas, o atrativo não são oportunidades de trabalho, mas serviços públicos de boa qualidade e, acima de tudo, a segurança pública, conforme os entrevistados pela reportagem. Há quase trinta anos, VEJA tratou do nascente fenômeno da imigração: “Nos quase 500 anos de História do Brasil, esta é a primeira vez que seus cidadãos resolvem partir em número significativo, e por vontade própria”, dizia reportagem de capa publicada na edição de 16 de março de 1988.

Pesquisa citada por VEJA apontava que 3/5 os paulistanos e 2/3 dos cariocas sonhavam em deixar o país: “Naturalmente, não existe um único motivo para a grande revoada, mas a maioria dos candidatos a emigrante está sintonizada em um ponto-chave: o Brasil, país de oportunidades, está sumindo.” O país assistia então à escalada assustadora da inflação, que atingiria quatro dígitos no ano seguinte, e ao fracasso de sucessivos planos econômicos. O governo Sarney derretia à vista dos brasileiros, recém inaugurada a Nova República.

“Eu estava frustrado no Brasil. Tinha uma renda família média, mas nenhum horizonte à vista”, dizia à reportagem um dos quase 12 mil brasileiros que desembarcaram nos anos 1980 em Portugal. “Eu ia ao supermercado com uma máquina de calcular no bolso, andava nas ruas com receio de assalto. A impressão que eu tenho é de que estou me mudando para um país sério.”

Duas áreas profissionais foram então invadidas por brasileiros: jogadores de futebol e dentistas – estes, em ampla maioria, ilegais, uma vez que a odontologia por lá é uma extensão da medicina, não uma carreira à parte. “Calcula-se que os dentistas brasileiros sejam, hoje em dia, responsáveis por metade das consultas dentárias em Portugal”, relatava VEJA. “Como trabalham ilegalmente, seus consultórios estão sempre em nome de um médico nativo que ganha 50% dos lucros para assinar as consultas.”

Os portugueses haviam recém aderido à União Europeia e experimentavam então um boom econômico, sob a liderança do então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva. Mas havia outros destinos na mira dos brasileiros. Conforme mapeou VEJA, a revoada abrangia também Espanha, França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. “A procura é desenfreada, nunca vi coisa igual”, espantava-se uma adida da embaixada australiana, que recebia de 30 a 50 pedidos de visto de imigração por dia.

A reportagem ponderava que o brasileiro “sempre foi considerado um mau expatriado”. “Desde as rebeliões da Regência os exilados viveram num movimento pendular, indo e voltando sempre que as coisas melhoravam. Mesmo no regime de 1964, responsável pelo maior êxodo de brasileiros de toda a história nacional, dos mais de 10 000 exilados que se espalharam pelo mundo quase todos retornaram depois da anistia de 1979”, observava a reportagem. “A própria fundação da República, aliás, se fez à custa de um cidadão que não queria partir: deposto em 15 de novembro de 1889, dom Pedro teria preferido continuar no Brasil. Saudoso, foi morrer dois anos depois num modesto hotel de Paris, o Bedford, fazendo-se cumprir seu último desejo de monarca despojado: uma almofada recheada de terra colhida no Brasil serviu-lhe de derradeiro repouso para a cabeça.”

A estagnação econômica abatia sobretudo profissionais com boa formação. “Um profissional liberal de 30 anos que na década de 70 tinha todas as possibilidades de abrir seu próprio negócio hoje intui que isso é praticamente impossível. Em outras palavras, quem não quer ser funcionário público e quem não se sente confortável com a ideia de passar os próximos anos trabalhando para os outros começa a namorar a ideia de ir trabalhar longe, em busca de outras oportunidades”, analisava a reportagem. “Resta o gosto amargo de ver escapulir do Brasil o que o país tem de mais empreendedor, dinâmico e vivo – justamente os cidadãos não anestesiados que, de mala o mochila nas costas, querem viver a vida.”

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