Homofobia, antissemitismo, vigarice política e burrice pura e simplesmente

A nojeira da homofobia, do racismo, do preconceito rombudo — da ignorância, enfim — precisa de um pretexto para aparecer, e os estúpidos o chamam, então, de “motivo”. O jornalista Carlos Brickman escreveu um artigo no “Observatório da Imprensa” chamado “Homofobia eleitoral”. Como vocês verão, um blog hospedando na Folha — chamado “Blogay” —, escrito […]

A nojeira da homofobia, do racismo, do preconceito rombudo — da ignorância, enfim — precisa de um pretexto para aparecer, e os estúpidos o chamam, então, de “motivo”. O jornalista Carlos Brickman escreveu um artigo no “Observatório da Imprensa” chamado “Homofobia eleitoral”. Como vocês verão, um blog hospedando na Folha — chamado “Blogay” —, escrito por um gay, publica um post que soma especulações sobre a orientação sexual do prefeito Gilberto Kassab com críticas à sua administração. O que uma coisa tem a ver com a outra? Fosse escrito por um heterossexual, seria um deus nos acuda. Tenho dúvidas se a Folha permitiria a sua publicação. Como o autor é gay, então tudo lhe é permitido — inclusive exercitar o que é uma expressão óbvia de… homofobia! O autor associa aspectos da administração que ele rejeita com uma suposta repressão sexual do administrador. Um lixo!

Ah, mas, nesse caso, ela é ideologicamente orientada. Então pode! Isso é o que chamo de “sindicalismo gay”. Não é que essa gente cobre respeito a todos os seres humanos, inclusive aos gays. Nem mesmo cobram respeito a todos os gays. O que exige é que se respeitem os gays que têm uma pauta determinada, que carregam bandeira — MUITO ESPECIALMENTE A BANDEIRA PARTIDÁRIA. Trata-se de um exercício de burrice e preconceito às avessas.

Antissemitismo
O texto de Brickman trata ainda de outro tema: o antissemitismo. O mal vive por aí, apenas adormecido, mas não morto. Ao menor pretexto, a canalha se revela. Bóris Casoy e Alberto Dines andaram trocando alguns insultos na rede. Não entrarei na polêmica neste post, embora destaque que Bóris foi inicialmente alvo de um ataque infeliz — mais um! —, motivado por outro preconceito: o ideológico. Brickaman conta o que aconteceu.

Os asquerosos estão em marcha. Leiam o texto.
*
O tema da eleição anterior (aquele anúncio nojento, segundo o qual não se sabia se o prefeito paulistano Gilberto Kassab, então candidato, era casado, tinha filhos, etc.) está de volta. E, desta vez, mais explícito: na eleição anterior, insinuava-se que alguma coisa estava equivocada na sexualidade do prefeito, como se alguém tivesse algo a ver com isso. Agora, usando a Internet – o blog Blogay, abrigado no maior portal do país, o poderoso UOL – a baixaria é mais direta. Já no título, surge a pergunta: “Gilberto Kassab é gay?”

De onde surgiu o título? Segundo o autor do texto, “várias pessoas, vira e mexe”, fazem a pergunta. E têm, sempre segundo o autor, mais curiosidade sobre a orientação sexual do prefeito do que de atores de novela ou estrelas de Hollywood. Na verdade, o objetivo do texto é outro, e aparece logo depois: é dizer que a orientação sexual de Kassab não importa, mas que ele é autoritário.

Truque baixo: se a orientação sexual não importa ao autor, por que está no título? Porque o objetivo, além de chamar a atenção do público, é explicar os defeitos que vê em Kassab pela orientação sexual que lhe atribui. “Alguma coisa deve ter de errado, alguém que só sabe dizer não. ‘Pode ser gay ultra reprimido’, devem pensar muitos que me perguntam sobre sua orientação sexual. Mas este não é o caso nem a explicação muito menos a desculpa, o que existe de verdade e fato é um governo municipal repressor.”

Vale a insinuação, portanto, para atacar o Governo, sem ter de falar em política ou administração. A crítica política é livre, mas tem volta; as criticas administrativas podem ser rebatidas; as críticas sobre posturas municipais são frequentemente injustas e a população o percebe. Mas como as insinuações sobre orientação sexual muitas vezes são ignoradas, para que não ganhem corpo, servem para proteger de contestação e resposta as afirmações eleitorais do texto. Falta coragem para afirmar que o alvo é gay, é lésbica, é bissexual, é seja lá o que for. Troca-se isso pela insinuação covarde, cobrindo uma iniciativa eleitoral, partidária, com o manto da fofoca. Pior: com a fofoca que se repete a cada quatro anos, periodicamente, sempre na época das eleições.

