Crescimento recorde esconde situação da indústria brasileira

A propósito da concorrência chinesa e do crescimento recorde da indústria no ano passado, leia artigo de Rogério César de Souza, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), publicado hoje na Folha. Ok, dê-se um desconto: ele trabalha para uma das entidades que representam a indústria. A questão é saber se o […]

A propósito da concorrência chinesa e do crescimento recorde da indústria no ano passado, leia artigo de Rogério César de Souza, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), publicado hoje na Folha. Ok, dê-se um desconto: ele trabalha para uma das entidades que representam a indústria. A questão é saber se o que ele diz é ou não procedente.
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O crescimento de 10,5% da produção industrial brasileira em 2010 mais esconde do que revela o que, de fato, ocorreu com a indústria. Ao desagregar os dados, observa-se, ao longo do ano de 2010, um comportamento de perda de ritmo ou mesmo de recuo em todos os setores. Ou seja, o mau momento vivido pela indústria é geral. E mais: na comparação com o patamar de setembro de 2008, quando do agravamento da crise internacional, a produção de dezembro de 2010 é 2,4% menor. Passaram-se mais de dois anos, e a indústria fechou 2010 com num nível de produção inferior ao visto naquele mês.

Esse declínio da produção industrial, em um contexto de elevado crescimento do mercado interno, é explicado pela substituição do bem nacional pelo importado. É verdade que, quando uma economia cresce, a importação contribui efetivamente para complementar a oferta doméstica. Mas a enxurrada de importados nos últimos anos, sobretudo em 2010, já ultrapassou essa dimensão e passou a restringir a produção doméstica. Esses resultados indicam que há uma evidente perda de competitividade de se produzir no Brasil.

O país é caro para produzir (e ainda mais para produzir para o exterior), e os fatores que explicam isso são conhecidos: altas taxas de juros dos empréstimos domésticos para capital de giro; pesada carga tributária e ausência de fontes voluntárias de financiamento de longo prazo para investimentos. Além de excesso de tributos que o exportador nacional ainda carrega nas vendas externas, encargos trabalhistas elevados, infraestrutura insuficiente ou precária e, por fim, mas não menos importante, níveis de taxas de juros e câmbio absolutamente fora do lugar.

Pode-se dizer que 2010 será lembrado mais por explicitar os entraves ao bom curso da produção nacional do que pela recuperação (ainda que parcial) dos níveis de produção de antes da crise. E quanto a 2011? O que se pode afirmar é que a situação da indústria nacional só mudará se esses fatores forem enfrentados, desde já, com mais firmeza, juntamente com maiores esforços para aumentar a produtividade das empresas brasileiras. As perspectivas, como se vê, não são as melhores.

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