Alberto Dines, as fezes e a etimologia

Eugenio Bucci, que já dirigiu a Radiobras e que agora vai ajudar Franklin Martins a implantar a TV Pública — vocês sabem, a Lula News, de Tereza Cruvinel — publica hoje o quarto e último artigo de uma série no Observatório da Imprensa. O título: “Jornalista precisa de formação continuada”. Não li nenhum deles. Mas […]

Eugenio Bucci, que já dirigiu a Radiobras e que agora vai ajudar Franklin Martins a implantar a TV Pública — vocês sabem, a Lula News, de Tereza Cruvinel — publica hoje o quarto e último artigo de uma série no Observatório da Imprensa. O título: “Jornalista precisa de formação continuada”. Não li nenhum deles. Mas concordo com ele. Aliás, concordo tanto que acredito que médicos, contadores e até padres precisam de formação continuada. E, a depender do caso, penitência. Para que parem de queimar a hóstia.

Vejam, por exemplo, o caso de Alberto Dines, o Grande Chefe Vermelho do Observatório. Qual é o seu pecado? A “falta de formação continuada”. Se ele estudasse etimologia, por exemplo, não sairia dizendo besteira por aí. O homem é tão confiante em seu olho clínico e observador — emblema, aliás, de seu site — que não lhe ocorre que as palavras possam não ser o que parecem. Numa tradução, vocês sabem, as armadilhas estão nos falsos cognatos; num moralista das palavras, na falsa etimologia: ela é o falso cognato do pensamento.

É o caso de “enfezado”. Lá no meu interior, quando se diz que o “cabocro tá enfezado”, não ocorre pensar que ele está cheio de fezes, de cocô. Ainda bem! Porque seria mesmo um erro. Isso é coisa de etimologia de falso intelectual, entendem?, de jornalista que não optou pela “formação continuada”. É um dos casos, entre muitos, em que o senso comum está errado.

Num daqueles artigos muito pudorosos, que lhe são soprados pelo Altíssimo, solenes como a entrega das Tábuas a Moisés (no caso de Dines, a tarefa ainda sai facilitada porque ele não é gago), escreve o homem que, além de me chamar de “cão de guarda” (agora da inculta e bela), abriu as águas da razão:

“O ringue onde se exibem os enfezados³ é de papel impresso, foi na primeira página de um dos maiores jornalões brasileiros que apareceu o desabafo da celebridade agredida, foi na sua seção de cartas que começou o confronto equalizador entre linchadores e anti-linchadores.”

Nem vou me incomodar com o hífen fora do lugar. Viram aquele número “3” ali? Ele escreve texto com legenda. Coisa de gente que quer ser mesmo compreendida. E explica ao leitor do Observatório:

“3. Atenção para a etimologia: enfezado vem de fezes, quem é dominado por raivas precisa purgar-se no sanitário”.

Está errado. Tivesse recorrido ao dicionário, nem precisava ser um de etimologia, não passaria o carão que lhe aplica um meu leitor:

Prezado Reinaldo,
Sempre reputei o Alberto Dines um bom escrevinhador, cioso com a língua culta, embora exagerado na adjetivação. Lendo o artigo dele, espantou-me o disparate contido na terceira nota de rodapé, na qual o veterano jornalista, mui didaticamente, explica que o adjetivo enfezado guarda relação etimológica com o substantivo fezes! Como é possível esse bravo campeão da imprensa soltar tamanho disparate, ajudando assim a espalhar aquilo que o professor Cláudio Moreno chama “etimologia de meia-pataca”?

(vide: http://www.sualingua.com.br/02/02_nas_coxas.htm)
Basta consultar o excelente Houaiss. Enfezado origina-se do verbo latino “infenso”, que significa “ser hostil a”; “fezes” vem do substantivo “faex”, “faecis”, que significa “lama, resíduo, sedimento, fezes”.
Pelo bem da língua portuguesa — e da cultura de modo geral—, peço-lhe encarecidamente a divulgação deste breve comentário. Como o erro está sendo propagado, façamos a profilaxia que está à mão: divulgar o que é certo.
Obrigado,
Rafael M. de Souza

Pois é, Rafael, que se façam, então, as luzes nesse caso ao menos. Segue a íntegra do item “etimologia”, no Dicionário do Houaiss, para a palavra “enfezado”:
“lat. infensátum > infensado ‘encarniçado contra, hostil’ part. pas. do v. lat. infenso,as,ávi,átum,áre ‘encarniçar-se contra, ser hostil a’, numa evolução semelhante à de defesa/devesa, citada em -fend-; admitir essa nova base etim. implica acolher enfesado como a grafia que se justifica, em lugar da grafia enfezado, historicamente equivocada; ver -fend-“
Não espero a publicação deste post no Observatório da Imprensa, é claro. Basta uma notinha de Dines para tirar seus leitores da escuridão.
*
Ah, claro. Se houver dúvida, há outras referências especializadas (não em cocô, mas em etimologia), que poderão ser oportunamente citadas. Como lembrou minha simpática leitora, leão com ascendente em escorpião.
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