Ele não é direitista, não! Ele é um abobalhado. E as esquerdas adoram tê-lo como adversário!

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) voltou a falar bobagem pelos cotovelos num programa de televisão — o CQC, da Band. Antes que chegue ao caso propriamente, algumas considerações prévias. Se eu defendesse cotas raciais, revisão da Lei da Anistia ou a tal lei que pune a homofobia— qualquer pessoa alfabetizada que a tenha lido sabe […]

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) voltou a falar bobagem pelos cotovelos num programa de televisão — o CQC, da Band. Antes que chegue ao caso propriamente, algumas considerações prévias.

Se eu defendesse cotas raciais, revisão da Lei da Anistia ou a tal lei que pune a homofobia— qualquer pessoa alfabetizada que a tenha lido sabe que, ela sim, é fascistóide —, eu adoraria ter um adversário como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Ele é o inimigo que as esquerdas adoram ter porque fala bobagem pelos cotovelos.  No dia 25 de novembro do ano passado, escrevi um texto criticando-o duramente. Alguns bobos acharam que eu estava tentando fazer embaixadinha para as esquerdas. Eu??? Então escrevi outro. Este senhor brutaliza qualquer debate. Tem o dom especial de transformar em lixo autoritário teses que podem até estar corretas na essência. Faltam-lhe preparo intelectual, estudo, talento, tolerância e espírito democrático. Engana-se quem acha que ele é direitista. Ele só é abobalhado. E um abobalhado é o adversário que as esquerdas, ou seus sucedâneos no pensamento, pediram a Deus.

Acho que escrevi na imprensa brasileira a mais detalhada crítica à PL 122, a tal lei que pune a homofobia, que boa parte dos meus colegas nem mesmo leu. Pra quê? Basta ser a favor! O texto está  aqui. Sob o pretexto de proteger gays, agride direitos fundamentais, inclusive a liberdade de expressão, assim como aquele plano censurava a imprensa sob o pretexto de defender os direitos humanos. Eu faço esse debate com a maior tranqüilidade, sem temer a patrulha. Trata-se de mais uma lei que, se aprovada, acabará derrubado no Supremo. Gente como Bolsonaro, com suas tolices, com sua truculência ignorante, vem nos lembrar que a diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem. Já bastam as  as trapaças das esquerdas!

No ano passado, em meio a um debate acalorado sobre o PL 122 e aquela outra estupidez, que é a lei que pune a palmada, Bolsonaro foi a um programa de TV e disse a seguinte pérola:
“Se o filho começa a ficar assim meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele”.
Certa imprensa, claro!, o procurou para falar mais tolices. E ele mandou ver:
“O pai tem o direito de dar umas palmadas no filho dele. Se o garoto anda com maconheiro, ele vai acabar cheirando, e, se anda com gay, vai virar boiola com toda certeza. Nesse momento, umas palmadas nele coloca o garoto no rumo certo”.

Pronto! Os que se opõem às duas leis por bons motivos, com base nos fundamentos democráticos da Constituição, passam a ter, então, dois adversários: os que defendem as propostas autoritárias e… Bolsonaro! Espertamente, os “progressistas” o escolhem como um “símbolo” do pensamento adversário. Quanto mais ignorante ele for, melhor. O CQC, convenham, não o convidou em busca de luzes, não é mesmo? Como produto da hora, quanto mais treva, melhor! Convenham: ele foi um sucesso! Quem teve a idéia de convidá-lo foi bem-sucedido no seu intento. Sem contar que os entrevistadores podem esculhambá-lo à vontade, como fizeram.

Antes que trate no núcleo da nova polêmica, faço questão de lembrar o que escrevi em novembro do ano passado (em azul):
As estultices ditas por Bolsonaro colaboram com esses extremismos legiferantes, que acabam agredindo direitos individuais e universais sob o pretexto de proteger minorias. Com a mesma energia com que aponto o caráter autoritário dessas leis, repudio essa coleção de grosserias. E não o faço porque me converti ao “outro-ladismo”, que tanto repudio, ou ao juízo “nem-nem”. Naquele mesmo texto em que escancaro o caráter autoritário da PL 122, deixei claro que não considero que o sujeito é gay por opção – até fiz uma ironia, afirmando que “homossexualidade não pega”, já que não é doença. Disse-me ainda favorável à união civil e, a depender do caso, à adoção de crianças por parceiros gays. E isso nada tem a ver com uma lei que possa impedir as pessoas ou as religiões de dizer o que pensam a respeito.

