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Igreja não é armário

Os primeiros tempos do cristianismo — e, pois, entenda-se, do catolicismo — são plenos de histórias de sacrifício. Valorizam-se a virgindade, a abstinência sexual, o sacrifício monástico, o despojamento de bens materiais. Em nada disso há uma linha inequívoca de conduta. Paulo fala aos viúvos, por exemplo, que não se casem uma segunda vez. Ou […]

Os primeiros tempos do cristianismo — e, pois, entenda-se, do catolicismo — são plenos de histórias de sacrifício. Valorizam-se a virgindade, a abstinência sexual, o sacrifício monástico, o despojamento de bens materiais. Em nada disso há uma linha inequívoca de conduta. Paulo fala aos viúvos, por exemplo, que não se casem uma segunda vez. Ou que se casem: melhor o casamento do que viver “abrasado”.

Prestem atenção neste trecho de Mateus, 19:1-26

1 E aconteceu que, concluindo Jesus estes discursos, saiu da Galiléia, e dirigiu-se aos confins da Judéia, além do Jordão; 2 E seguiram-no grandes multidões, e curou-as ali. 3 Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? 4 Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, 5 E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? 6 Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. 7 Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? 8 Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim. 9 Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. 10 Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar. 11 Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. 12 Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o. 13 Trouxeram-lhe, então, alguns meninos, para que sobre eles pusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreendiam. 14 Jesus, porém, disse: Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus. 15 E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali. 16 E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? 17 E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. 18 Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; 19 Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. 20 Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda? 21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me. 22 E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. 23 Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus. 24 E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. 25 Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se? 26 E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.

Orígenes (pesquisem a respeito) levou a fala ao pé da letra e se mutilou. Foi um grande e polêmico teólogo no Oriente, e sua escolha mais lhe trouxe problemas com a Igreja de então do que propriamente benefícios. No mesmo Mateus, 19, a partir do versículo 21, deve-se entender que não pode haver Deus onde há propriedade? “Se queres ser perfeito…” Mas quem é “perfeito”? Notem a estupefação dos que ouvem Jesus: “Quem poderá salvar-se?” A resposta é um tanto desalentadora: “Aos homens é isso impossível”.

Parece-me um desvio de literalidade castrar-se ou abrir mão de todos os bens sob o pretexto de seguir a palavra de Jesus.

Estou evidenciando aqui que o texto bíblico tem muito de circunstância, e cumpre, me parece, distinguir o que é matéria de princípio do que é conjuntura. Aliás, coitado!, o próprio Origines, que viria a lamentar o suplício que se impôs, assim recomendava. As Escrituras permitem uma leitura muito mais elevada do que a “literal” (que, note-se, faz a festa e a fortuna hoje em dia de seitas neopentecostais): é a leitura “espiritual”.

Evidencio, para usar expressão corrente, que a Bíblia pode ser pau para toda obra. É claro que quem se submete à hierarquia católica sabe muito bem onde está entrando. E, pois, cumpre seguir as regras estabelecidas. Não questiono isso. Muito menos a autoridade de Roma. Não fosse assim, em vez da Igreja Católica, haveria “igrejas”. Não entendam a minha observação como um chamamento à indisciplina. Muito pelo contrário.

Estou dizendo que, ao longo da história, o que foi uma seleção de homens para construir, com dedicação exclusiva, a Igreja de Cristo, tornou-se fonte de perturbação e de desmoralização. Para seguir “princípios”? Não! Trata-se de uma escolha feita, num dado momento e sob certas circunstâncias históricas, que hoje contamina o tecido da Igreja com um óbvio mal-estar.

Não fiz a contabilidade. Mas tendo a achar que existem na Bíblia mais recomendações em favor do casamento do que contra ele. Mas, ainda aqui, estaríamos só no terreno da literalidade. A minha pergunta é outra:o que há na mensagem espiritual de Cristo que recomende que o homem, sacerdote ou não, viva apartado da mulher? Olhe aqui: não importa a que corrente da Igreja você pertença — ou, mais amplamente, do cristianismo, e a resposta é uma só: NADA!!!

Uma Igreja que pudesse acolher um número muito maior de vocações — homens que pudessem formar família — constituiria, aí sim, a verdadeira comunidade eclesiástica. Não é preciso ser muito agudo para perceber que os padres vivem uma realidade que absolutamente os aparta da vida real. E para quê? Para que possam se dedicar mais a Deus e à Palavra? Lamento muito: isso é mentira. Boa parte deles, hoje, infelizmente, ignora até o texto bíblico. O que parece uma vida de renúncia se confunde mais com alienação. Além, claro, da permanente tentação demoníaca da “Escatologia da Libertação”.

O celibato tem de acabar não para revolucionar a Igreja. Trata-se de um movimento de “conservação”. De certo modo, corroída pela “revolução”, ela está hoje. Quantas forem as recomendações contra o casamento que os “literalistas” encontrarem, asseguro, outras poderão ser encontradas a favor dele. A Igreja deve ser um lugar onde se vive uma convicção, não onde se esconde uma condição. Igreja não é armário.

Pegue-se o caso já tristemente célebre de Padre Júlio. Ainda que ele estivesse dizendo apenas a verdade: chegou a comprar uma Pajero para um delinqüente reiterado para ver se “lhe tocava o coração”. É certo que devemos concluir que Padre Júlio, ainda que falasse a verdade, seria um péssimo pai, não é?, se fosse casado e tivesse filhos. Seria um daqueles casos que levaram São Paulo a indagar: “Se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?”

A resposta está dada.

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