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O erro de Francisco: a Igreja não é ONG, e papa não é livre-pensador

Muitos me perguntaram por que escrevi tão pouco a respeito da vinda do papa ao Brasil. Preferi o silêncio e uma brincadeira que trazia uma realidade fática: “Enquanto ele estava aqui, eu estava em Roma”. É verdade. No dia do grande auê, aliás, eu me encontrava no Vaticano. Francisco concedeu uma entrevista à revista jesuíta La […]

Muitos me perguntaram por que escrevi tão pouco a respeito da vinda do papa ao Brasil. Preferi o silêncio e uma brincadeira que trazia uma realidade fática: “Enquanto ele estava aqui, eu estava em Roma”. É verdade. No dia do grande auê, aliás, eu me encontrava no Vaticano. Francisco concedeu uma entrevista à revista jesuíta La Civiltà Cattolica que, mais uma vez, está gerando barulho. Ele está se especializando, parece, em criar ruídos. Tentarei ler depois a íntegra com calma. Se o que se propaga mundo afora for mesmo verdade, a Igreja caminha para uma grande enrascada, da qual sairá ainda menor, por tentar atrair a simpatia daqueles que, no fundo, não entendem por que ela deva existir.

Extraio trecho de sua fala, publicada na VEJA.com:
“Não precisamos insistir nesses assuntos relacionados a aborto, casamento gay e o uso de contraceptivos. Eu não falei muito sobre essas coisas, e fui repreendido por isso. Não é necessário falar sobre isso todo o tempo (…) Os grandes líderes das pessoas de Deus, como Moisés, sempre deixaram a porta aberta para a dúvida. Você deve deixar a porta aberta para o Senhor.”

Como é que é, Santidade?

Parece-me que a Igreja “insiste” nesses assuntos porque há uma grande insistência, não é?, para que insista nesses assuntos! Está mais do que claro, a esta altura, que a instituição não rejeita, por exemplo, os fiéis homossexuais, reservando-se, aí sim, o direito de ter uma diretriz sobre o tipo de família que considera adequada à comunidade católica. Esse assunto é chato e transita na irracionalidade. Militantes gays reivindicam a igualdade e, ao mesmo tempo, leis especiais que reafirmem a sua diversidade. Não quero me estender sobre esse particular porque retira o foco de minha real restrição.

Ao misturar o aborto num balaio de temas que dizem respeito aos costumes, comete um erro monumental. No dia em que a vida humana deixar de ser, se deixar, uma questão de princípio para a instituição, então Igreja para quê? A sua essência consiste em proclamar a superioridade do humano que é divino. Sem isso, perde-se nas razões contingentes; renuncia a seu compromisso com a eternidade. A quem o papa espera atrair com essa fala?

Francisco diz ter sido repreendido. Não deve ter sido pela Guarda Suíça, não é? Num dos pouquíssimos textos que escrevi a respeito de sua visita ao Brasil, eu mesmo critiquei a sua, vamos dizer, “pegada” apenas sociológica. Acho que seu discurso está fora de foco.

A fala de Francisco atrai a atenção e a simpatia dos que acham que a Igreja Católica só passará a ser aceitável quando deixar de ser a Igreja Católica, transformando-se, quem sabe?, numa ONG. Ao contrário do que se diz, dadas as grandes religiões, o catolicismo é a que busca mais obsessivamente a “modernidade”, ajustando o seu discurso aos grupos influentes. A despeito disso, é alvo frequente da fúria antirreligiosa na imprensa ocidental, o que, é visível, não acontece com o islamismo, por exemplo. A ironia é que as vertentes que mais crescem no Islã são as de cunho fundamentalista — inclusive no Ocidente. Não obstante, os “analistas” são sempre muito cuidadosos em distinguir aquela que seria a “essência” da religião de suas supostas deformações extremistas.

Por mim, o papa estaria dedicado, nesse momento, a iniciar uma outra grande reforma: a do culto católico. Daria início agora a um esforço, que só faria fruto em décadas, para que as missas deixassem de ser uma ladainha aborrecida, levada a efeito, no mais das vezes, por sacerdotes transformados em burocratas da mesmice. E não que eu defenda que padre se confunda com treinador de ginástica ou com cantor de MPB. E isso pode ser feito — aliás, só assim pode ser feito — conservando-se a essência da doutrina.

De resto, se o papa acha que a Igreja é obcecada por esses temas, o chefe da Igreja poderia tê-los ignorado em entrevista concedida a uma revista católica. Com Francisco, por enquanto, antevejo uma Igreja tratada com mais simpatia por seus críticos habituais, mas ainda menor: não atrai os que a repudiam por princípio e corre o risco de perder os fieis que já tem. Igreja não é ONG, e papa não é um livre-pensador. Um amigo italiano me disse por que não via com simpatia o Sumo Pontífice: “Parece-me bom para cura de aldeia, não para comandar a Igreja”. No mês de julho, discordei. Em setembro, estou pensando na sua fala. 

“Esse Reinaldo Azevedo agora decidiu discordar até do papa…” Ah, mas não duvidem! Na entrevista, ele declarou uma coisa óbvia, mas que está gerando barulho: também é um pecador. Claro que é! Com isso, quer dizer que é humano e está sujeito ao erro. Respeito, como católico, a autoridade religiosa do papa. Mas não tenho respeito nenhum por seus erros.

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