As palavras deste senhor são asquerosas. Para quase não variar, lá está ele metendo os pés pelo cérebro, falando bobagem às pencas, provocando um efeito contrário ao supostamente pretendido. Os petralhas poderiam dizer: “Vocês estão do mesmo lado!” Uma ova! Nem no mérito nem nos desdobramentos. Não estamos do mesmo lado porque eu não acho que a palmada possa fazer um gay deixar de ser gay – eu, de fato, acredito que não existe um “que fazer” nesse caso. Recomendo aos pais que amem e aceitem seus filhos como são, deixando claro que há o caminho da dignidade e da indignidade na hetero e na homossexualidade. E não estamos do mesmo lado também porque eu combato a PL 122, e Bolsonaro é um desses que fazem essa lei parecer necessária, justa e democrática.

A mais nova besteira
Bolsonaro participou no CQC de um quadro em que o entrevistado responde a uma bateria de perguntas de várias pessoas, boa parte delas, nota-se, provocações destinadas a fazê-lo falar  tudo o que pensa — e aí está o perigo… Nem me atenho à cretinice da tese segundo a qual não há gays em famílias bem-estruturadas, bem-educadas, com o pai presente. Santo Deus!

Preta Gil, filha de Gilberto Gil, perguntou  o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma negra. E ele respondeu:
“Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu.”

Bolsonaro diz que se confundiu e entendeu que Preta lhe indagara o que faria se seu filho namorasse um gay. O próprio apresentador Marcelo Tas comentou que ele deve mesmo ter entendido errado. Dado o conteúdo da resposta, parece-me que a confusão é ao menos verossímil. Pois é… Se Bolsonaro pensasse um pouquinho antes de falar, talvez não estivesse agora metido numa confusão. O diabo é que não deve pensar nem antes nem depois…

Contra intolerância
Já o critiquei antes — e fui alvo de alguns furiosos — e o critico agora de novo! Este blog é contra a intolerância de um deputado do Piauí que acredita que pode suspender a Constituição em nome da honra do seu estado e é contra a truculência dos Bolsonaros da vida. Gosto é de civilização! Não aceito que o politicamente correto seja transformado numa polícia de pensamento. Do mesmo modo, recuso-me, sob esse pretexto, a dar guarida à ignorância travestida de amor à verdade.

A lei de cotas violenta o princípio da igualdade, garantido na Constituição. O maior aliado das cotas é Bolsonaro justamente porque é contra!
A lei de combate à homofobia agride a liberdade de expressão, garantida na Constituição. O maior aliado da lei é Bolsonaro justamente porque é contra!
A revisão da Lei da Anistia, do mesmo modo, viola princípios constitucionais. O maior aliado da revisão é Bolsonaro justamente porque é contra!

Bolsonaro é, em suma, o inimigo que as esquerdas pediram aos céus. Logo, ele é o seu melhor aliado objetivo.

Encerro
Termino este texto com a mesma declaração que fiz no dia 25 —  e espero que isso desestimule algumas pessoas a enviar comentários exaltando a “coragem” do deputado. Creio que ele está sendo apenas oportunista, jogando para a sua aguerrida e minúscula torcida de sectários retóricos, comprometendo o debate civilizado.  Quem acha que este blog e Bolsonaro podem transitar na mesma faixa faz uma idéia errada ou de Bolsonaro ou de mim. Vamos à conclusão.

Só escrevo aquilo em que acredito e não me sinto certo ou errado a depender de quantos estejam do meu lado. Nada impede que a mentira tenha muitas companhias e que a verdade seja solitária, o que também não quer dizer que a solidão seja um poço de virtudes, e as crenças coletivas, de vícios.

A minha crença é a liberdade. Na minha imaginação, os meus adversários estão sempre de pé, lutando. Eu os combato porque incivilizados, não porque considere a minha eventual incivilidade superior à deles. Eu acredito que é uma imposição moral controlar a besta que mora em todos nós, em vez de soltá-la.

Um brinde à liberdade e às idéias que nos fazem melhores e mais donos do nosso destino! No mundo laico, essa é a minha religião. A minha ética é a do guerreiro; quem elimina ou constrange o outro na porrada é o terror.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s