É inominável: busca-se o que há de pior na natureza humana, a intolerância, para tentar ganhar alguns votos. O cavalheiro é gay porque alguém disse que é gay; e, se é gay, seu comportamento é sempre nocivo, idêntico ao de todos os gays. São fofocas autoconfirmantes: a informação é verdadeira porque alguém disse que é verdadeira, independentemente do que aconteça. Nos Estados Unidos, onde há bolsões fundamentalistas de grande influência, as mudanças boas aconteceram rapidamente: um católico, John Kennedy, se elegeu presidente, um negro, Barack Obama, está hoje na Casa Branca. 

Aqui no Brasil, perde-se tempo discutindo se “x” ou “y” é veado ou não — não por preconceito, naturalmente, que o fofoqueiro tem muitos amigos gays, mas porque o homossexual reprimido, seja ele quem for, tem sempre comportamento socialmente inaceitável.

Que feio! Depois esse pessoal reclama quando perde as eleições.

A união de estrelas
Um ex-jogador de futebol dos mais importantes, apontado como novo par de um conhecido apresentador de TV, conseguiu obrigar judicialmente uma colunista de televisão a retirar de seus arquivos na Internet todas as referências que fez à ligação que disse haver entre ambos. Nada mais justo: é um problema que diz respeito apenas aos dois. Se são apenas amigos, se se conheceram numa festa, foram fotografados juntos e nunca mais se viram, se são mesmo um par homossexual, que é que nós temos com isso? Vale pela fofoca, pelos comentários em mesa de bar; não é um assunto que deva ser tratado pelos meios de comunicação, a menos que os parceiros, ao menos implicitamente, concordem com o uso de sua imagem pública.

Quanto astros populares se encontram em locais públicos, frequentam a praia juntos, viajam um em companhia do outro, implicitamente aceitam o noticiário a seu respeito. Investigá-los, porém, é outro tema: espionar duas pessoas para saber se estão namorando é inaceitável. No caso do ex-craque e do apresentador, não se expuseram em qualquer momento à curiosidade pública. 

Se estão ou não namorando, que sejam felizes, e que fiquem livres do patrulhamento alheio.

Os rabichos do racismo
Na troca de adjetivos entre Alberto Dines e Bóris Casoy, um fato chamou especialmente a atenção deste colunista: a matéria do jornal virtual Brasil247 abriu espaço para comentários (aparentemente livres de qualquer moderação). E o que se viu foi um festival de antissemitismo — a mesma intolerância que se tenta levantar também contra os gays. Em 74 comentários, há onze virulentamente antissemitas (mais um ou outro com piadinhas sobre judeus). Os onze,naturalmente, assinam com pseudônimo. Um, dizendo chamar-se Mano, escreve: “Boris, Boris, Boris, seu judeuzinho de merda.. tô loko pra te mandar pros 5º dos infernos.. Ah! se eu te pego…” 

Outro, que se assina Zullu Amarelo, acredita que nos meios de comunicação todos sejam judeus (texto original, sem correções): “grande parcela de apresentadores da televisão são da comunidade judaica. essa comunidade não tem nem 300mil pessoas no brasil, mas são bem representados na area de comunicação. Só na Globo, no Jornal Hoje, Sandra Annemberg, no Jornal Nacional William Bonner, no Jornal da Noite, William Waack e Cristiane Pelajo, na area de esportes Tiago Leifert, cujo pai é diretor, Tande, na area de entretenimento Luciano Huck, Pedro Bial, Serginho Groissman, atores também muitos, enquanto estão fazendo o bem nada de anormal, mas quando se propõem a difamar e destruir governos eleitos legitimamente pelo voto popular ai já é demais, esses ancoras de jornais poderiam pelo menos respeitar o povo brasileiro, a raça judaica considerada inteligente há seculos, deviam pelos menos serem imparciais nas reportagens,”

É impressionante como, anônimos, certos personagens se tornam corajosos. É impressionante como são tolerados, em veículos de Internet, comentários anônimos que são flagrantemente contrários à lei. É impressionante como, ainda hoje, a intolerância – contra quaisquer minorias – não tenha sido percebida como aquilo que realmente é, uma manifestação clara e límpida de imbecilidade. 

 

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