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A história do cineasta sul-coreano sequestrado por Kim Jong-il

Criar leis de incentivo à cultura? Bobagem! É muito mais fácil promover um sequestro internacional!

Quando o assunto é Coreia do Norte, nada parece ser estranho ou exagerado demais. A própria sobrevivência do regime soa surreal para o mundo, mas a história que segue talvez possa dar alguma luz no entendimento de como é possível que uma dinastia familiar permaneça no poder após meio século de existência.

Nenhum governo ditatorial se mantém em pé pelo uso solitário da força. É preciso que um projeto cultural abrangente convença as pessoas de que aquele é o caminho certo a seguir. Conforme o relato de Jang Jin-Sun, poeta norte-coreano dissidente, no seu país de origem não existe apenas uma ditadura física. Existe também o que chama de “ditadura emocional”.

Através de mensagens embutidas em livros, filmes e canções, as crianças crescem acreditando que o Grande Líder é infalível, que possui características divinas e por isso sabe o que é melhor para o seu povo. Para projetos a longo prazo, essa dominação pela palavra é seguramente mais decisiva do que a dominação inicial pela espada.

Dos três ditadores norte-coreanos, Kim Jong-il, pai do atual homem-foguete, certamente foi o mais tímido e o menos carismático. Talvez por isso tenha dado mais atenção às estratégias culturais do seu governo. Em meados dos anos 1970, ciente da importância crescente do audiovisual na manipulação das massas, fez um desabafo quanto à má qualidade do cinema norte-coreano.

Suas palavras foram gravadas num áudio recentemente divulgado na internet:

— Por que todos os nossos filmes possuem enredos ideológicos? — reclamou Kim. — Por que têm tantas cenas de choro? Não temos nenhum filme concorrendo em festivais internacionais!

Ele não estava contente com a lavagem cerebral simplista que existia desde o princípio do regime. Queria mostrar ao mundo que o comunismo coreano era capaz de produzir obras de arte, mas ao mesmo tempo não podia contar com os próprios súditos, “pessoas de mente estreita”, segundo suas palavras — algo esperado num sistema que filtra ou omite as informações exteriores.

— Mas na Coreia do Sul a tecnologia é melhor — reconheceu. — Eu vi filmes sul-coreanos. Perguntei a meu conselheiro: qual é o melhor diretor no sul? Ele disse que seu nome é Shin. Como podemos convencê-lo a vir aqui? Como posso atrair esse diretor Shin?

Estava se referindo a Shin Sang-ok, cineasta premiado internacionalmente e muito popular nos anos 50 e 60. Quanto a “atraí-lo” ou “convencê-lo”, verbos que soavam como piadas na boca de Kim Jong-il, isso não seria problema para os seus espiões.

Iniciaram a operação em 1978 com o sequestro da ex-esposa de Shin, a atriz Choi Eun-hee. Recém-divorciada e precisando de dinheiro, ela viajou até Hong Kong por causa de uma falsa proposta de trabalho. Amarrada e amordaçada, foi levada num cargueiro até a Coreia do Norte. Meses depois, Shin teve o mesmo destino ao ir a Hong Kong para tentar descobrir o que havia acontecido com a mãe dos seus dois filhos.

Preso num campo de concentração, o cineasta tentou fugir algumas vezes, o que atrasou em 5 anos a sua primeira reunião com o ditador. Quando isso aconteceu, finalmente reencontrou a ex-mulher. Voltaram a se casar e passaram a trabalhar no estúdio montado por Kim Jong-il, segundo ele o maior e mais bem equipado de todo o oriente. Produziram filme atrás de filme, alguns claramente projetados para os festivais europeus, como o drama Salt, de 1985, e outros de apelo mais popular, como Pulgasari, a versão comunista do monstro Godzilla.

É verdade que o departamento norte-coreano de propaganda deu mais liberdade criativa a Shin Sang-ok, mas basta assistir a 10 minutos do Pulgasari — disponível no YouTube com legendas em inglês — para ficar claro que se trata de mera propaganda política enrustida. Monstro do bem, Pulgasari é a representação alegórica do partido comunista. De bichinho miúdo e inofensivo, vai crescendo e se torna um gigante para auxiliar os camponeses na luta contra os latifundiários malvados que dominavam a Coreia na Idade Média.

Conforme as provas que produziram, Shin e Choi resolveram agir como aduladores para conquistar a confiança de Kim Jong-il. Receberam permissão para representar o país nos tão cobiçados festivais internacionais — mas sempre vigiados — até que em 1986, durante um evento na Áustria, conseguiram fugir e pedir asilo na embaixada americana de Viena.

Shin voltaria a dirigir filmes nos Estados Unidos e na Coreia do Sul. Morreu em 2006. Choi está com 90 anos de idade. O seu depoimento serviu de base para um documentário chamado Os Amantes e o Déspota, disponível na Netflix, que conta toda a história em detalhes.

Entre a CIA e o serviço secreto sul-coreano, ainda resta a suspeita de que o casal teria migrado para a Coreia do Norte por vontade própria.

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